Governo federal aposta na parceria com Pequim para garantir autonomia tecnológica

Redação Rádio Plug
6 min. de leitura
Brasil é um dos 30 integrantes da Waico, junto ...

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem buscado intensificar a cooperação tecnológica junto à China através de sua integração à Waico (Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial), sediada em Pequim. Contudo, o Palácio do Planalto e o Ministério das Relações Exteriores fazem questão de ressaltar que essa aproximação não está fundamentada em um alinhamento político tradicional.

Durante um evento em formato de webinar promovido pelo CEBC (Conselho Empresarial Brasil-China), o embaixador Eugênio Vargas Garcia, que lidera o Departamento de Ciência, Tecnologia e Propriedade Intelectual do Itamaraty, enfatizou que a busca pela soberania digital figura entre as principais metas da atual gestão federal.

“O alinhamento [à China] não foi, não é, e não será o objetivo brasileiro ao aderir ao Waico […] Estamos colocando em prática o conceito de soberania digital que tem sido muito discutido, inclusive dentro do governo. O nosso entendimento é que é um processo contínuo de desenvolvimento de capacidades e diminuição de dependências para atingir níveis mais elevados de autonomia tecnológica”, declarou o diplomata durante sua participação no debate online.

De acordo com Garcia, a diretriz adotada pelo Brasil consiste na diversificação de parceiros e fornecedores comerciais e tecnológicos, com o propósito explícito de mitigar vulnerabilidades e elevar o grau de independência do país no setor. A aproximação estratégica com o mercado chinês é vista como um pilar para fortalecer as competências nacionais sem criar amarras exclusivas.

Nessa perspectiva, a cooperação com atores internacionais atua como um mecanismo para acelerar a aquisição de ferramentas de ponta, evitando a dependência excessiva de uma única nação ou de um grupo restrito de fornecedores. Essa descentralização de parcerias é tratada pelo Itamaraty como uma ferramenta essencial de gestão de riscos geopolíticos e tecnológicos.

Projetos de infraestrutura e supercomputadores

Um exemplo prático dessa estratégia multifacetada pode ser observado no ambicioso projeto governamental voltado à instalação de supercomputadores no território nacional. Um dos equipamentos previstos no plano deverá ser alocado no Rio de Janeiro, contando com o envolvimento e a participação direta de tecnologia e capital chinês.

Em contrapartida, outro supercomputador será instalado na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, e tem planejamento para operar com unidades de processamento gráfico (GPUs) da Nvidia. O edital correspondente a este projeto, contudo, foi desenhado para assegurar a livre concorrência entre diferentes fornecedores do mercado global.

A formulação dos editais conduzida pelo Itamaraty e demais órgãos competentes também estabelece exigências firmes de contrapartidas voltadas ao fortalecimento da base industrial e científica do Brasil. Entre os requisitos impostos estão a obrigação de transferência de tecnologia, programas estruturados para a formação de mão de obra qualificada e o estímulo direto ao setor produtivo local.

Como exemplo, o edital para a aquisição e instalação do supercomputador estipula a meta de capacitar 3.000 especialistas na área ao longo de um período de três anos, além de cobrar dos parceiros estratégicos um plano concreto para expandir a capacidade produtiva interna do país.

“Nós queremos produtos e serviços digitais que vêm do estrangeiro para acelerar o acesso à tecnologia de ponta, mas sem ficar aprisionados no fornecedor. Então essa alternativa de você fabricar localmente ou produzir com meios próprios, às vezes é irrealista ou muito difícil e vai demorar demais”, pontuou Garcia ao defender o modelo de cooperação mista.

Para o representante do Itamaraty, a abordagem ideal combina a importação pontual de tecnologia estrangeira com a fabricação parcial de componentes em solo brasileiro, elevando progressivamente o índice de conteúdo e participação nacional nas cadeias produtivas globais de alta tecnologia.

O papel e os objetivos da Waico

Criada formalmente em julho de 2026 por iniciativa do presidente da China, Xi Jinping, a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial tem atraído diversos países interessados em desenvolver infraestrutura digital. Atualmente, o Brasil integra o grupo ao lado de outras 30 nações soberanas, incluindo potências como a Rússia e a África do Sul.

Entre as principais diretrizes que motivaram a fundação do bloco está o compartilhamento de modelos abertos de inteligência artificial. O governo chinês tem sinalizado o compromisso de disponibilizar ferramentas avançadas para nações que ainda enfrentam barreiras e deficiências em suas infraestruturas tecnológicas e arquiteturas de computação dedicadas à IA.

Especialistas apontam que, ao fundar essa estrutura de cooperação internacional, Pequim busca consolidar e ampliar sua liderança global no setor de inteligência artificial, exercendo maior influência tecnológica e diplomática, com foco especial nos países que compõem o chamado “Sul Global”.

Fonte:: poder360.com.br

Anúncios
Compartilhe este artigo