Desenrola 2.0 e FGTS para dívidas frustram os planos do setor imobiliário para 2026
O início de 2026 trouxe um clima de otimismo para o setor imobiliário, com a expectativa de uma redução significativa na taxa de juros, que poderia chegar a 15%. Essa possibilidade se concretizou nas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). Contudo, o cenário mudou drasticamente com a recente decisão do governo federal de liberar 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitação de dívidas, fato que gerou incertezas no setor.
No dia 4 de janeiro, foi anunciado o programa Desenrola 2.0, uma nova iniciativa voltada para a renegociação de dívidas no Brasil, que visa ajudar a população em meio a um quadro de endividamento elevado. O objetivo principal deste programa é a renegociação das dívidas mais onerosas, como aquelas relacionadas a cartões de crédito e empréstimos pessoais. Entre as principais medidas, destaca-se a autorização para a utilização de até 20% do FGTS para liquidar essas dívidas, permitindo uma transferência direta da Caixa Econômica Federal para as instituições financeiras envolvidas.
A expectativa do governo é que o Desenrola 2.0 beneficie especialmente os trabalhadores de baixa e média renda, que recebem até cinco salários mínimos. Esses trabalhadores formam o público-alvo das modalidades de financiamento habitacional com subsídios, como o programa Minha Casa, Minha Vida, que já utiliza o FGTS na aquisição de imóveis.
A Associação Brasileira das Incorporadoras (ABRAINC) expressou preocupação em relação ao impacto que essa medida pode causar no setor. De acordo com estimativas da entidade, os saques de FGTS para saldar dívidas podem variar entre R$ 4,5 bilhões e R$ 8,2 bilhões, o que pode resultar na perda de 59 mil a 107 mil postos de trabalho, tanto diretos quanto indiretos, dentro do mercado habitacional. Além disso, entre 25 mil e 46 mil famílias podem ser impedidas de acessar unidades habitacionais devido à diminuição de recursos disponíveis.
Com a redução no volume de negócios, a ABRAINC apontou que o Estado pode perder entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,4 bilhões em tributos gerados pelo setor, além de uma possível diminuição de até R$ 10,7 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) nacional, em decorrência da chamada “perda de investimento”.
“A retirada desses recursos do sistema habitacional impacta diretamente a economia, já que o setor possui um elevado efeito multiplicador. A cada R$ 1 bilhão investido em habitação, geram-se 13 mil empregos e R$ 300 milhões em arrecadação tributária”, afirmou a ABRAINC em comunicado.
Luiz França, presidente da associação, ressaltou que “estamos trocando um recurso levado uma vida para ser economizado, destinado à compra da casa própria, por um pagamento imediato de dívidas que provavelmente irão ressurgir. Usar o FGTS, que representa um ativo de longo prazo, para quitar juros de curto prazo é um paliativo que já se provou ineficaz em outras ocasiões, sem alterar a capacidade de pagamento futura dos trabalhadores”.
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) também se manifestou e indicou que a liberação de recursos do FGTS para resolver endividamentos pode afetar especialmente a execução do programa Minha Casa, Minha Vida. A CBIC destacou que novos saques do FGTS ampliam a incerteza já presente no setor, que enfrenta a combinação de taxas de juros elevadas, aumento dos custos de obras devido à crise do petróleo provocada pela guerra no Oriente Médio, além das discussões sobre reforma tributária e redução da jornada de trabalho.
As reações do mercado foram imediatas e, de acordo Cyrela registrou uma queda de 4,17%, MRV caiu 2,89%, enquanto Cury e Direcional apresentaram desvalorizações de 2,53% e 1,32%, respectivamente. A única exceção foi a Plano & Plano, que viu suas ações subirem 3%, após uma correção após queda anterior.
Reação do setor
Os comentários feitos por representantes do setor imobiliário fazem ecoar a falta de otimismo que antes caracterizava as expectativas iniciais para 2026. Durante conversas anteriores, não havia menções a riscos associados a um possível desvio de até R$ 8 bilhões do FGTS para o curto prazo. O Desenrola 2.0 não é a primeira solução que utiliza o fundo como recurso para resolver o problema do endividamento, já que outras ações, como o saque do saldo das contas inativas e o saque-aniversário, já foram implementadas.
Além disso, o setor já debate há tempos a necessidade de diversificar suas
Apesar das dificuldades, o setor teve algumas boas notícias em 2025, como a introdução de um novo modelo de crédito para famílias de classe média e um aumento nos limites do programa Minha Casa, Minha Vida. No entanto, a recente decisão do governo com relação ao FGTS para o Desenrola trouxe um novo desafio à vista, que ofuscou as medidas positivas anteriores.
A ABRAINC, ao ser questionada sobre a surpresa com essa nova medida, sinalizou que, apesar de seu otimismo em relação à queda das taxas de juros e a demanda por habitação, a inclusão do FGTS no Desenrola 2.0 foi um fator inesperado e negativo. “Não esperávamos que a solução para o endividamento incluísse novamente a redução de um fundo essencial para o crescimento do crédito imobiliário, especialmente para as famílias de baixa renda”, concluiu a associação.
O papel do FGTS no setor habitacional
O FGTS é um dos principais financiadores do setor habitacional brasileiro. Em 2025, ele respondeu por R$ 138 bilhões dos R$ 324 bilhões totalizados em novos financiamentos no setor, representando cerca de 43% do total. Com um estoque de R$ 702 bilhões em uma carteira de R$ 6,23 trilhões, o FGTS corresponde a 27% do total, apenas atrás da poupança com 29%.
Para 2026, o orçamento do FGTS é de R$ 160,5 bilhões, sendo que R$ 144,5 bilhões estão destinados quase que integralmente para a habitação, com cerca de R$ 13 bilhões socorrendo subsídios que viabilizam a compra de imóveis para as famílias de menor renda.
Fonte:: infomoney.com.br




