A América Latina tem vivenciado uma forte guinada à direita nos últimos vinte meses, período em que a esquerda sofreu derrotas em sucessivas eleições presidenciais na região, abrangendo nações como Equador, Bolívia, Chile, Honduras, Costa Rica, Peru e Colômbia. Caso Flávio Bolsonaro vença o segundo turno no Brasil, marcado para 25 de outubro, apenas três democracias da região permanecerão sob a administração de presidentes de centro-esquerda ou esquerda: México, Uruguai e Guatemala.
Apesar da aparente uniformidade geográfica, analistas apontam que seria um equívoco categorizar esses governos conservadores como um bloco coeso. Embora muitos compartilhem de uma visão de cunho socialmente conservador, divergências profundas se manifestam em pilares fundamentais, tais como a política fiscal, a condução externa e o grau de respeito às instituições democráticas.
Divergências na economia e política fiscal
O primeiro grande ponto de contraste reside na gestão das contas públicas. Na Argentina, o presidente libertário Javier Milei implementou cortes drásticos nos gastos estatais como a principal assinatura de sua administração. Em contrapartida, outros líderes de direita seguem caminhos opostos.
No Equador, por exemplo, as despesas públicas sob a gestão de Daniel Noboa registraram alta nos primeiros oito meses de 2026, em comparação ao mesmo período do ano anterior. Dinâmica semelhante ocorreu em El Salvador, onde os desembolsos governamentais e a dívida pública aumentaram substancialmente durante o mandato de Nayib Bukele, embora o país tenha buscado recentemente medidas de consolidação fiscal atreladas a um programa do FMI.
Outros líderes da direita regional, a exemplo de José Antonio Kast no Chile, Rodrigo Paz na Bolívia, Santiago Peña no Paraguai e Nasry Asfura em Honduras, optam por uma cartilha econômica mais tradicional e voltada ao mercado. Esses governos priorizam a disciplina fiscal e o estímulo ao investimento privado, mantendo distância da vertente libertária radical adotada na Argentina.
Por outro lado, figuras como Keiko Fujimori e Abelardo de la Espriella, que assumiram recentemente o poder no Peru e na Colômbia, respectivamente, firmaram promessas de campanha ligadas à ortodoxia fiscal. Contudo, devido aos traços populistas de suas trajetórias, observadores não descartam uma expansão dos gastos públicos impulsionada por conveniência política. Na Colômbia, inclusive, a primeira proposta orçamentária do novo governo já aponta para um acréscimo expressivo nas despesas.
Confrontos e aproximações na política externa
As divergências também alcançam o cenário internacional. Javier Milei assumiu uma postura explicitamente “antiglobalista”, retirando a Argentina da Organização Mundial da Saúde (OMS), abandonando a Conferência do Clima da ONU no decorrer das negociações, abdicando de concorrer a uma cadeira no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e votando de maneira isolada contra uma resolução voltada aos direitos dos povos indígenas na Assembleia Geral. Em julho, ao proferir críticas severas ao presidente brasileiro em solo paulista, Milei desencadeou uma das crises diplomáticas mais agudas entre Buenos Aires e Brasília desde o fim da ditadura militar.
Em sentido contrário, líderes como Kast no Chile, Paz na Bolívia e Peña no Paraguai já se encontraram com o presidente do Brasil, cultivando laços cordiais. Tais nações mantêm forte adesão a foros multilaterais, com o governo chileno, por exemplo, articulando sua participação na próxima cúpula climática — evento boicotado por Milei, que chegou a classificar o tema ambiental como uma “mentira do socialismo”.
Respeito às instituições e limites do poder
O terceiro eixo de diferenciação envolve a relação com o arcabouço democrático. Em um extremo do espectro encontra-se El Salvador sob Nayib Bukele, onde o processo eleitoral é mantido, mas os mecanismos tradicionais de freios e contrapesos ao Executivo foram amplamente desmantelados.
Na Argentina, embora Milei mantenha atritos constantes com o Congresso e outros poderes, sua atuação tem se mantido dentro dos limites constitucionais vigentes. Já no Chile, o histórico e as propostas de Kast no sentido de conferir maiores prerrogativas ao cargo presidencial geram debates sobre a solidez de seu compromisso com os controles institucionais, embora sua gestão siga operando estritamente sob as regras do sistema democrático chileno. Dinâmicas semelhantes de questionamento de limites institucionais, em menor escala, foram observadas entre líderes conservadores no Equador, na Colômbia e na Costa Rica, sem alcançar o patamar salvadorenho.
Desafios macroeconômicos e o fator externo
Em suma, a guinada conservadora latino-americana consolida-se como um fato político, mas está longe de traduzir-se em um projeto unificado. As diretrizes econômicas de Milei, o modelo de concentração de poder de Bukele e as políticas convencionais de Paz e Peña demonstram visões heterogêneas sobre a governança à direita.
O elemento unificador, contudo, reside na complexidade do ambiente macroeconômico global, marcado por inflação persistente e desdobramentos geopolíticos que pressionam as cadeias de suprimentos. Caso o baixo dinamismo econômico e o elevado custo de vida permaneçam, esses mesmos governos correm o risco de enfrentar o descontentamento popular nas urnas, repetindo o ciclo que afastou a esquerda do poder.
O cenário ainda traz uma ironia adicional envolvendo Donald Trump. Embora o presidente norte-americano apoie abertamente o bloco conservador na região, suas políticas — como o envolvimento em conflitos no Oriente Médio que impulsionaram os preços internacionais da energia — acabaram por acentuar as pressões inflacionárias na América Latina. Isso tem obrigado governos locais a escolherem entre ampliar os subsídios aos combustíveis, comprometendo ainda mais o equilíbrio fiscal, ou repassar os custos à população, arcando com o desgaste político decorrente.
Fonte:: estadao.com.br


