Relações exteriores exigem cautela e o caso ucraniano serve de alerta

Redação Rádio Plug
4 min. de leitura
Foto: Divulgação / Foto: Lourival Sant'Anna

As complexas e tensas relações mantidas por Volodmir Zelenski com Donald Trump oferecem uma perspectiva contundente sobre a forma como o atual presidente norte-americano gerencia alianças e lida com opositores. Embora o Brasil atue em um cenário geopolítico bastante distinto da Ucrânia, a discussão sobre alinhar-se de vez com a órbita dos Estados Unidos ou manter fortes laços com a China traz um aviso implícito: os riscos diplomáticos e econômicos são elevados em qualquer uma das direções.

O histórico de aproximação de Trump com Moscou e sua evidente reticência em relação à Europa remontam a 1987. Naquela época, o empresário americano viajou a convite para a União Soviética após adquirir centenas de televisores para um hotel em Nova York em um estabelecimento ligado à KGB. No retorno aos Estados Unidos, Trump investiu quantias expressivas em anúncios veiculados nos jornais Wall Street Journal, New York Times e Boston Globe, nos quais defendia o afastamento e o fim do apoio a parceiros europeus, japoneses e sauditas.

Anos mais tarde, já em seu primeiro mandato presidencial, em julho de 2019, Trump pressionou diretamente Zelenski para que o governo ucraniano iniciasse investigações contra Hunter Biden, filho de Joe Biden, que na época integrava o conselho da Burisma, principal empresa de energia da Ucrânia. Em contrapartida a essa exigência, Washington liberaria um pacote de US$ 391 milhões em assistência militar para o país europeu, que já enfrentava ocupações parciais russas desde 2014.

Diante da pressão, o líder ucraniano optou por resistir. A divulgação da gravação contendo o teor da conversa levou a maioria democrata na Câmara dos Representantes a instaurar o primeiro processo de impeachment contra Trump, o qual acabou sendo rejeitado pela bancada republicana no Senado.

Desde esse episódio, a animosidade entre Trump e Zelenski se aprofundou. Em paralelo, agências de inteligência e investigações apontaram que hackers russos acessaram dados da equipe de Hillary Clinton e que contas fakes no Facebook operadas pela máquina de propaganda do Kremlin atuaram ativamente para favorecer a eleição de Trump em 2016. Durante o período de transição daquele ano, assessores do republicano também mantiveram contatos informais com autoridades russas, gerando investigações criminais contra seis auxiliares devido à violação de leis que vedam negociações diplomáticas paralelas por cidadãos privados.

Mais recentemente, Zelenski voltou a demonstrar resistência frente às exigências formuladas pelo secretário do Tesouro Scott Bessent para a assinatura de acordos que repassariam o controle de recursos minerais ucranianos para os Estados Unidos — em um modelo comparado por analistas ao constrangimento imposto à Venezuela de Delcy Rodríguez com relação às reservas petrolíferas. Atualmente, enquanto a administração americana avança em entendimentos para adquirir diesel russo e cobra publicamente que a Ucrânia cesse suas investidas contra refinarias russas, Moscou prossegue com bombardeios contra infraestruturas civis ucranianas, encontrando em Kiev uma postura contínua de enfrentamento.

A forte dependência que a Ucrânia e os países europeus construíram em relação à inteligência militar norte-americana, à rede de satélites Starshield e aos sistemas de defesa antiaérea Patriot transformou-se em um ponto crítico de vulnerabilidade com a interrupção parcial dos suprimentos. Tanto os membros da Otan quanto o governo ucraniano enfrentam agora um cenário de incertezas estratégicas. Para formuladores de políticas em outras nações, incluindo o Brasil, a mensagem central deixada por esse panorama internacional é prudência diante de dependências geopolíticas unilaterais.

Fonte:: estadao.com.br

Anúncios
Compartilhe este artigo