Tecnologia brasileira melhora bem-estar de astronautas da Nasa

Redação Rádio Plug
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A meta da startup agora é manter a parceria com...

Poucas horas antes de a espaçonave Orion iniciar sua jornada rumo à Lua no último dia 1º de abril, o engenheiro mecatrônico Rodrigo Trevisan Okamoto recebeu uma notícia que aguardava desde o anúncio da missão Artemis 2, em 2023. A Nasa enviou um e-mail informando que a tripulação do primeiro voo tripulado ao redor do satélite em meio século levaria um dispositivo desenvolvido por ele e sua equipe na startup paulista Condor Instruments, com apoio inicial do programa PIPE (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas), da Fapesp.

“O anúncio da Nasa nos pegou de surpresa. Posteriormente, descobrimos que os astronautas utilizavam o equipamento em testes nos últimos dois anos”, relata Okamoto à Agência Fapesp.

O dispositivo, conhecido como actígrafo, é semelhante a um relógio de pulso e integra acelerômetros, além de sensores de luz e temperatura para mapear, com alta precisão, os padrões de sono e vigília dos usuários ao longo de dias ou semanas.

O funcionamento do actígrafo se baseia em um sensor de atividade que monitora a frequência e a intensidade dos movimentos do braço. Por meio da análise desses dados, é possível identificar os períodos de repouso (quando não há movimento) e os de atividade (quando ocorrem movimentos), evidenciando o comportamento circadiano do indivíduo.

Esse “relógio biológico” de aproximadamente 24 horas, que controla as funções físicas e comportamentais da maioria dos seres vivos, é primordialmente influenciado pela luz.

Para capturar esses dados, o dispositivo conta com dez sensores que monitoram a exposição à luz em diferentes faixas espectrais. Essa informação é fundamental, pois permite caracterizar não apenas a intensidade da luz, mas também sua composição espectral ao longo do ciclo claro-escuro, que é o principal regulador externo que alinha o relógio biológico interno ao ambiente.

“O ciclo claro-escuro é determinado pela rotação da Terra, e é através dele que o cérebro antecipa o momento do sono. No espaço, essa referência é perdida, pois os astronautas podem ficar sob luz ou escuridão constantes, dependendo da posição em relação ao Sol”, explica Mario Pedrazzoli Neto, professor na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Especialista em cronobiologia, Pedrazzoli coordenou estudos que fundamentaram o desenvolvimento do actígrafo brasileiro.

Desafios do sono no espaço

Na Estação Espacial Internacional (ISS), por exemplo, os astronautas vivenciam 16 alvoreceres e entardeceres por dia, o que pode desregular severamente o ciclo sono-vigília. Para minimizar esse estresse, foram implementados sistemas de diodos emissores de luz (LEDs) na estação para simular o ciclo terrestre, ajudando na higiene do sono da tripulação.

“Esses fatores, entre outros em investigação, como os efeitos da gravidade, contribuem para que os astronautas experimentem privação de sono. No espaço, o repouso é naturalmente desregulado”, afirma Pedrazzoli.

Como a privação de sono pode gerar déficits cognitivos e motores que comprometam missões prolongadas, agências como a Nasa frequentemente realizam estudos para avaliar como a irregularidade nos ciclos de luz e os distúrbios do sono impactam o corpo humano, gerando riscos à saúde tanto a curto quanto a longo prazo, explica o pesquisador.

Pesquisadores da agência estão analisando, por exemplo, como fatores como a luminosidade e o consumo de cafeína afetam os relógios biológicos das tripulações e influenciam a qualidade do sono.

“A cronobiologia surgiu com o financiamento da Nasa, justamente pela necessidade de compreender como os astronautas dormem no espaço”, ressalta Pedrazzoli.

“Em 2023, a Nasa nos procurou em busca de um novo fornecedor. Inicialmente, fizeram uma pequena compra para os setores de ciência e engenharia”, afirma Okamoto. Atualmente, a startup exporta 80% de sua produção, que varia de 200 a 300 dispositivos por mês, para mais de 40 países, atendendo a universidades e centros de pesquisa renomados.

Para a campanha Artemis, a agência espacial norte-americana iniciou, em 2023, um estudo visando o monitoramento do bem-estar, nível de atividade, padrões de sono e interações dos astronautas. A proposta do projeto Archer (Artemis Research for Crew Health and Readiness) é investigar o ambiente crítico da cápsula Orion: um espaço confinado onde a tripulação enfrenta desafios biológicos e psicológicos prolongados, como isolamento e radiação em missões espaciais profundas.

Com o intuito de viabilizar o estudo, os engenheiros da Nasa buscaram opções no mercado global de actígrafos que pudessem monitorar a tripulação em tempo real. O dispositivo da Condor Instruments chamou a atenção da agência após a participação de representantes da startup em congressos científicos internacionais relacionados à cronobiologia, sono e luz.

“Em 2023, eles nos procuraram por um novo fornecedor. Inicialmente, realizaram uma compra menor para os setores de ciência e engenharia. Desde então, participamos de diversas reuniões à medida que o projeto se desenvolvia. O dispositivo foi submetido a rigorosos testes para assegurar que os dados atendiam às demandas da missão e eram seguros para o voo”, comenta Okamoto.

