História americana entra em rota de colisão com a sua quarta grande crise

Redação Rádio Plug
7 min. de leitura
Foto: Divulgação / Foto: Ken Burns

O momento atual e os paralelos históricos

Houve três grandes crises na história dos Estados Unidos que moldaram profundamente a nação: a Guerra Civil — considerada o evento mais marcante depois da própria Revolução —, a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial. Esses episódios colocaram à prova a república e a determinação americana de maneiras fundamentais, mas o equilíbrio sempre se manteve. As eleições ocorreram nos prazos, houve transferências pacíficas de poder e o Poder Judiciário preservou sua independência.

As principais instituições democráticas permaneceram fundamentalmente sólidas durante aqueles períodos, respeitadas tanto pela população quanto pelas lideranças. Os pilares do sistema democrático se mantiveram firmes e saíram fortalecidos após a superação de cada um desses momentos críticos.

Contudo, ao comparecerem às urnas em pleitos de grande importância, os americanos vivenciam agora o que analistas e historiadores apontam como a quarta grande crise da república. Movida pela desinformação estimulada por esferas governamentais, pelo ressurgimento de velhos medos e pela proliferação de teorias da conspiração, formou-se uma dinâmica de polarização baseada na lógica de “nós contra eles”, o que colide diretamente com a manutenção de uma sociedade democrática saudável.

Nesse cenário atual, processos eleitorais são questionados, a Suprema Corte aparenta estar comprometida, fatos históricos sofrem distorções, livros são banidos e ditadores recebem afagos, enquanto aliados tradicionais são ridicularizados e menosprezados. O resultado é uma preocupação legítima da sociedade sobre a possibilidade de colapso das instituições fundamentais do país.

Reflexões sobre a fragilidade da república

Discussões recentes sobre o lançamento de séries documentais da TV PBS dedicadas à Revolução Americana permitiram mapear o sentimento popular em viagens por todo o território nacional. Independentemente da localidade ou do interlocutor, questionamentos recorrentes vinham à tona: o que o estudo prolongado sobre a frágil república revelou? Um país tão profundamente dividido pode realmente sobreviver? O que os fundadores da pátria pensariam ao observar a nação nos dias de hoje?

A avaliação predominante é de que os pais fundadores estariam profundamente decepcionados ao constatar que expressiva parcela do Poder Legislativo abriu mão de suas atribuições em favor do Poder Executivo. Esse vácuo institucional acabou preenchido por práticas de corrupção, investidas contra o Estado de Direito e tentativas de minar o direito fundamental ao voto.

Figuras históricas como John Adams, que defendia a impossibilidade de funcionamento de uma república sem líderes dotados de virtude, certamente ficariam horrorizadas com os níveis de vulgaridade e incompetência observados na política contemporânea.

Desde o princípio, a consolidação dos Estados Unidos configurou-se como um feito improvável. Em um contexto histórico dominado por regimes autoritários, cidadãos das 13 colônias britânicas situadas na costa leste ousaram instaurar um modelo inédito de participação civil.

“Toda a experiência tem demonstrado”, escreveu Thomas Jefferson na Declaração da Independência, “que a humanidade está mais disposta a sofrer, enquanto os males forem suportáveis, do que a se redimir abolindo as formas às quais está acostumada”. A preservação da democracia sempre exigiu um esforço ativo e contínuo para equilibrar liberdades individuais e coletivas.

A grande façanha de George Washington consistiu não apenas em triunfar em um conflito contra adversidades extremas, mas em convencer 13 estados recém-independentes — com economias, crenças religiosas e interesses díspares — de que integravam um projeto comum, no qual antigas inimizades deveriam dar lugar a um senso unificado de coletividade, sem a divisão entre “nós” e “eles”.

Mecanismos de defesa contra o autoritarismo

Durante a Convenção Constitucional de 1787, os delegados reconheceram a necessidade imperiosa de instituir mecanismos de salvaguarda contra a ascensão de tiranos. Em correspondência enviada a James Madison, Jefferson externou o temor de que um presidente derrotado nas urnas pudesse falsificar votos e perpetuar-se no controle governamental. No mesmo sentido, Alexander Hamilton advertia sobre o risco de indivíduos desprovidos de princípios utilizarem a popularidade para instaurar o caos, reiterando que, em um governo republicano, ninguém estaria acima da lei.

Anos após episódios marcantes como a invasão do Capitólio destinada a anular resultados eleitorais, a contestação de pleitos passou a figurar recorrentemente em estratégias políticas oficiais. Pesquisas apontam que apenas uma minoria de candidatos em disputas acirradas pelo Senado manifesta disposição de aceitar resultados futuros de forma incondicional.

O cenário nem sempre foi esse. Episódios históricos como o escândalo Watergate demonstraram que, diante de evidências contundentes, membros do próprio partido do presidente Richard Nixon priorizaram a lealdade à Constituição em detrimento da legenda partidária. Em agosto de 1974, após constatarem o esgotamento do apoio parlamentar na Casa Branca, líderes republicanos comunicaram a situação ao presidente, que acabou renunciando no dia seguinte.

O papel da cidadania na preservação democrática

Para analistas, a preservação do modelo democrático norte-americano depende de um intercâmbio constante entre o presente e o legado histórico. Em discursos memoráveis como o proferido em Gettysburg, Abraham Lincoln instou os cidadãos a abraçarem um “novo nascimento da liberdade”, pontuando que cada geração tem o dever de renovar as promessas formuladas originariamente na Filadélfia. Da mesma forma, Dwight Eisenhower enfatizou em sua despedida que apenas uma sociedade alerta e bem informada pode assegurar a permanência das liberdades.

Apesar dos desafios contemporâneos, especialistas mantêm perspectiva otimista quanto à capacidade do povo americano de resguardar as instituições e o senso de decência coletiva. A sociedade já atravessou períodos de fratura social ainda mais profundos durante episódios como a Guerra Civil, a Reconstrução e a Guerra do Vietnã, acumulando ao longo de dois séculos e meio avanços graduais em termos de direitos civis e igualdade.

Diante do quadro atual de polarização, cabe a cada eleitor avaliar criticamente as alternativas de liderança disponíveis e questionar a validade de apoiar figuras públicas que apostam na desinformação e no aprofundamento das divisões sociais. Mais do que simples referendos sobre gestões presidenciais, os pleitos recentes colocam em teste o compromisso cívico com os princípios constitucionais e com a própria coesão da ideia de nação.

Fonte:: estadao.com.br

Anúncios
Compartilhe este artigo