A trajetória nos tribunais esportivos antes das urnas
O cenário político paranaense registrou recentemente uma marca expressiva com a eleição do advogado curitibano Jeffrey Chiquini (Novo) ao cargo de deputado federal, alcançando uma votação histórica de mais de 424 mil votos no estado. No entanto, antes de consolidar sua transição definitiva para a vida pública institucional, o profissional construiu uma passagem bastante movimentada e cercada de controvérsias no meio esportivo, atuando diretamente nos bastidores e nos tribunais em episódios de grande repercussão envolvendo o Coritiba Foot Ball Club.
Entre os anos de 2023 e 2024, o nome do advogado esteve no centro de uma das maiores crises institucionais e desportivas do clube alviverde. O epicentro dessa movimentação foi o caso do atacante Alef Manga, que se viu profundamente envolvido nas investigações da Operação Penalidade Máxima. A investigação nacional desvendou um esquema de manipulação de resultados no futebol brasileiro comandado por apostadores, alcançando atletas que aceitavam cometer infrações em campo — como tomar cartões amaros propositadamente — em troca de vantagens financeiras ilícitas.
No caso específico do atleta do Coxa, a confissão veio após apurações detalhadas: Manga admitiu ter recebido a quantia de R$ 45 mil para ser punido com um cartão amarelo durante a partida contra o América-MG, válida pela 25ª rodada do Campeonato Brasileiro da Série A de 2022. Diante da gravidade da infração e das provas apresentadas, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) aplicou uma severa suspensão de 360 dias ao jogador, impedindo-o de exercer qualquer atividade profissional ligada ao esporte.
Conflitos internos, trocas de farpas e o desgaste na diretoria
A relação profissional entre Chiquini e o atacante passou por diversas reviravoltas. Inicialmente integrando a equipe de defesa do atleta logo após a deflagração da denúncia, o advogado optou por abandonar o caso meses depois, justificando a decisão por meio de motivos de foro íntimo e escusa de consciência. Com a punição em vigor no cenário nacional, o Coritiba, sob a gestão executiva de Carlos Amodeo e do executivo de futebol Artur Moraes, buscou alternativas e acabou emprestando o jogador ao Pafos, clube do Chipre. A situação ganhou contornos definitivos em outubro de 2023, quando a Federação Internacional de Futebol (Fifa) decidiu estender a punição de Manga para o âmbito mundial.
O cenário sofreu nova guinada em junho de 2024, quando Chiquini reassumiu a representação jurídica do atacante. A partir desse momento, a atuação do advogado extrapolou os limites jurídicos tradicionais e passou a ocupar o centro do debate político e das redes sociais. Em uma postagem contundente, ele direcionou ataques públicos ao diretor executivo de futebol do clube, William Thomas, acusando-o publicamente de boicotar o retorno do atleta e de tentar negociá-lo no mercado às escondidas da torcida.

Na mesma manifestação, o advogado adotou um discurso inflamado, posicionando-se como porta-voz da torcida coxa-branca e declarando não possuir vínculos de subordinação com a cúpula administrativa da instituição. A reação da diretoria não tardou a chegar. Através de um pronunciamento em vídeo, o experiente diretor técnico Paulo Autuori refutou severamente as declarações de Chiquini, enfatizando que as portas do clube permaneciam hermeticamente fechadas para o retorno do centroavante e saindo em defesa da integridade profissional de William Thomas.
O risco de rebaixamento e a separação definitiva
A queda de braço nos bastidores gerou uma divisão profunda na cúpula administrativa do Coritiba. Enquanto o então CEO Carlos Amodeo demonstrava abertura para reintegrar o atleta, o departamento jurídico recomendava extrema cautela, alinhando-se à posição adotada por Autuori e William Thomas. A pressão exercida pela defesa e por influenciadores digitais gerou um desgaste insustentável, culminando na saída de Amodeo do cargo de CEO e na posterior desligação de Paulo Autuori.
A nova gestão, encabeçada por Gabriel Lima, optou por seguir estritamente as diretrizes de segurança jurídica propostas pelos advogados do clube. A prudência se mostrou vital para evitar uma catástrofe esportiva: um novo julgamento realizado pelo STJD no final de agosto de 2024 estabeleceu que Alef Manga só estaria apto a retornar aos gramados a partir do dia 26 de setembro. A entidade esportiva deixou claro que, caso o clube utilizasse o atleta antes dessa data, seria punido com a perda de três pontos por partida disputada — uma penalidade que, na prática, poderia comprometer a campanha da equipe e resultar em um descenso para a Série C do Campeonato Brasileiro.
Diante do desfecho desfavorável nos tribunais desportivos e da impossibilidade de reverter imediatamente o quadro de suspensão, a parceria profissional entre o jogador e o advogado chegou ao fim. Em 28 de agosto de 2024, o atacante utilizou suas redes sociais para anunciar publicamente o encerramento do vínculo, citando insatisfação com os rumos adotados na condução jurídica do caso. Chiquini respondeu formalmente por meio de uma nota com tom de despedida, destacando o cumprimento de seu ofício profissional e desejando sorte ao atleta, que acabou deixando o clube definitivo meses depois, ao término de seu contrato.
Atuação em defesa de torcida organizada
A presença do atual deputado federal no cotidiano jurídico ligado ao futebol paranaense não se restringiu exclusivamente ao litígio envolvendo o atacante. Meses antes do desfecho com o jogador, no início de fevereiro de 2024, o nome de Chiquini também esteve em evidência nos tribunais comuns do estado. Na ocasião, em resposta a uma ação civil ajuizada pelo Ministério Público do Paraná, a Justiça determinou o impedimento temporário de membros das torcidas organizadas Império Alviverde e Dragões Alviverdes de frequentarem as dependências do Estádio Couto Pereira durante as partidas.
Assumindo a representação legal da principal torcida organizada do clube, Chiquini atuou diretamente na formulação de recursos e medidas judiciais com o objetivo de reverter a decisão liminar imposta pelo poder judiciário estadual, buscando restabelecer o acesso dos torcedores aos jogos do Campeonato Paranaense. Toda essa bagagem de conflitos, exposições públicas e atuação em casos de grande apelo popular acabou servindo de vitrine para o profissional, que canalizou a notoriedade alcançada nos tribunais e nas redes sociais rumo a uma campanha eleitoral bem-sucedida para o parlamento federal.
Fonte:: umdoisesportes.com.br


