A cidade histórica de Tiradentes, em Minas Gerais, encerrou no último domingo (30) a sua vigésima nona edição do tradicional Festival Cultura e Gastronomia. O evento, que movimentou o município durante dez dias, reuniu aproximadamente 70 mil pessoas entre moradores, turistas, produtores locais e renomados chefs de cozinha. A programação foi marcada por uma intensa troca de experiências, aulas práticas ao vivo, palestras informativas e espaços interativos voltados para a valorização da culinária.
Neste ano, a festividade adotou o tema “Minas Lusitânia – um elo entre culturas”. A proposta teve como objetivo evidenciar as profundas conexões históricas e os reflexos deixados pelos portugueses na identidade gastronômica mineira, destacando ingredientes, técnicas ancestrais e modos tradicionais de preparo de alimentos que atravessaram gerações.

O curador gastronômico Rusty Marcellini explicou que suas vivências e viagens a Portugal serviram para escancarar as semelhanças culturais entre a culinária lusitana e a mineira. Para ele, o papel fundamental de um evento desse porte é educar o público sobre as heranças culturais e promover um intercâmbio ativo de saberes entre os profissionais da área.
“Existe uma identidade muito grande entre Portugal e Minas Gerais, e as pessoas não têm essa consciência. A cultura dos quintais e das hortas, a cultura do porco, como o caso do leitão a pururuca. No Alentejo, é muito forte a cultura do porco, a charcutaria”, destacou Marcellini.
A plataforma Fartura Brasil, entidade responsável pela organização do evento, mantém um histórico de atuação internacional em solo português desde 2018. As atividades incluem expedições voltadas para pesquisas gastronômicas, a realização de uma edição do Festival Fartura em Lisboa e presenças marcantes no evento Essência do Vinho, tanto na capital portuguesa quanto na cidade do Porto.
Pensando no futuro, a organização já projeta a trigésima edição do festival para o ano de 2027, embora o tema central ainda não tenha sido definido. Marcellini adiantou o desejo de prestar homenagens aos profissionais que acompanharam e construíram a trajetória do evento ao longo dos anos.
“Talvez falar também da América Latina, sair um pouco da Europa e voltar às nossas origens. Será uma grande festa. É o festival gastronômico mais longevo do Brasil. Depois do Festival de Tiradentes, vimos esse modelo sendo seguido por outros festivais pelo Brasil. Ele inspira outros festivais”, pontuou o curador.
A movimentação e os desafios culinários na praça principal
O Largo das Forras, principal ponto de encontro da cidade mineira, abrigou o Espaço Conhecimento e o Espaço Interativo, iniciativas viabilizadas pelo Sistema Fecomércio de Minas Gerais. Entre as atrações mais disputadas pelo público estavam os desafios culinários. Nesta competição, amadores tentavam reproduzir pratos propostos e preparados ao vivo por um chef convidado, recebendo orientações técnicas valiosas ao longo do processo. Ao final, os três melhores desempenhos foram premiados.
Durante as atividades de encerramento no domingo (30), o chef Ronie Peterson, especialista gastronômico do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) em Belo Horizonte, comandou uma aula de preparo de galinhada. Ele relembrou sua trajetória com o festival, participando desde a primeira edição ainda quando era estudante da instituição.
“Tive a oportunidade de estar aqui crescendo, aprendendo. Faz muito parte da minha jornada profissional, conhecendo outros chefs, novidades da área. A gente tem a oportunidade de trocar. É um grande congresso em que todos os chefs se reúnem para trazer o melhor da gastronomia. Eu aprendo o tempo todo”, declarou Peterson.

A grande vencedora desta competição interativa foi Zoraide Santos, de 58 anos, profissional da culinária oriunda de Teresópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Ela frequenta o festival há cinco anos consecutivos em busca de aperfeiçoamento.
“Eu acho fundamental a gente estar sempre atrás de conhecimentos novos. A gente sempre aprende uma técnica nova que facilita nossa vida”, celebrou.
Outro destaque da programação foi a participação da professora de gastronomia da Universidade de Lavras e criadora de conteúdos digitais Juju Guerra. Ela integrou o projeto “Cozinha ao Vivo”, onde preparou para os espectadores um risoni das Gerais acompanhado de pato, paio, cachaça e torresmo.
“O festival é um lugar que todo cozinheiro gostaria de estar, porque aqui você se conecta com as pessoas. A gente troca ideias e vivências”, afirmou Juju.

A fusão entre o mar e a montanha nos estandes
A gastronomia de rua e os restaurantes tradicionais também ganharam forte destaque na estrutura do evento. O Bar do Zezé, vindo do bairro Barreiro em Belo Horizonte, marcou presença comercializando seu famoso torresmo de rolo. O representante do estabelecimento, Vitor José Martins, informou que levou cerca de uma tonelada de barriga de porco para suprir a alta demanda do público.
“A gente faz amigos, conhece a técnica deles, vê o que funciona. Meu vizinho de estande, o Ilhote, já falou que ano que vem vamos criar um prato de frutos do mar com torresmo. Vamos casar mar e montanha”, antecipou Vitor.
O chef Rafael Pires, responsável pelo restaurante Ilhote Sul localizado em Macaé (RJ) e filho do fundador do festival, Ralph Justino, destacou sua relação afetiva com o evento, que frequenta desde os dez anos de idade.
“Fui crescendo vivenciando o festival e a gastronomia até o momento em que fui me formar no Senac. Depois, voltei a participar do festival de outra forma, dando aula, com participação no estande, ajudando grandes chefes”, relatou.

Para atender aos visitantes, Pires transportou quase uma tonelada de pescados e frutos do mar, gerando cerca de 3 mil porções. Um dos grandes sucessos de seu cardápio foi o pão de queijo recheado com polvo e molho romesco.
Expansão do enoturismo e novas rotas
A programação técnica e cultural também abriu espaço para o mercado de vinhos. Na Vinícola Trindade, ocorreu o lançamento oficial de um guia voltado para as rotas do vinho e vinícolas situadas no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. A iniciativa é promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) Turismo com o intuito de impulsionar a visibilidade internacional do enoturismo regional.
De acordo com o diretor de investimentos do escritório para as Américas da ONU Turismo, Daniel Nepomuceno, a iniciativa privada do país tem injetado cerca de R$ 20 bilhões no segmento.

“Catalogamos todas as experiências turísticas que já estão no mercado para auxiliar os turistas para que reconheçam quem está investindo no enoturismo, como uma maneira de colocar o Brasil na rota do vinho mundial”, concluiu o representante.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br



