O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, rebateu duramente nesta sexta-feira (18) as declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que classificou as facções criminosas brasileiras como organizações terroristas e afirmou que o país falhou no combate ao crime organizado. A resposta ocorreu durante um evento oficial realizado na capital fluminense, que reuniu autoridades da cúpula da segurança pública das esferas federal, estadual e municipal.
Durante seu discurso, o chefe do Executivo federal defendeu a necessidade urgente de retomar os territórios que atualmente se encontram sob o controle de traficantes no estado do Rio de Janeiro. Para Lula, a tentativa de rotular facções locais como terroristas possui motivações políticas externas e desconsidera a soberania nacional.
“Nós precisamos ganhar do crime organizado. Eu não aceito a ideia de que as facções são terroristas, como diz o Trump”, declarou o presidente perante autoridades de segurança.
Críticas ao terrorismo de Estado e menção a Bolsonaro
Aprofundando a discussão sobre o conceito de terrorismo, Lula argumentou que o termo utilizado pelo líder norte-americano se alinha mais a disputas geopolíticas e a episódios de ruptura institucional, fazendo um paralelo direto com os eventos ocorridos em Brasília no início de 2023.
Segundo o presidente brasileiro, “quando Trump fala em terrorismo, ele fala em terrorismo de Estado, briga pelo poder”. Na sequência, o mandatário mencionou as investigações e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por sua participação na trama golpista de 8 de janeiro.
“Quem era isso? Era o Bolsonaro tentando dar o golpe de 8 de Janeiro. Isso é terrorismo. Pensando em matar Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e até o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Esse era o plano. Isso é terrorismo de Estado”, pontuou.
Vale lembrar que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a uma pena de 27 anos e três meses de prisão. A Corte o considerou culpado por múltiplos crimes, incluindo a ciência e anuência a um plano para assassinar o atual presidente, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes.
Vigilância sobre recursos naturais e atritos diplomáticos
Em sua fala, Lula também externou preocupação com o interesse estrangeiro em riquezas estratégicas brasileiras. O presidente criticou o governo dos Estados Unidos ao abordar a importância de intensificar a vigilância na região da margem equatorial, localizada no norte do país, e na área do pré-sal, situada no litoral da região Sudeste, ambas fundamentais para a exploração de petróleo.
“Nós temos que tomar conta porque o Trump está aí. O Trump está aí atrás de minerais críticos, atrás de petróleo, atrás de terra rara”, advertiu o presidente.
A tensão diplomática ganhou novos capítulos recentemente, após um documento anual enviado por Trump ao Congresso norte-americano no dia 15 deste mês, no qual criticava duramente a suposta incapacidade do governo brasileiro em conter o avanço de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). A retórica norte-americana intensificou-se desde que os EUA passaram a designar formalmente o CV e o PCC como organizações terroristas estrangeiras em maio.
Novos convênios e integração na segurança pública
O evento no Rio de Janeiro serviu como vitrine para a apresentação oficial de convênios firmados entre as administrações federal, estadual e municipal, estruturados em três frentes principais de atuação coordenada:
- Proteção integrada de corredores logísticos: Parceria entre o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e o governo estadual voltada para desarticular a mobilidade de criminosos e o roubo de cargas. As operações concentram-se nas divisas entre estados do Sudeste e em vias críticas do Rio, como a Avenida Brasil, a Linha Vermelha, a Linha Amarela e os acessos estratégicos ao Porto e ao Aeroporto Internacional.
- Política Estadual de Reocupação Territorial: Acordo focado em diminuir o domínio territorial, armado e econômico exercido por grupos criminosos, ampliando a presença do Estado e atuando diretamente sobre mercados explorados pelo crime.
- Capacitação da Força Municipal: Iniciativa realizada em conjunto com a prefeitura, contando com o apoio de órgãos federais como a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) para treinar turmas de elite da Guarda Municipal carioca, agora estruturada como uma força armada.
Os acordos celebrados com o governo do estado foram assinados no início de setembro, com validade de 60 meses, enquanto a parceria com a prefeitura foi formalizada em agosto de 2025, com vigência de três anos. Para o governo federal, o Rio de Janeiro funciona como um campo de testes para táticas integradas. “Se der certo no Rio, vai dar certo em todo o território nacional”, avaliou Lula.
Defesa da soberania e rejeição a tutelas externas
Representando o executivo fluminense, o governador interino Ricardo Couto enfatizou que a cooperação com a União tem gerado resultados expressivos, a exemplo do aumento na apreensão de entorpecentes, e ressaltou que o país possui total autonomia para gerir seus problemas de segurança.
“O Brasil tem condições, sim, de, por si, seguir em frente e realizar as atividades próprias da segurança. Não é o caso de sermos tutelados”, declarou o desembargador.
No mesmo sentido, o prefeito carioca, Eduardo Cavaliere, destacou a importância da troca de informações de inteligência e do monitoramento eletrônico de vias públicas como ferramentas essenciais para a integração municipal.
A cerimônia ocorreu no Complexo da PRF, local que abriga a sede da Força Municipal no entroncamento entre a Avenida Brasil e a Rodovia Presidente Dutra, ponto nevrálgico de acesso para municípios da região metropolitana como São João de Meriti e Duque de Caxias.
“Uma realização como a de hoje dá um sinal muito claro para a população de integração entre as forças, com impacto em todas as cidades da região metropolitana”, concluiu Cavaliere.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br


