Galípolo e o Limite da Lealdade

Redação Rádio Plug
Foto: Divulgação / Foto: Ana Ehlert

A política possui momentos em que se apega ao previsível e se fundamenta na lealdade automática, na obediência silenciosa e na conveniência ideológica. É nesses instantes que a realidade, muitas vezes representada por uma única figura, desmantela todo um enredo previamente construído.

Um exemplo claro disso é o caso do Banco Master, que enfrenta um rombo superior a R$ 50 bilhões e um impacto significativo no Fundo Garantidor de Crédito. Essa situação rapidamente se tornou um campo fértil para disputas narrativas.

Antes mesmo que todas as evidências fossem consolidadas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores (PT) encontraram um culpado ideal: Roberto Campos Neto. A escolha não se baseou em ações concretas, mas na imagem que ele representa — um elo com a administração anterior, uma herança incômoda e um alvo conveniente para as críticas.

A narrativa parecia simples e bem delineada. Bastava alinhar a comunicação, repetir a acusação de forma constante e, assim, transformar a suspeita em uma versão oficial aceita. Essa estratégia, sem dúvida, visava também a lógica eleitoral, temendo a contaminação do projeto de reeleição de Lula.

Entre as expressões contundentes que surgiram no debate, destacou-se a menção ao “ovo da serpente”, referindo-se a um passado que o governo tentava responsabilizar. Contudo, qualquer narrativa necessita de um representante que transmita credibilidade, e foi exatamente nesse ponto que a situação começou a falhar.

Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central e indicado por Lula, rejeitou o papel que se esperava dele nos bastidores, negando-se a compactuar com a desinformação. Em sua participação na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, quando questionado diretamente sobre a culpa do seu antecessor na crise, Galípolo fez um pronunciamento que desmantelou a narrativa: “Não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontre qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos Neto.”

Essa declaração não se tratou apenas de uma resposta a uma pergunta; ela atuou como um verdadeiro desmonte de uma narrativa que dependia da condenação de Campos Neto. Quando a absolvição vem de um adversário, ela carrega um peso que raramente pode ser desmentido por críticas ou defesas interesseiras.

Galípolo, por força do destino e escolha pessoal, tornou-se o advogado improvável de Campos Neto, transformando-se em um obstáculo desafiador para uma estratégia que precisava de sua adesão. A resposta à sua postura foi imediata, marcada por uma série de comentários depreciativos de figuras influentes do PT nas redes sociais, chegando a acusá-lo de proteger Campos Neto e Bolsonaro, uma acusação que traduziu um sentimento de traição.

O desconforto do governo em relação ao “companheiro” Galípolo é facilmente compreensível. Enquanto se esperava alinhamento, encontrou-se independência. A narrativa esperada se desfez diante da honestidade da resposta, levando à preocupação com a conveniência frente ao que se revelou como uma questão de caráter.

Na política, caráter é frequentemente interpretado como indisciplina. Existem aqueles que tentam minimizar o episódio a um mero detalhe institucional ou a uma preocupação excessiva com os aspectos técnicos, mas isso não é correto. O que realmente está em jogo é a recusa explícita de um integrante do governo em participar da distorção dos fatos, mesmo quando tal distorção é favorável aos seus próprios interesses.

Galípolo não estava apenas defendendo Campos Neto, mas lutando por algo mais fundamentado — a verdade possível que se encaixa nos limites técnicos ao seu alcance. Em um cenário onde a culpa frequentemente é atribuída antes da apuração dos fatos, essa postura é suficiente para causar irritação.

Além disso, essa situação revela, de maneira talvez não intencional, o cerne da questão: não há falta de culpados, mas sim uma ausência de vontade para localizá-los onde realmente se encontram. No final das contas, se até mesmo um aliado se recusa a mentir, o problema transcende a narrativa e se instala na própria realidade.

Fonte:: bemparana.com.br

Advertisements
Compartilhe este artigo