Gadi Eisenkot adota uma comunicação que destoa do padrão tradicional da política. Em vez de discursos inflamados, ele expõe suas diretrizes de maneira direta, assemelhando-se a um comandante militar instruindo sua tropa sobre uma operação. Essa abordagem sóbria e pragmática foca menos na sedução do eleitorado e mais na exposição do que ele avalia como óbvio.
Aos 66 anos, o ex-chefe militar e principal adversário do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu nas urnas sustenta que sua postura reflete sua trajetória, sua concepção de liderança e a gravidade da crise institucional vivida por Israel. Esse comportamento também é moldado pela perda pessoal que enfrentou: seu filho foi morto dois meses após o início do conflito em Gaza, uma tragédia marcada publicamente quando ele discursou em sua homenagem na televisão nacional.
Eisenkot declara publicamente que sua candidatura tem o propósito de resgatar o país. No seu diagnóstico, a gestão de Netanyahu conduziu Israel a confrontos sem perspectiva de encerramento, desgastou a imagem internacional do Estado e enfraqueceu o apoio estratégico dos Estados Unidos. O candidato aponta que o atual premiê estimulou tendências autoritárias, polarizou a sociedade, negligenciou o avanço de extremistas na Cisjordânia e falhou em conter o crime organizado que afeta cidadãos árabes, além de aprofundar desigualdades no serviço militar.
Para o ex-general, o ponto mais crítico da administração atual é a recusa em assumir responsabilidades pelas falhas de segurança que culminaram nos atentados liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023. Enquanto Netanyahu tenta capitalizar episódios fortuitos de destaque, Eisenkot defende que líderes devem atribuir os méritos aos subordinados quando os resultados são positivos e assumir a culpa pessoalmente quando os planos falham. Por essa razão, ele rotula o atual premiê como um “anti-líder”.
Perfil e divergências políticas
A trajetória pessoal de Eisenkot difere amplamente da de Netanyahu. Nascido em Tiberíades e criado em Eilat, ele é filho de imigrantes marroquinos e representa a comunidade mizrahi, que compõe cerca de metade da população judaica israelense, mas historicamente ocupou espaços periféricos na política nacional.
As divergências também se refletem na governança. Críticos da gestão anterior apontam que o primeiro-ministro costumava adiar resoluções estruturais em prol de ganhos imediatos de imagem, ao passo que Eisenkot prioriza o planejamento estratégico de longo prazo, ainda que isso lhe custe popularidade.
O luto pessoal continua a ser um dos principais motores de sua campanha. A morte de seu filho caçula, Gal, em dezembro de 2023, seguida pelo falecimento de dois sobrinhos no contexto da guerra, impulsionou seu compromisso político. Ele frequentemente afirma o desejo de ser digno do sacrifício familiar e de construir um cenário mais seguro para as próximas gerações.
Visão pragmática de segurança
Durante sua carreira nas Forças Armadas, Eisenkot acumulou fama de rigoroso com a disciplina. Na virada dos anos 2000, atuou na Cisjordânia durante o auge da Segunda Intifada, combinando operações de inteligência, cooperação com autoridades palestinas e a contenção de atentados. Embora se opusesse a medidas de punição coletiva e defendesse a abertura de perspectivas políticas para os palestinos, ele também consolidou doutrinas militares duras contra grupos hostis, a exemplo do Hezbollah no Líbano.
Em momentos cruciais de sua carreira militar, recusou cargos superiores para beneficiar colegas que considerava mais preparados, um gesto de desprendimento elogiado por figuras políticas de diferentes matizes. Quando assumiu o comando máximo do exército em 2015, manteve a rigidez institucional ao insistir no processamento de um militar que atirara em um agressor incapacitado, resistindo à forte pressão da opinião pública da época.
Ruptura e transição para a política
A experiência de Eisenkot no atual governo foi efêmera. Ele integrou o gabinete de emergência nacional após os eventos de outubro de 2023, mas permaneceu no posto por apenas oito meses. O rompimento ocorreu devido a divergências fundamentais com a insistência de Netanyahu em buscar uma “vitória total” em detrimento de acordos diplomáticos para a libertação de reféns.
Após renunciar em meados de 2024, ele fundou o partido Yashar. Sua plataforma eleitoral inclui a criação de uma comissão estatal para investigar as falhas de segurança de 2023, a desmobilização de postos avançados ilegais na Cisjordânia, a retomada de canais com a Autoridade Palestina e reformas estruturais internas, como a imposição de limites de mandatos para chefes de governo e a formulação de uma constituição inédita para o país.
Apesar de suas propostas estruturadas, o estilo discreto de campanha gera debates entre eleitores e analistas. Enquanto alguns simpatizantes enxergam nele a seriedade e a probidade necessárias para o momento político, outros questionam se sua postura comedida será suficiente para enfrentar a habilidade tática de um adversário consolidado como Netanyahu.
Fonte:: estadao.com.br


