Guerra na Ucrânia já dura mais tempo do que a Primeira Guerra Mundial

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Estadao.com.br

A guerra na Ucrânia tem sido frequentemente comparada à Primeira Guerra Mundial devido aos brutais ataques de infantaria e às pesadas baixas. No entanto, a ideia de que essa guerra pudesse, de alguma forma, superar um conflito tão longo e sangrento que levou soldados franceses a esperarem que fosse “o último dos últimos” parecia impensável.

Foi exatamente isso que aconteceu nesta quinta-feira, 11. A guerra na Ucrânia — que já dura 1.569 dias, ou mais de quatro anos e três meses — ultrapassou a Primeira Guerra Mundial.

Quando o presidente da Rússia enviou suas tropas para a Ucrânia em fevereiro de 2022, ele acreditava que o país cairia em poucos dias. No entanto, após a Ucrânia repelir os invasores russos, o conflito se transformou em uma guerra de desgaste, e mesmo muitos dos soldados presentes não conseguiam imaginar que a batalha se alongaria tanto.

“Pensei que talvez em dois ou três anos, e então os políticos chegariam a algum tipo de consenso”, disse um soldado ucraniano que, por razões de segurança, revelou apenas seu indicativo de chamada, France, fazendo referência ao seu tempo na Legião Estrangeira Francesa.

No entanto, a guerra continua, e com as negociações de paz paralisadas, não dá sinais de que vá terminar em breve. Pesquisas mostram que cerca de metade dos ucranianos acredita que as hostilidades não chegarão ao fim antes do próximo ano, o que a aproximaria de outro patamar: a duração da Segunda Guerra Mundial, que durou seis anos. Vale ressaltar que muitos ucranianos argumentam que a guerra atual começou, na verdade, em 2014, quando as tropas russas anexaram a Crimeia.

Limites das comparações

Historiadores alertam que traçar paralelos entre as duas guerras mundiais apresenta seus limites. A escala global desses conflitos, envolvendo múltiplos teatros de operações e exércitos, dificulta as comparações sobre baixas e poder de fogo. É importante lembrar que a Ucrânia não existia como uma nação independente durante a Primeira Guerra Mundial.

Ainda assim, a guerra na Ucrânia, assim como a Primeira Guerra Mundial, provavelmente se firmará entre os conflitos mais significativos da história moderna da Europa, na visão de Yaroslav Hrytsak, historiador ucraniano. Ambas as guerras transformaram a geopolítica europeia, remodelando alianças militares e impulsionando um aumento nos investimentos em defesa que não se via há décadas.

Analistas militares também afirmam que ambos os conflitos remodelaram a natureza da guerra com a introdução de novas tecnologias — tãoques e aviões há um século; drones nos ares, no mar e em terra nos dias de hoje. Em ambos os conflitos, os avanços tornaram a guerra ainda mais cruel para os seres humanos.

“Em muitos aspectos, esta guerra na Ucrânia é a que mais se assemelha à Primeira Guerra Mundial”, opina Michel Goya, ex-coronel francês e historiador militar.

Combates estáticos e poder de fogo

A comparação começa desde a fase inicial de ambas as guerras. Em 1914, os alemães lançaram uma ofensiva rápida em direção a Paris, esperando assegurar uma vitória rápida. As forças russas tinham o mesmo plano ao avançarem em direção a Kiev, capital da Ucrânia, em 2022. Em ambos os cenários, os invasores chegaram perto de seus alvos, mas acabaram sendo repelidos.

A transformação em combates predominantemente estáticos ao longo de uma frente praticamente congelada foi evidente. Quando os soldados ucranianos se entrincheiraram no final de 2022, os historiadores descreveram a situação como um retorno à guerra de trincheiras do estilo da Primeira Guerra Mundial.

As imagens das trincheiras no leste da Ucrânia lembravam as cenas do norte da França, um século antes. As tropas ucranianas e russas frequentemente se separavam por apenas alguns metros, às vezes tão próximas que podiam se ver. Os ataques se iniciavam com bombardeios de artilharia para imobilizar o oponente, seguidos por investidas de infantaria às trincheiras adversárias.

“De maneira geral, quando a frente congela, voltamos ao contexto da Primeira Guerra Mundial”, afirmou Goya.

Bombeiros combatem incêndios após ataque aéreo russo na região de Sumy, Ucrânia.

Em ambas as guerras, a intensa utilização de poder de fogo, principalmente da artilharia, foi o que obrigou os exércitos a buscar abrigo nas trincheiras. “Você se enterra para se proteger”, destacou.

Essa lógica mudou posteriormente na Ucrânia com o advento de novos armamentos: os drones. As redes de trincheiras abertas tornaram-se inseguras, pois os drones monitoravam constantemente o campo de batalha e atacavam com maior precisão que as bombas de artilharia.

