Guia do CGI.br alerta para os riscos da inteligência artificial e algoritmos nas eleições de 2026

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Foto: Ana Paula Lobo Mande um e-mail

O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) apresentou nesta terça-feira (22) o Guia Internet, Eleições e Democracia – volume II, documento desenvolvido com o propósito de orientar a sociedade e subsidiar legisladores na formulação de políticas públicas. A nova publicação amplia as discussões iniciadas em 2018, quando o primeiro volume foi lançado, trazendo para o centro do debate a forma como a inteligência artificial generativa e a arquitetura das plataformas digitais moldam o ambiente de informações e influenciam as disputas democráticas no país.

Compreendido em cinco seções principais, o material estabelece diferenças fundamentais entre redes sociais e plataformas digitais, investiga o funcionamento de sistemas de recomendação, estratégias de perfilamento, microdirecionamento e modelos de negócios voltados ao engajamento. O texto avança ao adotar o conceito de integridade da informação, indo além do combate simplificado às chamadas notícias falsas. A publicação também detalha como a desinformação migrou de redes abertas para espaços mais restritos, incorporando recursos multimídia e sendo amplificada pelo uso de tecnologias de IA.

A primeira parte da obra explora os mecanismos por trás dos algoritmos de recomendação e os interesses econômicos das empresas que controlam esses ecossistemas digitais. O segundo capítulo concentra-se nos impactos da inteligência artificial generativa no contexto eleitoral, destacando os riscos associados a deepfakes e modelos de linguagem baseados em conversação. Na sequência, o terceiro capítulo propõe diretrizes institucionais para mitigar a desinformação, enquanto o quarto oferece recomendações práticas para que o eleitor evite consumir ou repassar conteúdos enganosos. Por fim, o quinto capítulo cataloga referências bibliográficas para aprofundamento nos temas abordados.

De acordo com a coordenadora do CGI.br, Renata Mielli, a centralidade que as plataformas digitais assumiram no cotidiano dos brasileiros exige maior transparência sobre seus objetivos comerciais. “Hoje, as plataformas digitais ocupam um lugar central na forma como os cidadãos se informam sobre o que acontece no mundo, no país e nas cidades onde vivem. Não podemos ignorar que são empresas privadas orientadas por objetivos econômicos, e não pela perspectiva do interesse público. Compreender como esses ambientes funcionam, como os conteúdos são distribuídos e quais impactos isso produz sobre o debate público é fundamental para fortalecer a integridade da informação e a própria democracia”, pontua.

A nova fronteira da desinformação digital

A inteligência artificial generativa ganha destaque especial no guia, sendo tratada como o principal desafio técnico e informacional para o ciclo eleitoral de 2026. A facilidade na criação de áudios, imagens e vídeos sintéticos altamente realistas — as chamadas deepfakes — sem a exigência de conhecimentos técnicos avançados democratizou a produção de material enganoso em grande escala.

O documento ressalta que a disseminação dessas mídias sintéticas representa uma fase inédita na manipulação de eleitores. “Em 2026, a popularização da IA generativa tem se consolidado como um dos principais desafios, com grande potencial disruptivo para o cenário informacional. A expansão da circulação das deepfakes ao longo dos últimos anos tornou mais acessível a produção de conteúdos desinformativos com alto grau de realismo. Por esse motivo, a campanha eleitoral de 2026 tem sido apontada como uma nova etapa da desinformação eleitoral, marcada pela produção em larga escala de imagens, áudios e vídeos sintéticos”, aponta o texto.

Diante desse cenário de vulnerabilidade, o guia incorpora as diretrizes estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre as normativas citadas está a Resolução nº 23.755/2026, que impõe restrições severas à publicação, republicação e ao impulsionamento de materiais gerados ou modificados por inteligência artificial durante as 72 horas anteriores e as 24 horas posteriores a cada turno de votação, independentemente de estarem devidamente identificados como tal. A regra visa conter a propagação veloz de informações falsas em momentos decisivos do pleito.

Chatbots e o poder de persuasão na política

Outro ponto de alerta levantado pela publicação diz respeito à utilização de chatbots baseados em inteligência artificial como ferramentas de consulta política por parte dos eleitores. Ao contrário dos mecanismos de busca tradicionais, que apenas direcionam o usuário para páginas externas, os sistemas conversacionais sintetizam respostas diretas em linguagem natural, o que eleva o potencial persuasivo, mas reduz drasticamente a transparência sobre a confiabilidade das fontes.

Estudos integrados ao guia mostram que esses assistentes virtuais possuem capacidade de influenciar opiniões de maneira mais sutil e profunda do que peças publicitárias tradicionais. Mesmo após as vedações impostas pela Resolução nº 23.755/2026 do TSE — que proíbe ferramentas de IA de priorizar, ranquear ou emitir juízos de valor sobre candidatos —, análises técnicas identificaram algum grau de interferência em aproximadamente 90% das respostas geradas sobre pautas eleitorais.

A ausência de neutralidade algorítmica

O comitê gestor reforça que as plataformas digitais operam longe de qualquer neutralidade. Movidas por modelos econômicos sustentados por publicidade direcionada, essas corporações priorizam métricas de engajamento, favorecendo conteúdos de cunho apelativo ou emocional que estimulam reações rápidas, muitas vezes em detrimento da precisão informativa e da sobriedade do debate público.

“A desinformação não é um problema produzido por atores isolados. Ela prospera em uma arquitetura projetada para maximizar atenção, não para qualificar o debate público. Iluminar esse funcionamento — para governos, plataformas e cidadãos — é o que torna este guia relevante para além do período eleitoral”, conclui Renata Mielli.

O documento completo, intitulado Guia Internet, Eleições e Democracia – volume II, foi disponibilizado pelo órgão para acesso público e gratuito por meio de sua página oficial na internet: https://cgi.br/publicacao/guia-internet-democracia-e-eleicoes-volume-ii/

Fonte:: convergenciadigital.com.br

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