
A discussão sobre a modernização da administração pública brasileira ganhou força nesta terça-feira, 05 de agosto, com o início da 53ª edição do Seminário Nacional de TIC para a Gestão Pública (Secop). Realizado em Brasília e organizado pela Associação Brasileira de Entidades Estaduais e Públicas de Tecnologia da Informação e Comunicação (ABEP-TIC), o evento reuniu lideranças de tecnologia e gestão governamental de todo o país para debater os rumos da transformação digital.
Durante a cerimônia de abertura, especialistas e gestores públicos convergiram no entendimento de que o conceito de Estado Inteligente vai muito além da simples adoção de ferramentas tecnológicas. Trata-se, na visão dos participantes, de uma exigência administrativa fundamental para superar os desafios estruturais e as desigualdades inerentes a um país de dimensões continentais, tendo a cooperação federativa como principal alavanca.
José Muniz Rebouças, presidente da PRODEB/BA e presidente-executivo da ABEP-TIC, destacou o amadurecimento da pauta digital no setor público brasileiro. Em seu discurso, ele enfatizou que a inteligência artificial e a governança de dados deixaram de ser exclusividade dos departamentos técnicos para se tornarem eixos centrais de governo.
“É uma satisfação abrir a 53ª edição deste evento. É um espaço de soluções colaborativas para melhorar a vida do cidadão brasileiro”, afirmou Rebouças. Contudo, o dirigente também pontuou a necessidade de cautela e debate ético no uso de novas tecnologias. “A IA bem aplicada pode ampliar eficiência e apoiar políticas públicas mais precisas. Mas há perguntas que não podem ser ignoradas. Como identificar e reduzir vieses que possam reproduzir desigualdades? Em que situações a supervisão humana deve ser mantida?”, questionou, citando ainda a importância de índices de transformação digital para mensurar e estimular a troca de experiências entre estados.
Integração com reformas estruturais
A articulação entre inovação tecnológica e as grandes mudanças macroeconômicas do país foi abordada por Fabrício Marques Santos, secretário de Planejamento de Pernambuco e presidente do Conselho Nacional de Secretários do Planejamento (Conseplan). Segundo ele, a implementação prática de medidas complexas, como a reforma tributária, exigirá uma capacidade inédita de estruturação e cruzamento de dados.
“O que temos feito no Brasil não é desprezível, com avanços na melhoria do serviço público”, avaliou Santos. Para o secretário, os próximos anos trarão um dos maiores desafios de transformação federativa. “Temos a reforma tributária que será implementada na prática e vai demandar um conjunto amplo de inteligência de dados para redução das desigualdades. Sem capacidade de estruturar informações, a lei não será um vetor de redução de desigualdades”, argumentou, reforçando a urgência da capacitação técnica e da modernização administrativa.
Segurança cibernética e proteção ao cidadão
Outro ponto crítico levantado no evento foi a vulnerabilidade digital dos órgãos governamentais. Jean Francisco Bezerra Nunes, secretário de Segurança da Paraíba e presidente do Conselho Nacional de Secretários de Segurança Pública (Consesp), alertou que a proteção de dados tornou-se inseparável da segurança pública contemporânea.
“A segurança pública não é apenas cuidar da violência, que é o que está mais à vista. Na maioria das vezes os estados negligenciam a proteção de seus dados, os acessos a bancos de dados importantes”, declarou Nunes. O secretário enfatizou que fraudes cibernéticas instantâneas alimentam redes do crime organizado e causam prejuízos imensuráveis à população, tornando indispensável a integração tecnológica entre as secretarias de segurança e as empresas estaduais de processamento de dados.
Abordagem humanista e sustentabilidade financeira
Trazendo uma perspectiva voltada ao capital humano, Mauricélia Vidal Montenegro, secretária de Ciência e Tecnologia de Pernambuco e presidente do Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de CT&I (Consecti), defendeu que a inovação deve estar a serviço da sociedade. “Antes de falar de tudo isso, temos que falar de pessoas, do conhecimento e da capacidade de inovar para responder aos desafios da sociedade”, ressaltou, pontuando que as políticas públicas do futuro serão guiadas por evidências e personalização.
No entanto, o financiamento dessa infraestrutura tecnológica permanece como um obstáculo operacional. Samuel Nascimento, secretário de Administração do Piauí e presidente do Conselho Nacional de Secretários de Estado da Administração (Consad), apontou que os custos crescentes de manutenção e processamento em nuvem geram preocupações orçamentárias significativas para os governos estaduais.
“Para manter tudo isso, vamos precisar de muitos recursos e vamos nos sentir limitados, porque não será possível pagar pela solução. Isso causa angústia”, pontuou Nascimento, reforçando que a cooperação nacional é vital para contornar tais barreiras.
Encerrando as falas inaugurais, Luiz Fernando Záchia, presidente da Procergs/RS e da ABEP-TIC, apelou diretamente aos governantes para que destinem orçamentos adequados às empresas estaduais de processamento de dados (PRODs), assegurando que o avanço tecnológico ocorra de maneira equilibrada em todo o território nacional.
Fonte:: convergenciadigital.com.br




