Há uma tendência recorrente de ler a trajetória de Jesus apenas pelo ângulo da espiritualidade, como se a história d’Ele pudesse ser separada do tempo, das instituições e das disputas de poder que a atravessaram. Porém, essa é uma leitura incompleta. A saga de Jesus também é política. E profundamente política.
Não no sentido partidário da palavra, mas no sentido mais concreto. Jesus confrontou hierarquias, expôs hipocrisias e desafiou estruturas que geravam exclusão em nome da ordem. O gesto de se aproximar dos pobres, dos doentes, das mulheres, dos marginalizados e dos considerados indignos não era apenas um ato religioso. Tratava-se de uma ruptura com a lógica dominante daquela época.
Jesus não foi morto por pregar uma mensagem inofensiva. Sua mensagem não era sobre flores ou temas leves. Ele foi eliminado porque incomodava. A sua presença desestabilizava o arranjo entre o poder político, a autoridade religiosa e o controle social vigente. Ao denunciar abusos, criticar o uso da fé como instrumento de dominação e colocar os vulneráveis no centro da cena, tornou-se uma ameaça para aqueles que governavam preservando seus privilégios.
A cruz, dessa forma, não foi apenas um símbolo religioso, mas também um instrumento de poder. Representou uma forma pública de punição e um aviso violento contra tudo que poderia ameaçar a normalidade da injustiça. Jesus não morreu por discutir abstrações, nem por falar de flores. Ele morreu porque sua vida anunciava uma lógica alternativa: a dignidade vale mais do que o controle; a compaixão é mais valiosa do que o privilégio; e a verdade supera a conveniência.
A história de Jesus continua atual, pois revela algo que atravessa os séculos. O poder quase sempre reage de forma negativa àqueles que denunciam injustiças e rompem a normalidade da exclusão. Toda vez que alguém desvia o olhar para os esquecidos, a estabilidade dos privilégios se vê ameaçada.
Assim, o lado político da saga de Jesus reside na recusa em aceitar um mundo organizado pela desigualdade, pela violência e pela indiferença. Sua história não permite uma fé neutra diante da dor social. Pelo contrário: recorda que uma espiritualidade sem compromisso com a justiça corre o risco de se tornar apenas um conforto para consciências acomodadas.
Por fim, talvez o maior incômodo que Jesus causou ao poder tenha sido este: Ele provou que nenhuma ordem é legítima quando requer o sacrifício dos mais frágeis para se manter de pé.
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Fonte:: redesuldenoticias.com.br




