Compreenda as divergências teológicas entre evangélicos e católicos sobre a figura de Maria e o impacto disso na política nacional
As diferenças doutrinárias entre o protestantismo e o catolicismo voltaram a ocupar o centro dos debates públicos após a circulação de boatos nas redes sociais envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL) e Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. O episódio gerou uma onda de desgaste para a campanha do parlamentar e mobilizou instâncias jurídicas como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF), trazendo à tona discussões profundas sobre religião e política no país.
Para entender a raiz do conflito, é preciso olhar para a teologia. Enquanto a Igreja Católica mantém uma forte tradição de devoção e culto aos santos, o protestantismo rejeita essa prática. No centro dessa divergência está a figura de Maria, mãe de Jesus. Embora os evangélicos reconheçam a sua importância histórica e o seu papel singular no cristianismo, eles não lhe atribuem o mesmo patamar de autoridade espiritual ou intercessão que os católicos.
A visão evangélica sobre a mãe de Jesus
De acordo com especialistas no tema, a figura de Maria possui espaço na tradição evangélica estritamente como a serva escolhida por Deus para gerar o Salvador. No entanto, ela não é compreendida como a “mãe de Deus” no sentido dogmático católico, tampouco como uma intercessora entre a humanidade e o Criador.
Segundo Magali Cunha, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser), a doutrina protestante sustenta que não deve haver nenhum tipo de mediação entre Deus e o ser humano além de Jesus Cristo. “Maria tem o seu lugar na tradição evangélica, como mãe de Jesus. Porém, ela é valorizada como serva de Deus, que gerou Jesus, o Salvador. Não é compreendida como ‘mãe de Deus’ nem como intercessora”, explica.
Essa divergência teológica acompanha o movimento protestante desde a sua gênese, no século 16. As bases dessa interpretação estão ligadas a passagens bíblicas como o livro de Êxodo (capítulo 20), que relata a entrega dos Dez Mandamentos a Moisés: “Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti escultura […] Não te prostarás diante delas e não lhes prestarás culto„.
Enquanto a teologia católica interpreta que tal proibição se refere exclusivamente à representação de Deus como objeto de adoração — permitindo, assim, a criação de imagens de anjos, santos e figuras sagradas para veneração —, os protestantes entendem que prestar culto a qualquer imagem ou figura humana equivale à idolatria, colocando outra entidade no lugar que pertence unicamente a Deus.
“Isto foi objeto de forte crítica dos reformadores dos séculos 15 e 16 ao catolicismo, que, na compreensão deles, permitia Deus ser colocado em segundo plano diante da adoração a santos„, complementa Magali Cunha.
O impacto político e a repercussão eleitoral
O debate teológico ganhou contornos políticos agudos recentemente após a disseminação de uma fake news que afirmava que Flávio Bolsonaro, caso eleito, retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A campanha do senador tem trabalhado intensamente para conter os danos desde que a desinformação começou a se espalhar.
O tema rapidamente encontrou eco entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que utilizaram o episódio para polarizar o eleitorado religioso. O receio em torno da reação católica ganhou força, em parte, devido a um projeto de lei apresentado em 2007 pelo então deputado e pastor Victorio Galli, que sugeria a destituição do título de padroeira da santa. A proposta acabou arquivada em 2008, mas o autor viria a integrar o governo de Jair Bolsonaro anos mais tarde.
Diante do cenário, figuras da base governista se posicionaram publicamente. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) utilizou uma rede social para declarar que, sob a gestão atual, as tradições religiosas do país estarão sempre protegidas e preservadas. No mesmo sentido, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) ironizou a situação após participar de uma missa, afirmando que nem mesmo a mãe de Cristo teria escapado das investidas do bolsonarismo.
Nos bastidores, assessores e aliados do senador expressam preocupação de que a narrativa tome proporções capazes de reeditar traumas históricos para o segmento evangélico, como o episódio conhecido como o “chute na santa”, ocorrido em 1995, quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus desferiu golpes contra uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em rede nacional de televisão, gerando profunda indignação em fiéis católicos de todo o país.
Fonte:: bemparana.com.br


