As pesquisas de boca de urna divulgadas nesta terça-feira, 27, em Israel apontam para um cenário político altamente fragmentado e sem um vencedor definitivo. A coalizão de oposição, encabeçada pelo ex-chefe das Forças Armadas Gadi Eisenkot, tem projeção para conquistar um número ligeiramente superior de cadeiras no parlamento em comparação ao grupo liderado pelo atual primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Apesar disso, nenhuma das principais facções demonstra capacidade imediata de assegurar a maioria necessária para governar sozinha.
De acordo com os dados estimados pelos principais canais de televisão israelenses, o bloco oposicionista liderado por Eisenkot deve alcançar 53 assentos. Em contrapartida, o Likud, partido de Netanyahu, figuraria com 50 parlamentares, enquanto as legendas de representação árabe somariam 17 cadeiras no total. Embora a legenda do atual premiérem mantenha uma bancada individual robusta, as projeções indicam obstáculos consideráveis para a montagem de uma coalizão viável. Por sua vez, Eisenkot enfrentaria o desafio de buscar apoios improváveis junto aos partidos árabes para atingir o limiar exigido.
O complexo sistema parlamentarista israelense
No sistema político de Israel, a composição do governo depende obrigatoriamente da formação de alianças partidárias que consigam somar, no mínimo, 61 dos 120 deputados que integram o parlamento, conhecido como Knesset. Dessa forma, a legenda que obtém o maior número de votos nas urnas não tem garantia automática de ocupar o poder. Um precedente ocorreu na eleição de 2021, quando o partido de Netanyahu emergiu como a maior bancada isolada, mas encontrou barreiras intransponíveis para consolidar uma maioria parlamentar.
Especialistas políticos ressaltam que as pesquisas de boca de urna servem apenas como um termômetro preliminar da correlação de forças entre os concorrentes, distando de refletir com exatidão o resultado definitivo que sairá da apuração oficial. Enquanto a contagem dos votos não é finalizada, lideranças de ambos os lados já interpretam os números iniciais sob perspectivas distintas.
Logo após a divulgação das projeções iniciais, Gadi Eisenkot declarou que os dados refletem o desgaste da gestão atual. “Se esses forem os resultados finais, eles marcariam uma vitória”, pontuou o ex-general, reforçando a intenção de atender ao apelo popular por mudanças na chefia do Executivo. Na mesma linha, Yair Lapid, proeminente líder da oposição, classificou o desempenho do bloco governista como um revés severo, afirmando nas redes sociais que a população enviou um claro recado para que a atual administração deixe o cargo.
Em sentido oposto, o ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, minimizou as comemorações dos opositores e defendeu a solidez da posição do Likud. Para o ministro, as análises veiculadas por comentaristas políticos são precipitadas e desprovidas de fundamento prático, reiterando que a legenda de Netanyahu permanece como a maior força partidária do país.
Participação recorde e debates sobre segurança
O pleito foi marcado por uma mobilização intensa dos eleitores. Informações divulgadas pela comissão eleitoral central apontam que a taxa de participação atingiu 74,3% do eleitorado apto até as 20h, configurando o índice mais elevado registrado nesse horário desde o ano de 1988. Cerca de 3,29 milhões de cidadãos já haviam comparecido às urnas durante o período da manhã.
Apesar da alta adesão em âmbito nacional, o engajamento apresentou variações regionais significativas. Nas cinco localidades que registraram os maiores percentuais de apoio ao Likud no pleito anterior, realizado em 2022, os índices de comparecimento ficaram até dez pontos percentuais abaixo da média observada no restante do país. Diante do cenário de forte disputa, as principais correntes políticas intensificaram apelos de última hora para mobilizar a base de eleitores, gerando longas filas em diversos centros de votação.
Além da polarização em torno das figuras centrais da política israelense, a campanha eleitoral colocou em evidência impasses sociais profundos, como a obrigatoriedade do serviço militar para integrantes de comunidades de judeus ortodoxos. O tema tem gerado divisões históricas na sociedade local, mas adquiriu urgência redobrada devido à série de conflitos recentes em que o país se viu inserido, exigindo um esforço prolongado de mobilização das forças de defesa.
As reações militares comandadas por Netanyahu após os ataques do Hamas resultaram em uma ampla operação militar na Faixa de Gaza. A ofensiva gerou impactos humanitários severos, com dezenas de milhares de mortes e o deslocamento massivo da população local, conforme dados reportados por agências internacionais. A repercussão do conflito estendeu-se para frentes no Líbano, no Iêmen e no Irã, atraindo forte escrutínio diplomático e acusações que o governo israelense rejeita veementemente.
Esse panorama turbulento abriu caminho para a consolidação de Gadi Eisenkot como alternativa política viável. Reconhecido por sua trajetória militar à frente do Exército entre 2015 e 2019, o ex-general fundou recentemente a legenda Yashar e capitalizou o descontentamento de setores do eleitorado.
Processo de apuração manual
Com o encerramento da votação, as autoridades eleitorais iniciaram o minucioso processo de contagem dos votos, que adota predominantemente métodos manuais. Em cada uma das mais de 12 mil seções eleitorais espalhadas pelo território nacional, representantes partidários realizam a conferência das cédulas sob a supervisão direta de fiscais equipados com câmeras corporais.
Posteriormente, o material contado é transportado para centrais regionais encarregadas do registro eletrônico dos dados consolidados. Devido à complexidade e às exigências de segurança do sistema, a divulgação dos resultados oficiais definitivos deve se estender por vários dias, com expectativa de conclusão apenas na parte final da semana.
Fonte:: estadao.com.br


