Enquanto o avanço acelerado dos robôs humanoides chama a atenção globalmente, uma economia paralisa e floresce nos bastidores tecnológicos da China: a comercialização de dados voltados para o treinamento de inteligências artificiais. O fenômeno dá origem a uma ocupação inusitada, onde cidadãos comuns atuam vendendo informações sobre suas próprias rotinas físicas para alimentar os sistemas robóticos.
O cenário é marcado por um contraste evidente. Ao mesmo tempo em que a evolução desses modelos tecnológicos gera debates e preocupações legítimas sobre o futuro do mercado de trabalho e o risco de substituição de humanos por máquinas, a própria indústria da inteligência artificial fomenta o surgimento de novas frentes de trabalho até então inexistentes.
Atualmente, milhares de cidadãos já encontram sustento atuando como operadores de coleta e repasse de informações para empresas especializadas. Esses negócios armazenam o material capturado e o revendem para as companhias responsáveis pelo desenvolvimento de robôs. O foco principal dessas operações são os chamados “dados físicos”, que englobam tarefas corriqueiras do dia a dia, a exemplo de lavar louça, varrer cômodos, organizar brinquedos espalhados pelo chão e dobrar peças de vestuário.
Para viabilizar o processo, os trabalhadores utilizam aparatos tecnológicos específicos capazes de registrar minúcias anatômicas e cinéticas. Isso inclui desde a força exercida pelos dedos ao segurar um prato até a forma como diferentes tipos de tecido reagem ao serem manipulados. O objetivo central dessa coleta massiva é municiar as futuras gerações de robôs com repertórios do mundo real, permitindo que executem atividades delicadas e possam atuar, futuramente, como assistentes domésticos ou companheiros para o dia a dia.
No território chinês, a atividade já representa a principal fonte de subsistência para diversos trabalhadores. A remuneração pode alcançar a marca de 200 yuans por dia de atividades, correspondentes a uma jornada de oito horas dedicadas ao monitoramento e execução de tarefas guiadas. Grande parte desses profissionais atua diretamente de suas residências, utilizando kits tecnológicos enviados pelas empresas intermediárias.
Assista (1min58s):
Um dos expoentes desse mercado é a Datatang, fundada em 2010 e consolidada como uma das principais fornecedoras de infraestrutura de dados para o setor de inteligência artificial. A companhia disponibiliza uma plataforma digital em formato de aplicativo onde lista oportunidades para captação de informações, abrangendo desde ações físicas cotidianas até gravações de voz em múltiplos idiomas.
Embora a dinâmica de treinar IAs não seja inteiramente inédita — visto que empresas de tradução automática utilizam mão de obra humana há mais de uma década —, a complexidade exigida atualmente elevou o patamar tecnológico da atividade.
Nesse contexto, companhias especializadas na fabricação de hardware de captura ganham protagonismo. Um exemplo é a Xvisio Technology, que firmou uma aliança estratégica para fornecer dispositivos de monitoramento para a Datatang.
Representantes da fabricante de hardware destacam que os dados se tornaram ativos comerciais valiosos, cujos preços flutuam conforme a lei da oferta e da procura. Caso o mercado registre excesso de registros sobre uma atividade específica, como o ato de dobrar roupas, a remuneração paga por aquele lote tende a sofrer retração.
Para viabilizar a coleta, a Xvisio desenvolveu kits compostos por câmeras acopladas aos pulsos, luvas altamente sensíveis e sensores distribuídos pelas articulações corporais, permitindo mapear e traduzir com precisão a biomecânica humana para os sistemas autônomos.
Equipamentos desenvolvidos para a captação de movimentos e dados físicos humanos.
Fonte:: poder360.com.br





