Reconhecida de forma unânime como uma das vozes mais marcantes da música sertaneja brasileira e eternizada como a rainha da sofrência, a cantora Marília Mendonça passa a ser homenageada a partir desta sexta-feira (9) com uma ampla exposição imersiva na capital paulista. A mostra, que permanece aberta ao público até o dia 29 de novembro, ocupa os espaços do Museu da Imagem e do Som (MIS), situado na tradicional Avenida Europa.
Intitulada Marília Mendonça – Sentimento Louco, a iniciativa cultural tem como objetivo principal celebrar a trajetória artística, a obra e a memória da cantora e compositora. O passamento da artista, ocorrido em decorrência de um trágico acidente aéreo em Minas Gerais, completará cinco anos no próximo mês de novembro. Esta representa a primeira grande exposição de caráter antológico dedicada exclusivamente a documentar e expor a vida de uma mulher que transformou profundamente as estruturas do gênero sertanejo, conferindo um protagonismo inédito às narrativas femininas nas composições.
Durante sua vida, a própria artista costumava refletir sobre a essência de suas letras, que desviavam do lugar-comum da vitimização passiva. “Você canta sofrência, né? É o que todos me dizem. Embora muitos não percebam, as histórias de Marília Mendonça sempre terminam com um final feliz para ela: mesmo quando o cara me trai, eu mando ele embora”, declarava a cantora em entrevistas ao longo de sua carreira.
Para a curadora da mostra, Isa Pessoa, a importância histórica da goiana ultrapassa as fronteiras do segmento musical, consolidando-a como um verdadeiro fenômeno cultural no país. “A Marília Mendonça redefiniu o gênero musical, o sertanejo e o papel das mulheres dentro disso. Então, uma exposição sobre ela era uma necessidade musical”, avalia. A curadora destaca ainda que o diferencial criativo da compositora residia na habilidade de traduzir em versos as vivências reais e cotidianas de pessoas próximas, como familiares e conhecidos. Um exemplo emblemático citado é o do mega-sucesso *Infiel*, inspirado diretamente nas vivências de uma tia da artista.
As origens de um talento precoce
Nascida em Cristianópolis, no estado de Goiás, em 22 de julho de 1995, Marília Mendonça deu seus primeiros passos na música ainda na infância, aos 11 anos de idade, quando recebeu de seu avô o primeiro violão para se apresentar em um contexto religioso. Pouco tempo depois, aos 12 anos, já dava início à sua jornada autoral com a composição de faixas como *Minha Herança*.
A habilidade incomum chamou a atenção de Wander Oliveira, fundador do escritório WorkShow, que a contratou como compositora quando ela tinha apenas 13 anos. O empresário recorda a forte personalidade e a maturidade artística da adolescente. “A Marília, ainda criança, chegou no meu escritório, me procurando. Ela tinha 13 anos e era ainda muito menina, mas sempre à frente do seu tempo. Era muito fácil de trabalhar com ela, ela era muito criativa. Quando a Marília falava alguma coisa que parecia absurdo, você não podia responder de pronto. Era melhor esperar e pensar no que ela estava falando porque sempre haveria algo muito importante para ser visto ali”, relata.
Aos 18 anos, as canções geradas por sua pena já figuravam nas vozes de importantes expoentes da música sertaneja nacional, como Cristiano Araújo, Wesley Safadão e a dupla Henrique e Juliano. Foi somente após essa consolidação nos bastidores da composição que ela optou por assumir os vocais de suas próprias criações, mantendo sempre o ponto de vista das mulheres no centro das narrativas melódicas.
“O que eu tenho falado é que existe uma música antes e depois da Marília. Ela não era uma cantora sertaneja. Ela era uma cantora de música popular brasileira. Tanto é que, no projeto que estava desenvolvendo, chamado de *Todos os Cantos*, ela estava indo em cada estado do país e gravando uma música inédita, uma forma de retribuição ao seu público”, analisa Wander Oliveira.
Experiência sensorial e acervo pessoal
A estrutura da exposição no MIS foi planejada para abranger as diversas fases da vida da cantora, desde os anos de infância em Goiás até a explosão de popularidade nos grandes palcos do Brasil. A proposta curatorial aposta em uma imersão sensorial que mesclara fonogramas, materiais audiovisuais inéditos e pertences de uso pessoal da artista, a exemplo de vestimentas, calçados, acessórios, diários e seus inconfundíveis violões.
De acordo com o produtor e diretor artístico Nelson Foerster, a concepção da mostra serviu também para materializar o vasto acervo de pesquisas reunido para a produção de um documentário biográfico sobre a cantora, com estreia programada em plataformas de streaming. “A Marília inovou porque ela trouxe sentimento para suas letras. Pesquisadores e roteiristas que contratamos para esse documentário nos diziam: ‘leiam as letras’. A Marília se tornou tão popular porque as pessoas se identificavam. Ela cantava para as mulheres, cantava os problemas das mulheres e cantava aquilo que as mulheres queriam ouvir”, pontua o diretor.
Os ambientes da mostra foram batizados em referência direta a títulos de sucessos fonográficos da artista. O setor denominado *Esqueça-me Se For Capaz*, por exemplo, concentra as memórias do âmbito estritamente pessoal, permitindo ao público visualizar uma recriação minuciosa do quarto da cantora. O espaço conta com peças inteiramente originais — incluindo mobiliário, cama, edredom, livros, perfumes e os óculos que se tornaram sua marca registrada —, com exceção apenas de um pequeno estojo de maquiagem.
Para aqueles que mantinham convívio próximo com a cantora, o evento evoca emoções ambivalentes, marcadas pela saudade e pelo reconhecimento de seu legado. “Acho que o tempo é importante. Em um primeiro momento a gente sofreu muito, a família sofreu muito, mas hoje eu acho que a gente já estava mais preparado para ver. Confesso a você que para nós, que convivíamos no dia a dia, ainda é um negócio que dá uma tristeza e um aperto no coração. Mas estou saindo feliz por ver a grandiosidade dela, a homenagem que foi feita. Cinco anos ainda é pouco tempo para curar as feridas, mas ela e o público merecem isso”, resume Wander Oliveira.
Os ingressos e os detalhes operacionais para a visitação da mostra *Marília Mendonça – Sentimento Louco* estão disponíveis para consulta no site oficial do MIS, sendo garantida a gratuidade na entrada todas as terças-feiras.
Fonte:: diariopr.com.br


