Curitiba é uma das capitais que mais recebeu imigrantes; especialista da UFPR analisa a relevância desse fenômeno

Redação Rádio Plug
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Foto: Professor Márcio de Oliveira da UFPR

Ainda que a quantidade de estrangeiros em Curitiba seja inferior à de brasileiros, a presença deles na cidade se torna cada vez mais evidente. Estrangeiros estão inseridos nos mais variados tipos de comércios e serviços. De acordo com dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), a capital paranaense é uma das que mais acolheu imigrantes nos últimos 15 anos no Brasil. Mas qual é a importância desse fenômeno e qual seu impacto na sociedade local?

Essas questões estão no centro das pesquisas do professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Márcio de Oliveira. Ele tem investigado as recentes ondas de imigração internacional, visíveis, por exemplo, no Edifício Dom Pedro I, que abriga a maioria das salas de aula do Campus Reitoria da UFPR em Curitiba. Este local, portanto, representa uma amostra significativa do cotidiano desse fenômeno social contemporâneo.

Uma parte dos novos residentes passa pela UFPR, que há mais de uma década se dedica a promover a cidadania dessa comunidade através do Programa Política Migratória e Universidade Brasileira (PMUB) e da Cátedra Sérgio Vieira de Mello, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). No quarto andar do Edifício Dom Pedro I, por exemplo, está a secretaria dedicada às aulas de português como segunda língua, o que justifica a presença de avisos nas paredes em diversos idiomas, como inglês, espanhol, árabe e francês.

Oliveira observa que, historicamente, o Brasil tem sido um país de emigração, com mais de 4 milhões de brasileiros vivendo fora do país. No entanto, ele menciona que atualmente o Brasil passa por uma mudança significativa, descrita por ele como uma espécie de estranhamento devido ao aumento de imigrantes que chegam ao território nacional.

“A nova onda de migrantes latinos tem se estabelecido em várias regiões do Brasil. Comparado aos pouco mais de 200 milhões de brasileiros, os números ainda não são muito altos, mas começam a ser perceptíveis e igualmente relevantes em determinadas áreas. Essa é uma das razões pelas quais elas se tornam notadas”, explica o professor.

Esse aumento é mais acentuado entre haitianos e venezuelanos, que constituem as duas maiores comunidades de imigrantes no Brasil, ao lado de portugueses, bolivianos e argentinos. Atualmente, existem cerca de 1,48 milhão de imigrantes vivendo no país, a maioria nas capitais das regiões Sul e Sudeste.

Como coordenador do projeto de pesquisa Atlas Sociodemográfico da Migração Internacional no Paraná, financiado pela Fundação Araucária, Márcio de Oliveira possui um conhecimento profundo sobre a situação da imigração internacional no estado.

Em uma entrevista publicada no portal da UFPR, ele analisa as histórias desses grupos de imigrantes e seus impactos na sociedade brasileira, abordando desde a integração ao mercado de trabalho até as trocas culturais, além dos conflitos surgidos, especificamente as questões de xenofobia e racismo, em meio a uma nova concepção de integração que não anula as diversas culturas.

Mas o que o motivou a se debruçar sobre o tema da migração?

Márcio de Oliveira: “A migração sempre me interessou desde minha chegada ao Paraná, em especial em Curitiba, onde percebi uma mistura étnica peculiar. Embora a cidade parecesse predominantemente branca em termos de perfil racial, notei também a questão ambiental, com muitos parques dedicados a diferentes etnias. Esse foi meu ponto de partida. Inicialmente, estudei a origem dos parques e bosques de Curitiba, o que me levou a me interessar por outros temas, incluindo a história do Paraná e a imigração no Brasil durante a transição do século XIX para o XX.”

“A partir de 2010, meu foco em imigração aumentou, coincidindo com o crescimento do fluxo migratório, especialmente a chegada de haitianos ao Brasil. Já havia migrações significativas de sul-americanos, como peruanos, bolivianos e paraguaios. Contudo, o terremoto no Haiti em 12 de janeiro de 2010 e suas consequências trouxeram à tona a necessidade de compreender melhor esse movimento, e a partir de 2013, comecei a me aprofundar na imigração internacional.”

“Isso se alinhou à criação do OBMigra, com o qual trabalho em colaboração desde sua fundação, publicando e realizando eventos conjuntos.”

Ao analisarmos os dados do OBMigra, percebemos que o fluxo imigratório tende a se concentrar nos estados do Sul do Brasil. De fato, uma proporção significativa dos imigrantes, que abrange nacionalidades latino-americanas, africanas e asiáticas, está se direcionando a essa região.

Embora São Paulo continue a ser o principal destino para imigrantes internacionais, ao focarmos na migração sul-americana (excluindo bolivianos que ainda estão majoritariamente ligados a São Paulo), notamos que muitos estão se estabelecendo nos estados do Sul, que atraem imigrantes de forma crescente.

Historicamente, na virada do século XX, uma grande parte dos imigrantes se concentrava em São Paulo e nos estados do Sul. Hoje, essa distribuição se mantém, mas com uma alteração nas preferências, favorecendo mais Santa Catarina e Paraná em relação a São Paulo.

Paralelamente, o Paraná tem promovido iniciativas significativas, como a criação da Agência do Migrante e o Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Apátridas, além do envolvimento de diversas entidades religiosas, tanto católicas quanto evangélicas, para apoiar essa população.

Instituições acadêmicas, como a UFPR, também têm se adaptado, criando programas como o PBMIH para ensinar português a imigrantes em situação de vulnerabilidade humanitária, em resposta a demandas da Prefeitura de Curitiba.

O sistema de apoio em Curitiba tem se estruturado cada vez mais, envolvendo um extenso grupo de atores, incluindo o Tribunal de Justiça, prefeituras, universidades, associações de imigrantes e o setor empresarial. Essa colaboração se manifesta em múltiplos níveis e compõe uma rede de apoio robusta para os imigrantes na cidade.

Como sociólogo, meu foco é o estudo humano; analiso os migrantes não apenas em números, mas em suas vivências cotidianas. É essencial compreender como estão se integrando, quais contribuições trazem para a sociedade e os desafios, como práticas de racismo e xenofobia que, embora já existentes, têm aparecido com mais frequência nos dias atuais.

O racismo é um problema histórico no Brasil, mas a xenofobia estava menos presente, emergindo de forma mais marcada recentemente.

Confira a entrevista completa.

Fonte:: bemparana.com.br

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