O futuro das emissoras universitárias diante da chegada da tv digital avançada

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Foto: Fabio Barros Mande um e-mail

Ao longo das últimas três décadas, as redes de televisão ligadas a instituições de ensino superior no Brasil vêm desempenhando um papel crucial como elo entre o conhecimento científico gerado nos campi e a população em geral. No entanto, esse ecossistema de comunicação pública atravessa atualmente um momento de profunda transformação estrutural, enfrentando sérios desafios que colocam em risco a sua capilaridade e a própria continuidade no modelo tradicional de transmissão e distribuição de conteúdo.

Um dos obstáculos mais recentes e complexos decorre da mudança de postura adotada pelas operadoras de televisão por assinatura. Historicamente amparadas pelas diretrizes da antiga Lei do Cabo, as emissoras acadêmicas garantiam espaço obrigatório nas grades de programação dessas empresas. Contudo, o panorama mercadológico mudou de maneira drástica nos últimos anos. De acordo com Malu Mota, diretora-geral do CNU-SP e vice-presidente da Associação Brasileira de Televisões Universitárias (ABTU), as companhias de telecomunicações demonstraram desinteresse em continuar carregando esses sinais, abrindo uma discussão urgente sobre onde e como escoar a vasta produção intelectual das universidades.

Diante desse cenário adverso, instituições de peso decidiram unir forças para contornar as barreiras impostas pelo setor privado. “Unesp, PUC, Zumbi dos Palmares e Unip se uniram para decidir como continuar levando conhecimento, assim nasceu o CNU Play, que tem desafios, mas é um caminho”, pontua a professora, destacando que o material produzido internamente representa um ativo intangível de valor inestimável que precisa transpor os muros acadêmicos.

A fragmentação do setor e a forte migração para o ambiente digital

O diagnóstico estatístico da comunicação universitária brasileira expõe uma realidade marcada por forte desorganização e assimetria na distribuição. Atualmente, cerca de 190 emissoras no país se autodeclaran como televisões universitárias. Contudo, Francisco Machado Filho, presidente da ABTU e diretor da TV Unesp, faz um alerta importante: muitas dessas estruturas não possuem, de fato, a natureza típica de uma emissora de TV.

Além disso, o mapa da exibição revela disparidades profundas. Enquanto cem por cento dessas iniciativas marcam presença na plataforma de vídeos YouTube, aproximadamente 65% operam exclusivamente no ambiente da internet. O enfraquecimento do modelo tradicional fica ainda mais evidente ao constatar que 66 emissoras que mantinham espaço na TV a cabo encontram-se atualmente em processos de desligamento, ao passo que apenas 29 conseguem operar de forma efetiva na TV aberta convencional.

Para tentar preencher essas lacunas e garantir a circulação de suas produções, a ABTU desenvolveu o ABTUPlay, uma ferramenta colaborativa de compartilhamento que já reúne mais de 600 vídeos e presta atendimento a mais de 30 emissoras legislativas. Paralelamente, o material acadêmico busca capilaridade em canais nacionais via satélite utilizando o sistema DTH, bem como na plataforma EduPlay, gerida pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP).

O desafio tecnológico da TV 3.0 e a ameaça de exclusão

No horizonte tecnológico do setor, a chegada iminente da TV 3.0 — a nova geração da televisão digital aberta que promete unificar a transmissão linear de sinal com os recursos interativos da internet — traz consigo uma preocupação central: o risco de exclusão das instituições de ensino de menor porte.

Segundo as avaliações de Francisco Machado Filho, a integração a esse novo padrão tecnológico avançado está se viabilizando gradualmente para as universidades federais, mas corre o sério risco de deixar de lado as demais instituições de ensino superior. “É um debate que temos que começar a fazer”, argumenta o docente, enfatizando a urgência de políticas inclusivas para o setor.

Especialistas da área reforçam que a sobrevivência a longo prazo dessas emissoras públicas não dependerá apenas da adoção isolada de novas tecnologias, mas fundamentalmente de um reconhecimento político e social mais amplo acerca da relevância da comunicação pública. Sem a implementação de políticas públicas consistentes e perenes, as TVs universitárias ficam vulneráveis à exclusão por escalas estritamente econômicas, tornando-se reféns de grandes corporações de tecnologia e sofrendo com severas limitações de infraestrutura e aquisição de equipamentos modernos.

Mobilização política e a busca por diretrizes em Brasília

Como reação a esse cenário de vulnerabilidade, o setor acadêmico e de comunicação pública articula uma agenda de mobilização nacional direcionada a Brasília. O principal intuito dessa mobilização é a realização do 2º Fórum de Comunicação Pública, evento estratégico projetado para colocar na pauta governamental a presença obrigatória e protegida da comunicação pública dentro das novas plataformas de streaming e do ecossistema da TV 3.0.

Além da proteção regulatória, o fórum pretende incentivar a destinação de investimentos voltados à inovação técnica, como a modernização de redes de entrega de conteúdo e infraestrutura digital básica. “Precisamos mudar essa percepção”, conclui Machado Filho, reforçando que assegurar o direito da sociedade ao acesso amplo à produção científica e cultural das universidades é, antes de tudo, um indicador fundamental da qualidade democrática do país.

Fonte:: convergenciadigital.com.br

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