Há um tipo de anestesia que não dói. Ela não avisa, não pede licença, não vem com sintoma. Ela apenas se instala, devagar, enquanto a vida segue seu curso e o país aprende, um dia depois do outro, a achar normal aquilo que há pouco tempo seria escandaloso.
É esse o fio que percorre mais um primoroso texto de Fernando Schüler, publicado no Estadão em 4 de julho, sob um título que é, em si, um exercício fino de ironia: “É bom observar, vez ou outra, o espanto de um estrangeiro com o que ocorre no Brasil e no STF.”
Schüler é, hoje, sem exagero, a voz mais respeitada, mais equilibrada e, ao mesmo tempo, mais corajosa na defesa da liberdade de expressão no Brasil.
Cientista político de formação, tem o raro predicado de unir elegância e assertividade: nunca eleva o tom, mas jamais poupa quem precisa ser cobrado.
O texto parte de um comentário do jornalista americano Glenn Greenwald, editor do site de jornalismo investigativo The Intercept — homem que não poupa direita nem esquerda e que, por isso mesmo, incomoda tanto quanto é respeitado.
Greenwald reagiu às revelações dos diálogos da mulher do ministro Alexandre de Moraes diretamente no WhatsApp do banqueiro falido Daniel Vorcaro, tratando do contrato de R$ 129 milhões. “É estarrecedor, mas também revelador”, escreveu, “que o ministro continue no STF, julgando e prendendo pessoas como se nada tivesse acontecido”.
Diz não conhecer, mundo afora, escândalo judicial pior na última década — e, mesmo assim, o ministro segue impassível, com o mesmo imenso poder sobre o país.
Schüler observa, com precisão cirúrgica, que Greenwald só pode falar com essa liberdade porque é americano — porque carrega nas costas 235 anos de um Bill of Rights que garante a qualquer cidadão o direito de dizer o que pensa sobre quem está no poder.
É essa tradição, e não o cargo ou o currículo, que autoriza a crítica sem medo.
E é aqui que o texto revela sua espinha dorsal. Greenwald acha que o ministro não deveria mais estar no STF. Mas há uma pergunta anterior, muito mais simples: alguma coisa será investigada? Alguma iniciativa da PGR? Alguma ação no Congresso? A resposta, sugere Schüler, já foi dada.
Nos tornamos, por muitas razões, um estranho tipo de república, feita de um núcleo de poder inimputável, fora do sistema de controles republicanos — a ponto de a própria sugestão de que algo possa ser suspeito se converter em ofensa.
Pensem bem nisso. Não é o escândalo que fere o sistema. É a insinuação de que ele deveria ser investigado.
O texto não se limita ao caso Vorcaro.
Schüller amplia o quadro para o que chama de tema central do Brasil recente: o desrespeito continuado à regra do jogo, a longa cauda de flexibilizações legais dos últimos anos. Cita o caso Eduardo Tagliaferro — um cidadão comum cujo destino deveria constranger o país, mas que virou apenas mais um episódio em que o denunciante se transforma em réu, e o país escolhe o silêncio em vez do escrutínio.
Lembra que a colunista Malu Gaspar já escreveu mais de 240 matérias sobre o caso, com fatos, prints, contatos, valores fora de qualquer parâmetro de mercado — e que, ainda assim, dificilmente alguma investigação chegará ao núcleo do poder.
A conclusão é amarga: se você é jornalista independente, ou não tem bom pedigree, é melhor tomar cuidado.
Ele vai além e aponta o próprio comportamento da “mídia profissional” brasileira, que só ligou o modo indignação depois do estouro do caso Master — e que hoje denuncia o mesmo absurdo que, até pouco tempo, silenciava solenemente.
Para Schüler, isso não é acidente. É parte do mesmo mecanismo que ele descreve com a metáfora do sapo na panela: a água esquentando devagar, o bicho relaxando, até ser cozido sem perceber.
Esse mecanismo teve, segundo ele, dois ingredientes.
O primeiro foi o apoio de boa parte da sociedade, que por anos aplaudiu de fio a pavio o que Schüler chama de nosso “estado de exceção tropical” — em nome de “salvar a democracia”. O segundo foi o próprio poder de fato: um núcleo que parece acreditar, com razão, que flutua acima dos constrangimentos da república, porque muita gente boa aceitou a premissa de que o que vale no Brasil não é a lei ou a Constituição, mas o que um conjunto de autoridades diz que é a lei e a Constituição.
Não se pode praticar censura prévia — mas pode. Deve-se respeitar a instância devida — ou não, a depender de quem está do outro lado.
Os exemplos se acumulam. Um brasileiro comum, sem foro privilegiado, prestes a virar réu no STF por ter dito impropérios a um ministro em Coimbra, há dois anos — com o relator do processo sendo, ao mesmo tempo, vítima e juiz.
Ninguém se importa, sejamos sinceros. E não se importa porque o medo já cumpriu sua função: se um jornalista foi banido, por que não aconteceria com outros? Se um dirigente sindical — no caso, Cleber Cabral, da Unafisco — terminou na Polícia Federal depois de uma crítica, por que os demais dirigentes associativos agiriam diferente? Se um deputado responde a processo por discurso da tribuna, como deveriam se comportar os outros parlamentares?
“É por estas razões que fomos deslizando”, escreve Schüler, na frase que talvez resuma o país dos últimos anos. “Aceitamos que se criasse uma lógica de exceção no País, que agora anda por conta própria.”
Não é mais um desvio pontual, corrigível por uma decisão isolada. É um sistema que aprendeu a se sustentar sozinho, que não precisa mais de autorização explícita para avançar — porque já avança por inércia própria.
O texto se encerra com uma invocação a Bertrand de Jouvenel: o poder é como um organismo; uma vez posto em movimento, não recua.
Daí a obsessão moderna com limites, com pesos e contrapesos — tudo aquilo que o Brasil recente foi deixando esvanecer.
E é por isso, conclui Schüler — devolvendo o texto ao próprio título — que vale a pena observar, vez ou outra, o espanto de um estrangeiro.
Quem olha de fora não carrega o hábito de quem foi se acostumando aos poucos. Basta lembrar como a justiça italiana e espanhola vêm negando extradições ao Brasil por razões que deveriam nos fazer pensar.
O olhar de fora tem essa vantagem: ele não se anestesiou.
Enfim, mais uma crônica antológica de Fernando Schüler. Dessas para reler, repassar, repostar, endossar, emoldurar e pendurar na parede da sala.
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Fonte:: bemparana.com.br




