Tubarão drogado? Pesquisa da UFPR responde após detectar cocaína em sangue de predadores

Redação Rádio Plug
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O tubarão-de-recife-caribenho (Carcharhinus per...

O tubarão, frequentemente retratado como o vilão nas produções da cultura pop, é uma das espécies que mais sofre com os impactos da atividade humana. A poluição dos oceanos compromete a fisiologia e a reprodução de diversas espécies marinhas. Uma pesquisa coordenada por Natascha Wosnick, professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), revelou a presença de substâncias como cocaína e cafeína no sangue de tubarões, fato que é abordado em um artigo recentemente publicado.

O estudo, publicado no periódico Environmental Pollution, é pioneiro ao documentar a presença de contaminantes emergentes no soro sanguíneo de tubarões nas Bahamas. Natascha Wosnick integra o Cape Eleuthera Institute, um centro de estudos ambientais localizado na ilha de Eleuthera, nas Bahamas.

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Substâncias detectadas no sangue de tubarões

A pesquisa identificou resíduos de cocaína, cafeína e analgésicos, como paracetamol e diclofenaco, em três espécies de tubarões que habitam regiões costeiras: o tubarão-caribenho-de-recife (Carcharhinus perezi), o tubarão-lixa (Ginglymostoma cirratum) e o tubarão-limão (Negaprion brevirostris).

Wosnick e sua equipe realizaram a coleta e análise do soro sanguíneo de 85 tubarões de cinco espécies diferentes. Para identificar as drogas, foi utilizada a técnica de cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas em série (LC–MS/MS), que separa as substâncias da amostra e as identifica pelo peso e padrão, permitindo o reconhecimento mesmo em pequenas quantidades.

As amostras coletadas nas Bahamas foram analisadas no Brasil, em colaboração com a professora Rachel Ann Hauser-Davis, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Considerando o risco representado para espécies ameaçadas, o estudo optou por métodos não letais e minimamente invasivos, utilizando análises estatísticas para relacionar os níveis de contaminantes a marcadores fisiológicos, ao invés de realizar experimentos tradicionais de exposição.

Investigação ampla sobre impacto das drogas

Este trabalho é o primeiro a registrar a presença de cafeína e paracetamol em tubarões em nível mundial, além de documentar pela primeira vez a presença de diclofenaco e cocaína nesses animais nas Bahamas. A pesquisa ultrapassa a mera detecção de contaminantes, buscando entender os efeitos que a exposição a essas substâncias pode causar na saúde dos tubarões.

“Muitos estudos ainda se concentram na identificação de substâncias em ambientes e nos tecidos dos organismos. Embora essa seja uma etapa crucial, não responde à pergunta mais importante do ponto de vista ecológico e de conservação: quais são os efeitos biológicos dessa exposição?”, explica Wosnick.

A professora destaca que, apesar dos tubarões serem organismos que existem há milhões de anos, suas vias fisiológicas possuem semelhanças com as de outros vertebrados. Dessa forma, substâncias projetadas para humanos podem interferir em processos essenciais desses animais. “Em seres humanos e modelos laboratoriais, já sabemos que esses compostos podem ter impactos no sistema endócrino, no fígado e no sistema nervoso, despertando preocupações sobre efeitos parecidos em tubarões”, enfatiza.

O estudo avaliou o estresse, a função metabólica e a saúde geral dos tubarões. Conforme o artigo, os tubarões expostos apresentaram diferenças nos níveis de triglicerídeos, ureia e lactato em comparação aos que não apresentaram contaminação.

É pertinente perguntar se contaminantes como cafeína e cocaína teriam algum efeito estimulante, como retratado em filmes e documentários. Contudo, Wosnick assegura que não existem evidências científicas substanciais que sustentem essa ligação. “Essa percepção tende a reforçar um medo historicamente exagerado em relação aos tubarões, contribuindo para sua perseguição”, observa.

Acúmulo de contaminantes no meio marinho

A análise da presença de contaminantes nos oceanos é crucial por diversos motivos. Um deles é que ainda não existem regulamentações específicas para monitoramento, limites seguros ou estratégias de controle e mitigação, como enfatiza Wosnick.

A professora também informa que a lista de substâncias encontradas em animais marinhos tem se expandido constantemente. Isto inclui medicamentos, produtos de higiene pessoal, protetores solares e cocaína, que foi detectada na costa do Rio de Janeiro por um grupo com o qual a pesquisadora colabora. Além disso, alguns estudos nos Estados Unidos já identificaram tubarões contaminados com hormônios de anticoncepcionais e antidepressivos.

“Esses contaminantes entram nos oceanos por várias vias, como tratamento inadequado de esgoto, descarte incorreto e até excreção humana, uma vez que muitos químicos são eliminados pela urina”, afirma.

Consequências para a saúde humana

Além dos danos diretos aos animais e aos ecossistemas marinhos, esses contaminantes podem se acumular ao longo da cadeia alimentar, resultando em uma concentração de substâncias em tubarões, considerados predadores de topo, que em algumas regiões são consumidos por seres humanos. Assim, o problema se amplia, sendo tanto ambiental quanto de saúde pública.

Nesse contexto, Wosnick ressalta a importância de abordar o tema dentro do conceito de Uma Só Saúde, indicando que não é possível dissociar a saúde humana da saúde ambiental e da fauna. Muitas comunidades no Brasil dependem dos recursos marinhos para subsistência e segurança alimentar; portanto, os impactos ecológicos têm também implicações sociais e de saúde pública.

“Mais do que um reflexo, a situação observada no Caribe pode ser um indicativo de um problema que, no Brasil, tende a ser ainda mais complexo e urgente, acentuando a necessidade de investimentos em saneamento, monitoramento ambiental e políticas públicas que visem à redução da poluição química”, conclui a pesquisadora.

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Fonte:: bemparana.com.br

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