Renda recorde do brasileiro é comprometida por dívidas e juros, segundo estudo do CLP

Redação Rádio Plug
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Foto: (Foto: Kelly Sikkema/ Unsplash)

Recentemente, o mercado de trabalho no Brasil apresentou um aquecimento, visível pelo aumento das oportunidades de emprego e da renda média dos trabalhadores. No entanto, essa melhoria não está se traduzindo em alívio financeiro para a população. Um estudo realizado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), divulgado nesta última sexta-feira (8), revela que uma parte crescente da renda obtida pelas famílias está sendo consumida por dívidas, juros e parcelas. Isso coloca novamente o tema do endividamento familiar em destaque na política econômica do país.

De acordo com o documento, os dados mostram um panorama contrastante: no trimestre que terminou em janeiro de 2026, a renda média real alcançou um recorde de R$ 3.652, enquanto a massa de rendimento totalizou R$ 370,3 bilhões, o maior valor já registrado. Além disso, a população ocupada atingiu um número recorde de 102,7 milhões de pessoas.

No entanto, em contrapartida, informações do Banco Central (BC) indicam que, em fevereiro, a dívida das famílias alcançou 49,9% da renda, igualando o máximo histórico observado em julho de 2022. O comprometimento da renda também aumentou, passando de 29,5% para 29,7%, o que sugere que as famílias continuam gastando de maneira excessiva, já comprometendo quase um terço de seus ganhos com dívidas.

Para Daniel Duque, que atua como head de Inteligência Técnica do CLP e é um dos autores do estudo, a situação atual transforma um problema macroeconômico em um desafio político. “O trabalhador está empregado, mas endividado. O salário cresce, mas a parte destinada ao pagamento de dívidas também aumenta”, explicou. Essa realidade vai de encontro à narrativa governamental que sugere que a geração de empregos seria suficiente para restaurar a sensação de prosperidade entre a população.

Crédito consignado: mais dificuldades financeiras

Como parte das tentativas de aliviar a pressão das dívidas sobre os trabalhadores, o crédito consignado privado tem se destacado. Em março, esse tipo de crédito, impulsionado pelo novo modelo de Crédito do Trabalhador, viu as concessões para o setor privado aumentarem em 52% em comparação a fevereiro, saltando de R$ 7,146 bilhões para R$ 10,864 bilhões.

De acordo com Duque, a proposta do novo consignado é razoável em teoria, pois permitiria que as dívidas com juros mais altos fossem substituídas por outras com taxas mais baixas e desconto em folha, o que representa menor risco para os bancos. No entanto, o CLP alertou que o Banco Central já havia recomendado cautela com esse modelo após analisar o comportamento dos tomadores de crédito em 2022.

O relatório revelou que, em vez de simplesmente trocar dívidas, o consignado levou ao aumento total do endividamento, com um aumento médio de aproximadamente R$ 5 mil após a contratação. O comprometimento da renda antes da contratação era de 28%, saltando para 33% no mês seguinte e atingindo 38% após 11 meses.

Conforme enfatizado pelo CLP, a estratégia de trocar dívidas caras por outras ligeiramente menos onerosas, que o governo parece querer seguir com o programa Desenrola 2, não aborda a questão fundamental do endividamento.

Pressão dos juros e limites fiscais

O estudo do CLP também analisa um panorama mais amplo, apontando que a economia brasileira depende do crédito para sustentar um modelo de crescimento que já chegou aos seus limites. O governo atual incentivou o aumento da demanda com um crescimento real de 12,9% nas despesas primárias federais. Esse aumento nos gastos sustentou a renda, enquanto o crédito alimentou o consumo. No entanto, isso gerou uma pressão inflacionária significativa, resultando em juros elevados.

Em junho de 2025, o Banco Central aumentou a taxa Selic para 15% ao ano, mantida nesse patamar até março, quando foi reduzida para 14,75% e, atualmente, está em 14,5%. Consequentemente, a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas permanece em um nível elevado de 61,5% ao ano, contribuindo para o aumento da inadimplência familiar, que chegou a 5,3%, um aumento de 1,4 ponto percentual em um período de 12 meses.

Além disso, a análise fiscal também demonstra que as despesas públicas estão se aproximando de um limite insustentável. O CLP destaca projeções do Ipea de 2025, que estimam um aumento da dívida bruta do governo geral, que deve chegar a 79,6% do PIB ao final de 2025, 83,7% em 2026 e 87,0% em 2027, o que limita a capacidade do Estado de expandir os gastos.

Como alternativas, o estudo do CLP sugere o controle do crescimento das despesas públicas para ajudar a criar um ambiente favorável à redução dos juros e a contenção do impulso de crédito, que já está excessivamente comprometido. Além disso, o documento propõe medidas mais drásticas, como a venda de ativos públicos subutilizados para reduzir a dívida e abrir espaço para investimentos substanciais.

“O ciclo de gastos, crédito, consumo e emprego pode ter proporcionado um tempo extra, mas não garantiu a sustentabilidade. Agora, as consequências estão sendo cobradas”, conclui Daniel Duque.

Fonte:: infomoney.com.br

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