No início da década de 1990, um grupo de artistas insatisfeitos com a estagnação cultural em Pernambuco redigiu o manifesto “Caranguejos com Cérebro”. Com isso, surgiu oficialmente o movimento manguebeat, que uniu ritmos como maracatu, reggae e hip hop à tecnologia.
Em meio a esse contexto cultural, um grupo de professores do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (CIn-UFPE) decidiu criar um centro de inovação tecnológica visando reter talentos e profissionais de diferentes áreas. Assim, em 1996, foi fundado o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR), que se tornaria a base do Porto Digital, um dos principais polos de inovação tecnológica do Brasil, concentrando cerca de 500 empresas no centro histórico do Recife.
Silvio Meira, um dos fundadores do CESAR, acaba de retornar ao Conselho de Administração da instituição, 30 anos após sua criação. Durante as celebrações do aniversário do CESAR, Meira enfatizou a importância de revisitar as origens diante da ascensão da inteligência artificial (IA). “Com a inteligência artificial, uma invenção que tem poucos precedentes na história, como os tipos móveis de Gutenberg em 1450, o CESAR precisa voltar às suas raízes”, afirmou ele.
Em uma entrevista à Agência Brasil, ele discorreu sobre os avanços da IA e como isso afeta o papel das pessoas nessa transição tecnológica.
Desafios da inteligência artificial
Agência Brasil: Você costuma dizer que a inteligência artificial representa o novo grande desafio da humanidade. Poderia explicar o porquê?
Silvio Meira: A inteligência artificial impacta diretamente as capacidades cognitivas e repetitivas dos seres humanos. Temos três tipos de inteligência: a informacional, que diz respeito à nossa habilidade de captar, processar e utilizar informações para tomar decisões; a social, que envolve nossa capacidade de interagir com outros para resolver problemas; e a autônoma, que é o nosso poder de decisão individual.
A IA simula a inteligência informacional humana. As tarefas que são cognitivas e repetitivas podem ser executadas pela IA de maneira mais eficiente e a um custo muito menor. Este é um dos grandes desafios que enfrentarmos.
Exemplos do cotidiano e da automação
Agência Brasil: Você poderia dar um exemplo prático disso?
Meira: Imagine um clínico geral que, ao consultar um paciente, solicita uma série de exames sem sequer olhar para ele. Isso se assemelha a uma IA; o médico cumpre funções que poderiam ser realizadas por um sistema automatizado. Já as inteligências artificiais estão aptas, por exemplo, a escrever códigos computacionais, o que é consideravelmente complexo para a maioria das pessoas não treinadas. Essas Inteligências conseguem criar 95% do código que um ser humano escreveria, com um nível de qualidade igual ou superior.
O papel humano na era da IA
Agência Brasil: E qual o espaço para os humanos nesse novo cenário?
Meira: O papel do humano se torna o de decidir se um código deve ser escrito, qual código escrever e como fazê-lo. A pessoa deve ainda validar se o código funciona corretamente e se possui problemas de segurança. Meu trabalho ficou mais complexo, pois antes eu apenas escrevia, agora entrego essa tarefa a uma máquina e preciso validar seu resultado.
A confiança nas máquinas
Agência Brasil: Se a IA é tão eficiente, por que é necessário validar seu trabalho?
Meira: Não se pode simplesmente confiar na máquina, pois ela opera de maneira probabilística e pode apresentar erros. Por exemplo, se a IA tem 50 maneiras distintas de escrever um código e três delas estão erradas, a máquina pode, por acidente, escolher uma dessas opções inváidas. Embora o código pareça funcionar inicialmente, ele pode estar comprometido em sua funcionalidade.
Discussões em andamento
Agência Brasil: Temos realizado as discussões necessárias sobre o impacto da IA?
Meira: Essa é uma conversa diária em instituições como o CESAR, CIn-UFPE e nas empresas do Porto Digital. Em 2018, organizamos o primeiro evento sobre o impacto da IA nos negócios de tecnologia, mostrando que essa discussão é antiga e relevante.
Agência Brasil: E como a IA está sendo aplicada nas empresas do Porto Digital?
Meira: Aqui, é simplesmente proibido trabalhar sozinho. Toda atividade repetitiva deve ser acompanhada de um agente inteligente que foi desenvolvido para ajudar. Isso abrange áreas como recursos humanos, atendimento e marketing. A inspiração não é apenas incentivada, mas realmente exigida.
A relação entre IA e o futuro do trabalho
Agência Brasil: Com a IA resolvendo tantos problemas, as pessoas correm o risco de perder seus empregos?
Meira: Precisamos desaprender práticas antigas. Não podemos continuar a fazer as mesmas coisas numa era de mudanças. Imagine estar em 1898, quando a indústria automotiva estava começando a surgir enquanto ainda predominavam as carroças. A mudança é inevitável, e empresas que não se adaptarem à nova realidade da IA estarão em desvantagem competitiva.
Agência Brasil: Isso não levará à extinção de postos de trabalho?
Meira: A inteligência artificial é uma imitação das nossas capacidades. Embora ela esteja impactando a maioria dos empregos repetitivos, pode também servir para aumentar a eficiência das pessoas e permitir que elas se concentrem em problemas mais complexos. Não se trata apenas de substituição, mas de aumentar a capacidade do ser humano de resolver problemas.
Por fim, Silvio Meira aborda a importância de regular o uso da IA em um contexto democrático, argumentando que a falta de regulação pode dificultar as práticas democráticas e o compromisso com a transparência nas plataformas digitais. O desafio está não apenas em implementar a tecnologia, mas também em garantir que seja utilizada de forma ética e responsável.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br




