O Petcube, um inovador aparelho desenvolvido pelo empreendedor ucraniano Yaroslav Azhnyuk e sua equipe, foi concebido para permitir que os tutores monitorem e divirtam seus cães e gatos à distância, enquanto estão fora de casa. O dispositivo é operado através de um smartphone e possui recursos como reconhecimento de imagens e um laser que promove a interação com os animais. Durante os testes iniciais, um cão inquieto não parava de latir até que ele foi atraído para brincar com o laser, o que resultou em uma atividade animada e divertida para o pet, segundo Azhnyuk.
Embora o Petcube seja comercializado em diversos países, a produção deste dispositivo utiliza muitos dos mesmos componentes eletrônicos que equipam armas militares modernas. Isso levou os fundadores da empresa a considerar uma ideia mais ousada, refletindo uma mudança significativa na indústria tecnológica civil da Ucrânia, que se aventurou no setor de contratos militares devido à atual situação de guerra.
Inicialmente, houve brincadeiras sobre a criação de uma versão militar do Petcube, incluindo lançamentos de lasers mais potentes com a intenção de atingir tropas russas. No entanto, a equipe logo redirecionou suas atenções para o desenvolvimento de drones com visão em primeira pessoa (FPV), que são controle de forma similar aos dispositivos de entretenimento para animais de estimação, mas com uma aplicação letal.
O funcionamento dos drones
Os drones desenvolvidos pela equipe de Azhnyuk agora incorporam um sistema de reconhecimento de imagem auxiliado por inteligência artificial. Diferente do que seria usado para identificar um animal de estimação, esses drones estão programados para detectar veículos militares, artilharia e soldados inimigos. Além disso, o reconhecimento de imagem é integrado a um sistema de piloto automático que auxilia nos ataques. Os operadores controlam os drones utilizando uma técnica chamada YOLO – “You Only Look Once” (Você Só Olha Uma Vez) para rastrear os alvos.
Uma vez identificados os alvos, os operadores acionam um sistema automatizado que permite que o drone se desloque autonomamente nos últimos 400 metros até o destino, garantindo segurança contra tentativas de interferência por forças russas.
Além disso, a Odd Systems desenvolveu o Zerov, um interceptor de drones destinado a neutralizar os drones Shahed, fabricados no Irã. A Rússia tem utilizado esses drones explosivos de forma intensa na guerra contra a Ucrânia, resultando em um crescente interesse por tecnologias voltadas para a defesa.
Com esses desafios, a Odd Systems se recusa a comentar se está exportando seus produtos para o Oriente Médio, embora a demanda por soluções anti-Shahed tenha aumentado. Na frente de guerra ucraniana, os drones FPV com reconhecimento de imagem se tornaram ferramentas regulares e eficazes, e a empresa está em fase de testes de novas versões que podem voar por rotas programadas para atacar alvos previamente cadastrados.
Azhnyuk, em uma entrevista realizada em Kiev, comentou sobre a transformação do Petcube: “Criamos câmeras que lançam petiscos para animais de estimação e agora criamos câmeras que lançam explosivos contra ocupantes.” O empreendedor teve que reorientar seu foco desde o início da invasão russa, optando por deixar sua posição como CEO da Petcube para se dedicar integralmente à defesa do seu país.
O crescimento das startups de defesa na Ucrânia
A Odd Systems e sua companhia parceira, a Fourth Law, são exemplos do aumento de startups focadas em armamentos na Ucrânia. Enquanto investidores buscam oportunidades em um cenário de guerra, também se preparam para um futuro pós-conflito em que essas empresas poderiam exportar suas inovações. Tecnologias que antes pareceriam surrealistas estão sendo implementadas ativamente, desde balões de hélio que lançam drones, até robôs que resgatam soldados feridos.
Um destaque recente foi o sucesso de um drone subaquático que, segundo relatos, foi capaz de danificar um submarino russo em um ataque. Isso expõe uma fragilidade nas capacidades navais que Jaime é um reflexo do cenário de combate atual.
Os drones FPV se tornaram uma prioridade para ambos os lados do conflito, reconhecidos como responsáveis por um significativo número de baixas. Enquanto a Rússia se dedica à produção em massa desses dispositivos, a Ucrânia busca inovar, apesar dos desafios enfrentados em sua linha de produção.
Atualmente, mais de 2.000 startups de tecnologia militar estão ativas na Ucrânia, segundo informações do fundo Brave1, que está sob a alçada do Ministério da Transformação Digital. O investimento direto em empresas de defesa na Ucrânia saltou para aproximadamente US$ 100 milhões em 2022, mostrando um aumento significativo em relação ao ano anterior.
Parcerias e financiamento
Além dos investimentos privados, o financiamento público também tem sido um pilar essencial para a indústria de defesa da Ucrânia. Países como a Dinamarca e a Estônia têm apoiado empresas ucranianas, oferecendo suporte financeiro, desde que uma parcela dos componentes utilizados em suas produções se origine de seu território nacional. Algumas empresas estrangeiras também se associam com companhias ucranianas, permitindo que suas tecnologias sejam testadas em ambientes de combate.
A privacidade em torno das rodadas de financiamento é uma característica marcante do setor; ao contrário do que ocorre em outros lugares, as empresas ucranianas optam por manter um perfil discreto, devido a preocupações de segurança relacionadas às suas instalações serem alvos de ataques aéreos.
Antes do início da guerra, a indústria tecnológica da Ucrânia já havia conquistado reconhecimento internacional, destacando-se por desenvolver produtos como o Grammarly e a Ring. A tecnologia da informação ocupava o terceiro lugar nas exportações do país, apenas atrás de aço e produtos agrícolas, até a invasão de 2022.
A recentemente anunciada parceria da Fourth Law com a Axon Enterprises, fabricante de armas de eletrochoque dos EUA, foi um reflexo do crescente interesse em investir em tecnologia militar ucraniana, embora os detalhes financeiros não tenham sido revelados.
Considerações éticas
Azhnyuk não demonstrou arrependimento pela criação de tecnologia que capacita decisões automáticas sobre vida ou morte, alegando que a redução da intervenção humana pode não ser tão perigosa quanto se imagina. Ele justificou seu ponto de vista ao afirmar que os drones são georreferenciados, assegurando que somente alvos designados, e não civis, sejam atingidos. Para ele, a hesitação em adotar a inteligência artificial em armamentos poderia levar a desvantagens significativas em um contexto onde outras nações, como Rússia e China, não compartilham das mesmas preocupações éticas.
Fonte:: estadao.com.br


