O tradicional Festival de Brasília do Cinema Brasileiro enfrentou momentos de profunda incerteza recentemente, mobilizando o setor audiovisual em todo o país. Diretores do evento receberam a informação inicial por parte de representantes do governo do Distrito Federal de que a 59ª edição, programada para ocorrer entre os dias 11 e 19 de setembro, não seria realizada. A notícia causou forte impacto imediato entre cineastas, produtores e profissionais da cultura.

Apesar do aviso inicial de cancelamento, a governadora do DF, Celina Leão, utilizou suas redes sociais ainda durante a noite daquela segunda-feira para determinar que a Secretaria de Economia providenciasse os recursos financeiros necessários para a realização do evento. Segundo a chefe do executivo local, a continuidade da programação está garantida.
A edição deste ano registrou números expressivos, alcançando um recorde histórico de inscrições com 1.928 obras disputando espaço na grade. Mais de 80 produções já estão confirmadas, mobilizando centenas de trabalhadores do setor de cinema de todas as regiões do Brasil.
Antes da reviravolta sobre os recursos, o diretor artístico do festival, Eduardo Valente, utilizou as redes sociais para lamentar a possibilidade de suspensão e convocou o setor cinematográfico para uma mobilização coletiva em defesa do evento.
“O que teremos para amanhã e depois? Difícil dizer, mas, seguramente, nem essa edição nem o futuro deste evento será determinado só por quem estava aqui lutando para organizá-lo. Teremos que ver o quanto as associações em geral, o setor do cinema, o público do DF e até, por que não, outros festivais de cinema do país estarão dispostos a se juntar nessa briga”, declarou Valente em sua postagem.
A Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal foi procurada para prestar esclarecimentos sobre o caso, mas optou por não se manifestar a respeito do assunto durante o período de instabilidade.
Tristeza e revolta no setor audiovisual
O episódio gerou reações severas de entidades representativas. Tiago de Aragão, diretor na região Centro-Oeste da Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro (API), relacionou o risco de cancelamento ao cenário de crise administrativa no governo local, agravado após o escândalo financeiro envolvendo títulos do Banco Master adquiridos pelo Banco de Brasília (BRB).
“São dezenas de profissionais empregados que já estavam trabalhando sem receber; são produtoras e cineastas de todo o país que reservaram o lançamento dos seus filmes para Brasília. A imagem que fica é de um GDF que pode não honrar seus compromissos para sanar um rombo causado em uma história espúria que envolveu o BRB com o Banco Master e Vorcaro”, pontuou Aragão.
Para Tatiana Costa, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), a situação no Distrito Federal carrega um peso que ultrapassa as fronteiras locais e pode representar um precedente perigoso para o circuito cultural brasileiro.
“Só durante a ditadura que o Festival de Brasília não foi realizado. E o que isso significa simbolicamente? Para além das decisões financeiras, é uma decisão política do GDF. Isso nos preocupa imensamente, porque não ameaça apenas o festival de Brasília, e sim todos os festivais de cinema do Brasil”, avaliou.
A cineasta brasiliense Carina Bini, que no ano passado apresentou seu filme Mil Luas no palco do Cine Brasília acompanhada de todo o elenco, também manifestou preocupação com o impacto que a paralisação causaria à economia criativa e à cultura local.
“O Festival de Brasília movimenta todo um mercado de trabalho, uma cadeia produtiva do audiovisual, traz pessoas para a cidade, ele é um evento que gera emprego, gera recurso para o Distrito Federal e é importante historicamente para o cinema brasileiro”, destacou a diretora.
Um marco histórico para o cinema nacional
O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro ostenta o título de mais longevo do país, alcançando em 2026 a marca de 59 edições. A mostra competitiva oficial está agendada para ocorrer entre os dias 11 e 19 de setembro no tradicional Cine Brasília.
Fundado em 1965, o evento consolidou-se ao longo das décadas como um dos principais palcos de debate e exibição da cinematografia nacional. Desde 2007, é reconhecido oficialmente como patrimônio imaterial do Distrito Federal. Historicamente, o festival só deixou de ser realizado em duas ocasiões, ambas durante o período da ditadura militar, além de ter adotado o formato totalmente virtual durante o período mais crítico da pandemia de Covid-19.
Como diferencial em relação a outros encontros cinematográficos do circuito nacional, as obras selecionadas para a competição oficial precisam ser inéditas. Os vencedores de cada categoria são premiados com o Troféu Candango, uma homenagem simbólica aos pioneiros responsáveis pela construção da capital federal.
Fonte:: agenciabrasil.ebc.com.br





