À medida que os Estados Unidos se aproximam de mais um ciclo eleitoral, as atenções políticas do país voltam-se com força para a Geórgia. Foi naquele Estado que, na disputa presidencial de 2020, o republicano Donald Trump foi derrotado por uma margem estreita de apenas 11 mil votos, um episódio que gerou forte tensão institucional após o então presidente pressionar funcionários locais para tentar reverter o resultado nas urnas. Anos depois, o cenário continua sensível, com o ex-mandatário mantendo críticas ao sistema de votação e prometendo atenção rigorosa ao território georgiano.
No sistema político norte-americano, a administração das eleições ocorre de forma descentralizada, sob a responsabilidade de autoridades estaduais conhecidas como secretários de Estado. Um dos nomes mais proeminentes nessa função é o republicano Brad Raffensperger, que ganhou projeção nacional justamente por resistir às ligações de Trump em 2020, nas quais era instado a encontrar votos que superassem a marca do democrata Joe Biden. A recusa em ceder às pressões transformou Raffensperger em alvo de ataques de alas mais radicais de seu próprio partido, mas ele defende veementemente a segurança do processo adotado em seu Estado.
Em entrevistas recentes, o secretário destacou que a Geórgia implementou barreiras rígidas, como a exigência obrigatória de documento de identificação com foto, checagem rigorosa de cidadania e o uso predominante de cédulas de papel auditáveis. “Nossa eleição é a mais segura dos Estados Unidos”, afirmou, classificando as acusações de irregularidades como infundadas.
Analistas políticos apontam que a Geórgia ocupa uma posição singular de atrito com o grupo político de Trump. “De todos os Estados-pêndulo que ele perdeu em 2020, a Geórgia é o que mais incomoda Trump”, avalia Charles Bullock, professor de ciência política da Universidade da Georgia. “Ele pode tentar alguma coisa, mas os oficiais da Geórgia estão prontos para responder aos questionamentos.”

Preparativos e resistências locais
A trajetória política de Raffensperger sofreu impactos diretos de seu posicionamento firme. Embora tenha vencido a reeleição para o cargo de secretário de Estado em 2022 apesar da oposição explícita de Trump, ele enfrentou dificuldades nas primárias republicanas subsequentes para o governo estadual, ficando atrás de nomes apoiados pelo ex-presidente. Contudo, ele enfatiza que sua prioridade permanece sendo a integridade do processo.
Para blindar o pleito contra contestações, a gestão estadual planeja realizar dezenas de auditorias estatísticas e checagens de limitação de risco. Ainda assim, aliados de Trump no Conselho Eleitoral da Geórgia continuam pressionando por mudanças na contabilização de votos e maior escrutínio sobre as urnas eletrônicas, gerando novos pontos de conflito.
O cenário nacional e a apreensão em outros estados
A preocupação com possíveis interferências não se restringe à Geórgia. Estados tradicionalmente conservadores, mas que apresentam maior competitividade eleitoral, como Ohio, Alasca e Kansas, também adotaram medidas preventivas, reunindo equipes jurídicas e orientando mesários sobre como lidar com eventual presença de agentes federais ou tentativas de desestabilização institucional.
Críticos apontam que o governo federal tem tentado ampliar sua influência sobre regras tradicionalmente estaduais, como nas tentativas de acessar bancos de dados de eleitores e modificar diretrizes para o voto por correio. No Alasca, o Departamento de Justiça chegou a intervir em disputas locais, gerando reações contrárias de autoridades regionais que defendem a autonomia das secretarias eleitorais.

Em Ohio, figuras políticas da oposição criticaram a abertura de dados estaduais para órgãos federais, argumentando que a medida enfraquece os mecanismos locais de proteção contra a desinformação. Especialistas em direito constitucional alertam que, caso as margens de votação sejam apertadas, novos episódios de contestação judicial e tentativas de deslegitimar vitórias de opositores devem se repetir nos tribunais do país.
Fonte:: estadao.com.br