A confirmação oficial sobre o uso do actígrafo na Artemis 2 foi divulgada apenas no dia do lançamento, embora já houvesse expectativa desde o final de 2025. “Só quando a nave decolou soubemos que o dispositivo realmente estava a bordo”, relata o engenheiro.

Inovações tecnológicas do actígrafo

De acordo com Okamoto, o actígrafo brasileiro se destaca entre os concorrentes internacionais por integrar o monitoramento da atividade motora, da exposição à luz e da temperatura corporal. Este último dado é crucial, pois a temperatura do corpo humano tende a cair entre 1 °C e 2 °C durante o sono, um processo fisiológico do ciclo circadiano que favorece o relaxamento e a conservação de energia.

Outro diferencial é a medição da luz melanópica – que corresponde ao espectro da luz azul-ciano (cerca de 490 nanômetros) que afeta o sistema não visual humano. Essa luz ativa células ganglionares fotossensíveis na retina, inibindo a melatonina e indicando ao cérebro que é dia, o que aumenta o estado de alerta e reduz a sensação de sono.

“Os celulares, por exemplo, emitem luz nesse comprimento de onda, por isso seu uso à noite altera drasticamente a regulação cerebral do sono”, enfatiza Pedrazzoli.

O dispositivo também possui um botão de eventos, que é acionado de forma sincronizada pelos astronautas em momentos significativos, como no dia 6 de abril, quando a Orion alcançou 406.777 km de distância da Terra – a maior distância já atingida por seres humanos. Durante a coletiva de imprensa pós-missão, o comandante Reid Wiseman destacou outro uso do aparelho: “O uso desse dispositivo nos últimos dois anos nos permitia recuperar o foco sempre que nos distraíamos”.

Conforme informações da Nasa, os dados obtidos pelo actígrafo durante o voo serão comparados a testes de coordenação motora e questionários aplicados antes e depois do lançamento. O intuito é otimizar o design de futuras espaçonaves a fim de garantir a segurança em missões prolongadas. “As lições aprendidas nos ajudarão a compreender como os astronautas podem sobreviver e prosperar em distâncias maiores da Terra”, garante a agência.

O surgimento do actígrafo

A origem do actígrafo remonta a uma necessidade de Pedrazzoli na condução de estudos desenvolvidos no Centro de Estudos do Sono – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão financiado pela Fapesp e vinculado à Universidade Federal de São Paulo. Os primeiros protótipos foram utilizados para avaliar o impacto do horário de verão na população.

“Percebemos que era necessário escalar a produção para sustentar nossas pesquisas e obter suporte técnico especializado”, esclarece o professor. Por recomendação de Arturo Forner-Cordero, professor da Escola Politécnica da USP, Pedrazzoli conheceu Okamoto e seus colegas, que, como alunos de mestrado na Poli-USP, estavam interessados em fundar uma startup tecnológica. Com apoio do programa PIPE-FAPESP, os engenheiros transformaram o protótipo em um produto comercial de alta precisão.

“Após os primeiros protótipos com peças usinadas, buscamos investimento do PIPE da FAPESP para tornar o negócio viável”, relata Okamoto. Atualmente, a startup exporta 80% de sua produção, que varia entre 200 e 300 dispositivos por mês, para mais de 40 países, atendendo instituições de ensino e centros de pesquisa. O dispositivo é aplicado em estudos que vão desde a epidemia de miopia na Ásia até a recuperação de bebês prematuros em UTIs neonatais.

A meta agora é manter a parceria com a Nasa para as próximas etapas da campanha Artemis, incluindo o pouso no polo sul da Lua previsto para 2028. “Faremos tudo o que for possível para continuar como fornecedores da agência”, afirma Okamoto.

A realização de um sonho

Para Rodolfo Azevedo, coordenador das Tecnologias e Parcerias de Inovação da Fapesp, a participação da Condor Instruments na missão Artemis 2 representa a realização do que o programa PIPE busca: converter ciência de bancada em soberania tecnológica nacional.

“É essencial destacar que o apoio do programa foi um dos pilares na formação inicial da empresa, num momento em que o risco tecnológico é mais elevado e o capital privado ainda é escasso. Esse financiamento provisório possibilitou a transição de um protótipo acadêmico a um produto comercial de alta precisão”, observa Azevedo.

O sucesso da empresa também oferece uma lição importante sobre inovação: o financiamento deve ser disponibilizado desde cedo, embora os resultados significativos possam levar tempo para se consolidar, segundo Azevedo.

“Entre os primeiros protótipos financiados pelo PIPE até o anúncio de que a tecnologia brasileira está monitorando astronautas no espaço profundo, a startup percorreu anos de pesquisa e refinamento. Isso reafirma que a inovação disruptiva demanda paciência estratégica e investimento constante para que possamos colher frutos que valorizem o nome do Brasil no cenário internacional”, conclui.

Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 29 de abril de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a

Fonte:: poder360.com.br

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