Saulo Kasekela faleceu devido a complicações relacionadas à aids no dia 7 de março, em Mpongwe, uma pequena cidade no coração da região mineradora de cobre do norte da Zâmbia. Ele tinha 37 anos e trabalhou como segurança, sendo internado no hospital missionário apenas dois dias antes de sua morte. Após seu corpo ser retirado da ala masculina, uma enfermeira separou sua radiografia de tórax – uma imagem que revelava pulmões severamente comprometidos pela tuberculose, um sinal claro de infecção avançada pelo HIV que não foi tratada. Uma anotação manuscrita do médico indicava que a radiografia deveria ser preservada para fins de estudo por estudantes de medicina.
Naquele dia, dos oito pacientes na unidade hospitalar, quatro estavam diagnosticados com aids. Lewis Chifuta, de 33 anos, encontrava-se em estado crítico, extremamente magro e febril, mal conseguindo reconhecer seus irmãos que o visitaram.
A situação em Mpongwe, que a um ano registrava apenas um ou dois casos mensais de aids, apresentou um aumento alarmante com 28 novos casos em janeiro, seguidos por outros 28 em fevereiro e sete em março deste ano.
Essa alteração drástica no cenário epidemiológico é um reflexo direto das decisões tomadas durante o primeiro mês de mandato do presidente Donald Trump, que resultaram no desmantelamento de boa parte do Programa de Emergência do Presidente para o Alívio da Aids (PEPFAR). Este programa foi fundamental para salvar vidas na Zâmbia ao longo dos anos. A consequência imediata dessa mudança foi uma declaração de emergência por parte do governo zambiano, que buscava assegurar a continuidade do tratamento para as pessoas vivendo com HIV.
Entretanto, intervenções cruciais para limitar a disseminação do vírus e proteger os grupos mais vulneráveis, como Kasekela, foram descartadas. Atualmente, a Zâmbia opera com um sistema reduzido de apoio, que pode ser completamente interrompido em breve. O governo Trump fixou um prazo até 30 de abril para que a Zâmbia aceite um novo acordo de financiamento da saúde, o qual está condicionado à ampliação do acesso dos EUA aos recursos minerais do país.
O governo zambiano argumenta que esse acordo poderia garantir cinco anos de financiamento e promover a construção de um sistema de saúde mais robusto, conferindo maior controle ao país. No entanto, a falta de aceitação desse acordo poderia levar a um corte total do financiamento americano para o HIV, um cenário que seria catastrófico, segundo autoridades de saúde locais.
O que está ocorrendo em Mpongwe atualmente é um eco sombrio de um passado que muitos profissionais de saúde locais não conhecem, uma vez que a maioria não viveu a devastação da epidemia há 30 anos, quando os hospitais estavam abarrotados de jovens morrendo em decorrência do HIV/aids. A expectativa de vida à época havia caído para alarmantes 37 anos.
Foi em 2003 que a resposta humanitária do governo dos EUA ao HIV/aids, o PEPFAR, começou, com a Zâmbia como um dos países prioritários. Inicialmente, a distribuição de medicamentos antirretrovirais, que antes eram inacessíveis, mudou o panorama da tratativa da doença, tornando os remédios disponíveis gratuitamente para centenas de milhares de zambianos. Isso possibilitou uma redução contínua nas novas infecções e o aumento na expectativa de vida para 67 anos.
No entanto, os cortes drásticos realizados no ano passado foram pretextados por alegações do governo Trump sobre o desperdício de recursos. Assim, parte do financiamento foi restaurado, mas a US Agency for International Development (USAID) parou de fornecer suporte a muitas organizações locais, resultando em um impacto devastador. Para contornar essa crise, as autoridades zambianas tomaram medidas de emergência, reprogramando equipes de saúde para garantir que os medicamentos antirretrovirais fossem disponibilizados.
O Dr. Suilanji Sivile, consultor técnico nacional do programa de HIV, descreveu a situação como um verdadeiro estado de emergência militar. Apesar dos esforços, a maioria dos 1,3 milhão de pacientes em tratamento havia conseguido continuar recebendo medicamentos até janeiro de 2025. Contudo, estima-se que cerca de 100 mil pessoas interromperam suas terapias durante a crise, sendo que 40 mil ainda não retornaram ao tratamento.
Com o corte de serviços de prevenção, as autoridades de saúde expressam preocupações sobre um provável aumento nas taxas de infecção pelo HIV. O número de testes realizados também diminuiu, tornando difícil rastrear o ritmo de novas infecções. Na pior das hipóteses, muitos casos só serão detectados em estágios avançados, quando já é possível que os portadores tenham transmitido o vírus a outras pessoas.
Os programas de prevenção e rastreamento, que incluíam a triagem de contatos e o incentivo ao teste de HIV durante a gravidez, foram severamente afetados. As visitas domiciliares por agentes comunitários de saúde também foram interrompidas, prejudicando o acompanhamento de pacientes. Na prática, o suporte fundamental para o tratamento foi reduzido, deixando muitas mães e seus recém-nascidos desprotegidos. No hospital missionário de Mpongwe, a falta de recursos resultou na incapacidade de prolongar intervenções vitais que poderiam ter salvado vidas.
Enquanto isso, o governo zambiano está pressionado a assumir o controle total do programa de HIV, com esperanças de que novos acordos de financiamento possam ser firmados para mitigar os danos ocasionados pelos cortes anteriores. Sem esse suporte, o país se encontra em uma posição precária, enfrentando um aumento preocupante de novas infecções e mortes evitáveis.
A Zâmbia ainda conta com apoio do Fundo Global de Combate à aids, Tuberculose e Malária, embora esse suporte também esteja em risco devido à redução de orçamentos. Autoridades de saúde expressam sua preocupação sobre o futuro do tratamento e prevenção do HIV no país, à medida que os prazos se aproximam e as negociações continuam.
Os profissionais de saúde locais reconhecem que sem um acordo, a capacidade de administrar o tratamento antirretroviral e realizar testes de HIV ficará severamente comprometida, colocando em risco a vida de milhares de pessoas. “Se os medicamentos que temos forem os últimos, o que faremos?” questionou um profissional de saúde. “Isso significa morte para muitos.”
Diante de tantas adversidades, fica clara a necessidade de ações urgentes e de comprometimento por parte tanto do governo zambiano quanto da comunidade internacional para revertê-las e assegurar um futuro mais saudável para todos.
Fonte:: estadao.com.br



