Na última quinta-feira, 2, líderes políticos da Alemanha anunciaram um acordo esperado para estimular a economia do país, que enfrenta desafios. A estratégia adotada visa também melhorar o clima social e conter a ascensão dos partidos de extrema direita.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, junto a seus aliados de governo, revelou que o novo pacote de 34 propostas permitirá a flexibilização das leis trabalhistas, o fortalecimento dos planos de previdência, e a redução de regulamentações e burocracia. Além disso, haverá cortes de impostos para a classe média, enquanto as alíquotas máximas de imposto para os indivíduos de maior renda serão aumentadas.
Essa decisão representa um marco significativo para os partidos centristas que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, dominam a política do país. Um dos maiores desafios que enfrentam é o crescimento do partido de extrema direita, Alternativa para a Alemanha (AfD), que ganha força em um clima de preocupação com questões econômicas e de imigração entre a população.
O acordo ainda reflete um gesto de urgência política, que pode impactar outros partidos tradicionais na Europa, os quais se encontram em situações comparáveis, lutando para enfrentar adversários mais radicais.
O pacote inclui concessões que podem não agradar segmentos importantes da sociedade, como líderes sindicais e grandes empresários. Entretanto, Merz, representando a União Democrata-Cristã (CDU), e seus parceiros dos Social-Democratas (SPD), expressaram confiança de que as medidas se mostrariam suficientemente ousadas para tirar a Alemanha da estagnação econômica duradoura.
Merz declarou em uma coletiva de imprensa realizada no jardim da Chancelaria: “Todos concordamos que as circunstâncias não podem continuar as mesmas. O centro político precisa demonstrar sua relevância aqui e agora: estamos moldando nosso país, modernizando-o e guiando-o rumo ao futuro.”
Antes que as novas medidas sejam implementadas, é necessário que elas sejam transformadas em texto legislativo e aprovadas pelo Parlamento, com votação agendada para o fim do ano. As principais mudanças incluem reduções de impostos que podem beneficiar uma família de quatro pessoas de renda média em até 700 dólares anuais até 2028. Isso será equilibrado pelo aumento de impostos para os contribuintes mais ricos e por uma reforma no sistema público de previdência, que poderá incluir o aumento da idade de aposentadoria. Essas alterações buscam fortificar o sistema previdenciário público, que enfrenta desafios crescentes devido ao envelhecimento da população ativa na Alemanha. Outras medidas pretendem simplificar processos burocráticos, combater fraudes em benefícios sociais e permitir que padarias operem por mais horas.
De acordo com economistas, as reformas que possuem maior potencial para estimular a economia enfocam a promoção do trabalho. Isso envolve oferecer maior flexibilidade nas jornadas semanais de trabalho e a implementação de novas restrições para evitar o abuso de licenças médicas, um recurso frequentemente utilizado pelos trabalhadores alemães.
Clemens Fuest, presidente do Instituto Ifo de Pesquisa Econômica em Munique, ressaltou que “o pacote de reformas é uma contribuição significativa para superar a estagnação econômica que a Alemanha enfrenta.” No entanto, ele advertiu que “medidas adicionais serão necessárias.”
Os efeitos mais evidentes deste acordo, inicialmente, podem ser de natureza política. Merz assumiu o cargo no ano anterior prometendo implementar reformas abrangentes em diversos setores da economia alemã, buscando fomentar o crescimento e restaurar o ânimo nacional, que tem sido abalado. Contudo, excetuando um pequeno pacote de mudanças tributárias aprovado no verão passado, ele encontrou dificuldades para avançar em suas propostas, especialmente em alcançar um consenso com os social-democratas.
A contínua disputa política afetou a percepção que os eleitores têm de Merz e de seu governo. Além disso, o desempenho econômico do país também sofreu com decisões do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, como a imposição de novas tarifas sobre exportações alemãs, e a guerra no Irã, que fez os preços dos combustíveis dispararem em todo o mundo, afetando assim a Alemanha.
O “outono de reformas” prometido no ano passado acabou não resultando em acordos. A mesma realidade se repetiu no inverno e na primavera seguintes. Nesse período, o partido AfD fortaleceu sua posição nas pesquisas nacionais, superando a CDU e tornando-se a legenda mais popular no país, conforme indicam as médias das pesquisas de opinião.
Merz tem enfatizado que a recuperação econômica é crucial para enfrentar o crescimento da AfD. Autoridades de seu governo haviam estabelecido como prazo final para alcançar um acordo o final de junho. Em uma reunião na noite de 1º de julho, o tão aguardado acordo foi finalmente atingido. Carsten Brzeski, chefe global de macroeconomia da ING Research, comentou: “A Alemanha está, finalmente, entrando em movimento.”
Contudo, as críticas não tardaram a surgir. Alice Weidel, uma das líderes da AfD, manifestou em suas redes sociais que o plano representava “uma redistribuição de esquerda e concessões mínimas que não podem ser chamadas de ‘reforma’.”
Na coletiva de imprensa de quinta-feira, os líderes expressaram a expectativa de que as iniciativas implementadas contribuam para melhorar o clima nacional e representem uma mudança em um ano desafiador para a coalizão e para a economia.
O vice-chanceler e social-democrata, Lars Klingbeil, declarou: “Estou convencido de que, dentro de alguns anos, olharemos para trás e reconheceremos que esta fase da história do nosso país foi a decisão certa e absolutamente necessária.”
Fonte:: estadao.com.br




