Embora muitas vezes não percebamos, os espaços urbanos em que caminhamos estão repletos de história, revelando nossas raízes e tradições. Monumentos, praças, relógios e obras de arte nos contam muito sobre o passado de nossas cidades. Entretanto, até mesmo pequenos objetos, como uma argola presa no meio-fio, podem oferecer um vislumbre significativo de épocas passadas.
É essa abordagem que o professor Rogério Bealpino tem compartilhado com os curitibanos durante suas aulas-passeio aos finais de semana, que atraem 98% de moradores da cidade, incluindo tanto nascidos na capital paranaense quanto aqueles que a adotaram como lar. Como educador patrimonial, Bealpino organiza roteiros que exploram a história de Curitiba por meio de seu patrimônio material.
“Minha proposta é promover uma imersão educativa, não um simples tour turístico. E essa ideia tem se mostrado muito eficaz”, relata o educador. Inspirado em uma metodologia de aula-passeio desenvolvida por um pedagogo francês, Bealpino busca oferecer uma experiência de aprendizado mais prática e sensorial. “Em vez de tirar os alunos da sala de aula, eu convido o público em geral a sair de casa e descobrir sua própria história nas ruas”, completa.
Explorando momentos históricos e a tradição da erva-mate
Desde 2021, Bealpino tem criado aproximadamente 15 roteiros diferentes pela cidade. Um dos mais notáveis é a aula-passeio que recria a visita do Imperador D. Pedro II a Curitiba, permitindo que os participantes refaçam a trajetória da comitiva imperial durante seu primeiro dia na cidade.
“Nessa aula, contamos sobre a chegada do imperador e da imperatriz Teresa Cristina à cidade no dia 21 de maio de 1880, um marco significativo em nossa história que ainda é visível em muitos aspectos atuais da cidade”, explica o professor.
Outra aula-passeio muito popular é a “A Curitiba da Erva-Mate”, que é dividida em dois roteiros: um pela área do Batel e outro pelo Alto da Glória. Nessa experiência, Bealpino destaca a importância da erva-mate na formação urbana de Curitiba e sua relevância para a identidade paranaense, sublinhando que, apesar de muitos a associarem apenas aos gaúchos por conta do chimarrão, a planta tem uma conexão profunda com a cidade. “A erva-mate foi fundamental para o início do processo de urbanização e para o crescimento da cidade em diversos aspectos. Aqui, ainda temos muitas ervateiras de origem curitibana, fundadas por famílias locais”, observa.
Os participantes das aulas-passeio são frequentemente motivados a retornar, com muitos frequentando diversos roteiros ao longo do ano. As aulas acontecem todos os sábados, nas manhãs e tardes, com preços variando entre R$ 30 e R$ 80, dependendo do percurso. “É comum que algumas pessoas compareçam a todas as aulas, quase como se estivessem fazendo um curso informal sobre a história de Curitiba”, comenta renovando o entusiasmo.
A gênese das aulas-passeio em Curitiba
Com formação em Desenho pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap), Bealpino teve sua iniciação na área de visitações educativas ao trabalhar com escolas no Memorial de Curitiba em 2004, realizando passeios pelo Centro Histórico. Após anos de experiência em diversos espaços culturais, como o Museu de Arte Contemporânea do Paraná e a Caixa Cultural, ele retornou às ruas em 2021.
No mesmo ano, Bealpino participou do projeto da história em quadrinho “O Mistério do Pirata Avarento”, e a necessidade de uma contrapartida social para o lançamento levou à criação de visitas guiadas pela cidade, utilizando a HQ como guia. Ao realizar 20 visitas, o sucesso do projeto o motivou a revitalizar uma ideia antiga, inspirando-o a criar as aulas-passeio.
“Percebi que as visitas guiadas eram um grande sucesso e decidi intensificar a promoção da história de Curitiba através de redes sociais como Instagram, TikTok e YouTube, convidando as pessoas a se juntarem a mim nas caminhadas para explorar suas histórias”, afirma Bealpino.
Curiosidades e elementos do patrimônio curitibano
A primeira aula do professor ocorreu pelo Centro Histórico, que ele considera vital por conservar um rico patrimônio dos séculos XVII e XVIII. Lugares como a Praça Tiradentes, ponto de origem da Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, bem como o Largo da Ordem, onde se localiza a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas, são fundamentais para a narrativa da cidade.
Uma das aulas destaca os relógios em Curitiba, inclusive o mais antigo, que está localizado na Praça Tiradentes, datado de 1866, e que até hoje serve como um monumento da história local. “Imagina um relógio de Sol, é quase como uma piada que ele é o que menos trabalha em Curitiba”, brinca o professor.
Além dos grandes marcos, a história de Curitiba também se conta através de detalhes mais sutis, como a argola localizada na Rua São Francisco, uma vestígio do século XVIII, que era utilizada para amarrar cavalos. Esse pequeno objeto revela muito sobre o cotidiano e a cultura da época, mostrando que o patrimônio histórico de Curitiba está presente em todos os cantos, mesmo nos lugares mais inusitados”, conclui Bealpino.
O post Aulas-passeio revelam a história de Curitiba através de casarões, praças e objetos cotidianos apareceu primeiro em Bem Paraná.
Fonte:: bemparana.com.br




