O que parecia ser um alívio na crise dos fertilizantes, com o Irã anunciando a abertura do Estreito de Ormuz para navios comerciais, rapidamente se transformou em uma nova preocupação. As tensões aumentaram com a negativa do regime iraniano em negociar e a apreensão de um navio por parte da Marinha dos Estados Unidos, comprometendo, novamente, a navegação na região.
Ainda que o bloqueio fosse levantado, os efeitos da instabilidade no Oriente Médio já afetaram o mercado global de fertilizantes. A recuperação da oferta e a estabilização dos preços enfrentam barreiras logísticas e estruturais significativas, e essa defasagem impactará diretamente a inflação de alimentos para os consumidores brasileiros.
A região do Oriente Médio é responsável por cerca de 20% do fertilizante comercializado no mundo, enquanto o Brasil importa aproximadamente 85% do adubo que consome, o que torna o agronegócio brasileiro vulnerável às tensões geopolíticas.
Além disso, a exploração da guerra no Irã levanta a questão sobre como a volatilidade nos preços dos insumos pode afetar a nossa alimentação no dia a dia.
Desafios na Retomada da Logística de Fertilizantes
Mesmo com a possível reabertura do Estreito de Ormuz, a normalização do comércio exterior não acontece na mesma rapidez dos anúncios políticos. A reabertura do abastecimento global depende de cadeias logísticas intricadas.
Marcello Brito, especialista em agronegócio e diretor acadêmico do FDC Agroambiental, destaca que os armadores provavelmente não liberarão os navios que estão bloqueados antes de terem certeza de que não há riscos. Além disso, a remoção de embarcações já carregadas na área conflitante e a espera para carregar novos navios são fatores que levarão tempo. “Não estamos falando sobre compras online que chegam no dia seguinte. O produtor em Roraima tem que realizar o pedido, o navio precisa sair do Oriente Médio e depois os produtos devem chegar a Santos ou Paranaguá. É um processo logístico que pode levar meses”, salienta Brito.
Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, complementa que, embora Brasil tenha capacidade de diversificar fornecedores, como feito no início da guerra na Ucrânia, isso não resolve o problema imediato da oferta. “A possibilidade de substituir fornecedores existe, mas é um desafio no curto prazo. O mercado global de fertilizantes funciona por meio de cadeias logísticas complexas, tornando a realocação de compras um processo demorado”, avalia.
O Papel do Oriente Médio na Importação de Fertilizantes pelo Brasil
A importância do Oriente Médio no fornecimento global de fertilizantes, especialmente nitrogenados como a ureia, está relacionada à abundância e ao custo acessível de sua principal matéria-prima: o gás natural.
As moléculas de gás natural são quebradas em reações industriais para extrair hidrogênio, que então é combinado sob alta pressão com nitrogênio do ar atmosférico, resultando na síntese da amônia, matéria-prima da ureia sólida. As enormes reservas de gás natural na região permitem uma produção em larga escala e de baixo custo.
Consequências da Destruição da Infraestrutura
Além das barreiras logísticas, a destruição de fábricas por bombardeios representa um grande desafio. Felippe Serigati, coordenador do Mestrado Profissional em Agronegócio do FGVAgro, destaca que a reabertura do estreito não resultará em preços semelhantes aos de fevereiro, devido aos danos causados pela guerra. “As instalações de produção de petróleo, gás e distribuição estão danificadas ou destruídas”, afirma.
O impacto é acentuado por prejuízos na maior jazida de gás natural do mundo no Golfo Pérsico, que é dividida entre Irã e Catar. “A reconstrução desses locais pode levar de 3 a 5 anos”, indica Serigati, reforçando que a normalização da situação não voltará rapidamente ao que era antes.
Bruno Fonseca, analista de Fertilizantes e Insumos no Rabobank Brasil, explica que o preço do gás natural afeta diretamente o custo de produção da ureia, impactando também a indústria agrícola brasileira.
Protecionismo e Efeitos no Poder de Compra
O receio de desabastecimento já está levando a políticas protecionistas em diversas nações produtoras. Brito observa que a China, já antecipando uma possível escassez, interditou a exportação de certos fertilizantes. “Outros países estão tomando medidas similares para garantir o fornecimento local antes da exportação”, conclui.
Os produtores rurais brasileiros já sentem os reflexos no bolso, mesmo antes do início da plantação. O Rabobank mede esse impacto através do Índice de Poder de Compra, que sofreu queda severa, com as cotações das commodities agrícolas não acompanhando as altos custos dos insumos. “O produtor de milho, que é fortemente dependente da ureia e do fósforo, percebeu uma redução substancial em seu poder de compra”, explica Fonseca.
A safra agrícola do hemisfério norte, que encerrou o inverno e está prestes a plantar, e a safra de verão brasileira, que será implantada no final do inverno e início da primavera, também estão sujeitas a influências externas, refletindo no mercado interno de alimentos.
Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes no Brasil
O Brasil se revela extremamente dependente, importando 96% de seus fertilizantes potássicos e 80% dos nitrogenados. Em resposta, o governo federal tem se mobilizado. Em uma entrevista ao jornal alemão Der Spiegel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil busca reconstruir sua própria indústria de fertilizantes para reduzir a dependência externa.
Entretanto, os dados mais recentes revelam um cenário desafiador, com uma queda de 17,25% nas exportações brasileiras de adubos e fertilizantes químicos no trimestre encerrado em março de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior.
Considerando a lenta recuperação da infraestrutura global de gás natural e o tempo necessário para adaptar as rotas marítimas, a expectativa é que o aumento dos custos dos insumos na atual safra impacte diretamente nos preços dos alimentos disponíveis nos supermercados, refletindo assim a profundidade da crise dos fertilizantes.
Fonte:: infomoney.com.br