Agora, soldados ucranianos relatam que a sobrevivência depende de abrigos menores e mais profundos. Em vez de extensos sistemas de trincheiras, as tropas buscam proteção em abrigos subterrâneos que acomodam no máximo um punhado de soldados, dificultando a detecção aérea e garantindo resistência a ataques. Um soldado operando sozinho muitas vezes cava uma posição apenas um pouco maior que uma toca de raposa.

Em uma recente entrevista perto da fronteira sul da Ucrânia, um comandante, que também revelou apenas seu codinome, Sour, por razões de segurança, relembrou a dificuldade em invadir um abrigo russo fortificado, que precisou ser tomado em quatro tentativas antes que o soldado inimigo se rendesse. Esse abrigo era projetado com ângulos retos e chapas de metal para suportar as explosões.

O comandante, que chefia um dos centros da Legião Internacional, parte das forças de inteligência militar da Ucrânia, levou o soldado russo capturado para observá-lo cavar uma posição similar, a fim de aprender sobre a construção dela.

“Nesse ambiente, as pessoas que escavam sobrevivem por mais tempo e ficam mais seguras”, afirmou France, o soldado ucraniano.

Com o crescente domínio dos drones no campo de batalha, as redes de trincheiras opostas, semelhantes às da Primeira Guerra Mundial e separadas por uma estreita zona de segurança, foram substituídas por um espaço de combate disputado que se estende por quilômetros, repleto de abrigos subterrâneos. Dentro dessa “zona de morte”, qualquer movimento é rapidamente alvo de drones.

Os ataques em larga escala, como os vistos há um século, se tornaram praticamente inviáveis sob a vigilância constante dos drones. Essas ofensivas foram substituídas por investidas com apenas um ou dois soldados.

Os tanques, introduzidos em 1916, ainda eram considerados temidos nos inícios da guerra na Ucrânia. Porém, atualmente, são usados raramente devido ao seu tamanho, que os torna alvos fáceis para drones, embora alguns tenham sido adaptados com gaiolas de metal protetoras, as transformando em veículos ao estilo “Mad Max”.

Escalada da destruição

Embora o campo de batalha atual apresentem cada vez menos semelhanças com o de um século atrás, a escala de destruição parece notavelmente parecida.

Imagens ao vivo de drones de reconhecimento mostram cenas que remetem aos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial: árvores quebradas, casas em ruínas e campos marcados por crateras de bombas.

É complicado estabelecer comparações de baixas, dada a diferença de escala entre os conflitos. Há um século, milhões de soldados eram enviado para a guerra em diversas frentes pela Europa. Hoje, as forças envolvidas totalizam centenas de milhares. Aproximadamente nove a onze milhões de soldados morreram na Primeira Guerra Mundial, enquanto cerca de meio milhão de vidas foram perdidas até agora na Ucrânia.

Entretanto, analistas e oficiais militares, incluindo o Almirante Pierre Vandier, comandante da Transformação da OTAN, afirmam que os drones tornaram o campo de batalha ucraniano letal em níveis comparáveis aos da Primeira Guerra Mundial. O Almirante fez essa analogia após uma visita de estudos à Ucrânia na primavera passada.

A luta na Ucrânia é tão desgastante que, em alguns momentos, os avanços russos têm sido mais lentos do que em algumas das batalhas mais difíceis da Primeira Guerra Mundial.

A ofensiva russa contra Pokrovsk, uma cidade do leste da Ucrânia recentemente capturada, avançou a um ritmo médio de cerca de 75 jardas por dia, ritmo mais lento do que na sangrenta Batalha do Somme durante a Primeira Guerra Mundial, conforme analisado pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), um think tank baseado em Washington.

Igual, mas com drones?

A questão agora é se algum dos lados conseguirá romper o impasse.

Durante a Primeira Guerra Mundial, os Aliados prevaleceram combinando pressão econômica sobre a Alemanha, por meio de um bloqueio naval rigoroso, com pressão militar, através de ofensivas incessantes. A estratégia da Ucrânia para encerrar a guerra apresenta algumas semelhanças com essa abordagem.

Os ataques com drones contra os ativos petrolíferos da Rússia, fundamentais para sua economia, visam limitar a capacidade de Moscou de financiar seu esforço de guerra.

Kiev pode não ter efetivos suficientes para replicar as ofensivas da Primeira Guerra Mundial, mas inundou o campo de batalha com pequenos drones de ataque, na esperança de infligir perdas insustentáveis ao Exército Russo.

“Isto é a Primeira Guerra Mundial, mas com drones”, conclui o historiador Hrytsak.

Fonte:: estadao.com.br

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