Logo após a aterrissagem na capital de Ohio, Columbus, o clima de otimismo entre os passageiros já evidenciava uma transformação profunda na região. Banners espalhados pelo aeroporto celebram o ritmo acelerado de crescimento local, enquanto áreas antes rurais dão lugar a construções em tempo recorde. Esse movimento reflete uma guinada gradual no chamado Cinturão da Ferrugem (Rust Belt), a tradicional zona de declínio industrial dos Estados Unidos que agora busca um renascimento ancorado no setor de tecnologia.
Onde antes operavam usinas siderúrgicas e minas de carvão, galpões abandonados agora abrigam galerias de arte, ateliês e escritórios de gigantes globais como Amazon, Google e Intel. Para Dorsey Hager, secretário-executivo do Sindicato de Ofícios da Construção Civil de Columbus, a economia local vive um momento sem precedentes impulsionado pelo boom tecnológico e pela atração de jovens profissionais para a zona urbana.
Crescimento respaldado em números
Tornando-se a segunda maior cidade do Meio-Oeste em 2017 e figurando entre as 15 mais populosas do país, Columbus projeta receber até 600 mil novos moradores em sua região metropolitana até 2050. Esse desenvolvimento é fruto de políticas estaduais agressivas de incentivos fiscais, baixos impostos e regulamentações flexíveis, somadas ao suporte acadêmico da Ohio State University.
De acordo com o economista Mark Muro, do Instituto Brookings, a combinação de herança industrial com um forte ecossistema universitário criou a fórmula perfeita para a manufatura avançada, aeroespacial, robótica e de defesa. O ponto alto dessa expansão é o investimento multibilionário da Intel na construção de complexos fabris de semicondutores, além da chegada de empresas de defesa como a Anduril.

Coração de Silício e o apoio federal
A consolidação desse polo tecnológico gerou a alcunha de “Coração de Silício” (*Silicon Heartland*), unindo o conceito do Vale do Silício californiano à identidade do Meio-Oeste. O ecossistema recebeu forte injeção de recursos federais, iniciada na gestão de Donald Trump e intensificada sob o governo de Joe Biden por meio da Lei CHIPS e Ciência (*CHIPS and Science Act*).
O objetivo principal de repatriar a cadeia de suprimentos de semicondutores dialoga diretamente com as demandas eleitorais de Estados decisivos (*swing states*), que viram suas bases industriais ruírem no final do século passado. Atualmente, lideranças sindicais apontam que a maior parte das horas trabalhadas na construção civil da região está voltada justamente para a estruturação de data centers e fábricas de chips.

Pittsburgh: do aço à inteligência artificial
Seguindo uma trajetória semelhante, Pittsburgh, na Pensilvânia, também ressurge das cinzas de seu passado glorioso ligado à produção de aço. Marcada historicamente pela força operária e pelo emblema de sua tradicional equipe de futebol americano, a cidade enfrentou taxas severas de desemprego e esvaziamento populacional na década de 1980, após o colapso da indústria siderúrgica.
O renascimento local começou a ganhar tração nos anos 90, impulsionado pela área da saúde e por polos acadêmicos de excelência como a Universidade de Pittsburgh e a Carnegie Mellon — pioneira na criação de escolas de ciência da computação. Hoje, trechos urbanos conhecidos como a Avenida da Inteligência Artificial (*AI Avenue*) concentram dezenas de startups e companhias focadas em inovação, robótica e processamento de dados.

Desafios e limitações do novo modelo
Apesar do avanço tecnológico acelerado e do ganho populacional recente em cidades como Pittsburgh, especialistas ressaltam que os novos polos estão longe de replicar a magnitude do Vale do Silício ou de recuperar totalmente os patamares demográficos da era industrial de ouro — quando a cidade abrigava mais de 600 mil habitantes, contra pouco mais de 300 mil na atualidade.
Além disso, a transição para a manufatura avançada e para os data centers exige mão de obra altamente qualificada e processos altamente automatizados. Isso significa que, embora o setor impulsione a economia e a infraestrutura imobiliária, a criação de postos de trabalho diretos em linhas de montagem tende a ser limitada, exigindo adaptação constante da força de trabalho local frente ao avanço da inteligência artificial e da robótica.
Fonte:: estadao.com.br


