Quando os Estados Unidos estavam prestes a implantar sua ameaça de destruição total ao Irã, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, interveio com um apelo à Washington. Ele solicitou que o presidente americano, Donald Trump, reconsiderasse o ultimato que havia sido emitido, e essa intercessão resultou em uma trégua temporária entre as partes envolvidas.
A confirmação do cessar-fogo de duas semanas foi anunciada por Sharif em suas redes sociais, com ênfase na urgência e na boa vontade demonstrada pelos envolvidos. A decisão foi fruto de um diálogo recente de Trump com Sharif e o chefe do Exército paquistanês, marechal Syed Asim Munir. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, também expressou gratidão pelos esforços diplomáticos do Paquistão.
No entanto, o futuro do acordo parecia incerto, uma vez que surgiram relatos de violações por parte das nações envolvidas nos confrontos, além de incertezas acerca de como o Líbano seria afetado e a situação no Estreito de Ormuz. Apesar das dúvidas, especialistas estão avaliando essa mediação como uma vitória significativa para o Paquistão.
A habilidade do Paquistão em facilitar este diálogo foi vista como surpreendente, especialmente considerando o histórico de instabilidade interna e suas relações complicadas com a Índia e o Afeganistão. Entretanto, essa atuação parece lógica, tendo em vista que o país mantém relações favoráveis tanto com os Estados Unidos quanto com a China e também é afetado pela dinâmica de petróleo que atravessa o Estreito de Ormuz.
“O Paquistão possui uma posição única como mediador, uma vez que suas relações com as principais potências globais, como os EUA e a China, lhe conferem vantagens estratégicas”, afirma Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais do Berea College em Kentucky.
A mediação do Paquistão pode representar uma forma de o país ganhar visibilidade e respeito na arena internacional, principalmente considerando sua história de ser rotulado como instável ou até mesmo “mentiroso” em ocasiões anteriores pelo próprio Trump. Esse novo papel coloca o Paquistão como um ator relevante, com a possibilidade de minimizar custos diplomáticos caso o cessar-fogo não seja mantido.
“Muitos países buscam atuar como moderadores em conflitos internacionais. O Brasil, por exemplo, já se ofereceu para mediar diversas situações”, lembra Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da FGV e da FAAP. Esse tipo de atuação é comum entre potências médias, que buscam ampliar sua influência no cenário global.
No passado recente, o Brasil tentou desempenhar um papel de mediação no conflito entre Rússia e Ucrânia, mas foi visto como um player irrelevante devido à sua proximidade com Moscou. Atualmente, Emirados Árabes Unidos e Turquia estão também envolvidos em mediações dessa natureza. O Catar, conhecido por sua habilidade em atuar como intermediador, especialmente no conflito entre Israel e Hamas, acabou também sendo impactado pelas tensões atuais.
O Paquistão construiu sua posição com base em suas capacidades nucleares, que lhe conferem um status em meio a nações em conflito. “Possuir armas nucleares contribui para a percepção de status e ajuda na atuação como mediador”, explica Vieira.
De acordo com Michael Kugelman, especialista no Sul da Ásia pelo Atlantic Council, essa atuação do Paquistão representa um esforço significativo para melhorar sua imagem internacional, que tem sido negativa por muitos anos. “O Paquistão tem lutado contra a percepção de ser um ator irrelevante no cenário regional e global”, disse Kugelman ao The New York Times.
Construindo Pontes
A habilidade do Paquistão em atuar como mediador vem da sua capacidade de construir alianças, não apenas com os protagonistas do conflito, mas também com outras potências como a China. Relatos de bastidores das negociações indicam que a participação da China foi vital para que o Irã aceitasse o cessar-fogo, uma vez que Pequim solicitou um certo grau de flexibilidade por parte de Teerã.
“O Paquistão age como um representante da China e tem a capacidade de oferecer soluções que atendam aos interesses chineses”, destaca Vinícius Vieira. O Paquistão possui um histórico de relações com os Estados Unidos que data da Guerra Fria e sua colaboração na “Guerra ao Terror”, mantendo assim um papel de interlocutor respeitado junto a Washington.
Recentemente, o governo paquistanês tem se esforçado para fortalecer suas relações bilaterais com os EUA, até mesmo indicando Trump como candidato ao Prêmio Nobel da Paz. A interação com o Irã também é facilitada pela longa fronteira de 900 quilômetros, assim como pela significativa população xiita que reside em seu território.
Importantly, o Paquistão tem funcionado como intermediário nos diálogos entre Washington e Tehran. “Por décadas, o país tem representado os interesses iranianos em Washington, assim como os suíços fazem por parte dos EUA em Teerã”, explica Azeema Cheema, diretora da Verso Consulting em Islamabad.
Ademais, o Paquistão encontra interesses comuns entre países como Turquia e Egito, que juntos formam um grupo de potências médias influentes nas dinâmicas atuais. Contudo, outros vizinhos do Irã, como os países do Golfo, enfrentam desafios ao tentarem atuar como mediadores, uma vez que também estão envolvidos nas tensões provocadas pelas ações do Irã em um esforço para expandir seu alcance na região.
A Índia, por outro lado, apesar de sua posição como potência significativa, carece de credibilidade no mundo muçulmano, o que limita suas capacidades mediadoras, especialmente sob uma gestão governamental que prioriza um hinduísmo nacionalista. Isso confere ao Paquistão um espaço importante para atuar como um mediador viável no cenário atual.
Assim, o envolvimento do Paquistão como mediador nos estágios iniciais deste conflito não deve ser subestimado. A dinâmica geopolítica e o contexto atual mostram que o país pode desempenhar um papel crucial na construção de soluções pacíficas e no fortalecimento de sua posição no cenário internacional./Com NYT
Fonte:: estadao.com.br




