Todd Blanche, o procurador-geral interino dos Estados Unidos, afirmou nesta terça-feira, 2, que o Departamento de Justiça estava retirando uma proposta para criar um fundo de US$ 1,8 bilhão para indenizar pessoas que alegam ser vítimas de processos injustos, em meio a uma revolta entre os republicanos que a consideravam um desastre ético e político.
“Não vamos prosseguir com o fundo, ponto final”, disse Blanche aos membros da Comissão de Orçamento da Câmara. Ele repetiu a declaração para deixar claro que se referia à retirada permanente da proposta.
Sua declaração pode resolver um impasse com os senadores republicanos, que exigiam o cancelamento do fundo como condição para a aprovação de um importante projeto de lei de imigração. Os oponentes descreveram a proposta como um fundo para aliados do presidente Donald Trump.
Mas Blanche disse que manteria em vigor uma ordem judicial assinada no mês passado que, na prática, impede a Receita Federal americana (IRS) de investigar Trump, sua família e suas empresas por supostas violações fiscais. “Nada mudou nesse sentido”, disse Blanche, acrescentando que a ordem tributária não protegeria Trump e seus associados de futuras investigações.
Democratas indignados acusaram Blanche, ex-advogado de defesa do presidente, de ter feito um acordo extremamente favorável que permitiria ao presidente e sua família evitar uma possível multa de US$ 100 milhões.
“Então, a imunidade total não é algo que o senhor pretende revogar?”, questionou a deputada Rosa DeLauro, democrata de Connecticut, que acusou Blanche de priorizar os interesses financeiros do presidente em detrimento do bem público.
Embora Blanche tenha descartado essa possibilidade, já havia dano político. Juntamente com o acordo tributário excepcionalmente favorável, ele oferece aos democratas uma linha de ataque potencialmente poderosa nas eleições de meio de mandato: a alegação de que os republicanos apoiam um acordo que poderia proteger um bilionário de penalidades financeiras.
A declaração ocorreu um dia depois de o Departamento de Justiça se comprometer a cumprir a ordem de um juiz federal que suspendeu a implementação do fundo até pelo menos 12 de junho, uma decisão que, segundo alguns funcionários do governo, poderia abrir caminho para o cancelamento do plano.
Blanche, em depoimento perante o Comitê de Orçamento do Senado no mês passado, ofereceu poucos detalhes sobre como o fundo seria implementado e se recusou a garantir que o dinheiro não seria distribuído àqueles que saquearam o Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
Trump havia discutido a possibilidade de desistir do fundo, que seria financiado pelos contribuintes. O anúncio sobre a criação do fundo, realizado no mês passado, veio logo após Trump concordar em encerrar um processo de US$ 10 bilhões que havia movido contra a Receita Federal (IRS) devido ao vazamento de suas declarações de imposto de renda. Blanche afirmou que não participou diretamente das negociações sigilosas que levaram ao acordo.
Ele havia expressado, em conversas privadas, preocupações sobre o acordo. Mas ele determinou que o plano, criado por um subordinado e pelos advogados particulares de Trump, incluindo Boris Epshteyn, atendia aos requisitos legais e o aprovou, de acordo com autoridades informadas sobre as negociações.
Críticos acusaram o procurador-geral interino de sacrificar a independência de seu departamento para servir a um presidente que ele ainda considera um cliente.
Em uma extensa entrevista em podcast com o apresentador da Fox News Sean Hannity, divulgada nesta terça, Blanche, descontraído, atacou sistematicamente todos os promotores que supervisionaram os casos contra o presidente, oferecendo uma defesa sem remorso de sua busca pela vingança promovida por Trump.
Blanche, trocando seu terno habitual por uma camisa polo, atacou os ex-procuradores especiais Robert S. Mueller III e Jack Smith, que conduziram as investigações federais contra Trump. Blanche também atacou promotores estaduais e locais, incluindo Alvin L. Bragg, o promotor distrital de Manhattan, e Letitia James, a procuradora-geral de Nova York, que haviam conduzido processos contra Trump.
Blanche falou abertamente sobre a chamada investigação da grande conspiração, que busca conectar muitas dessas investigações em um único suposto complô para privar Trump de seus direitos, rompendo drasticamente com a política do Departamento de Justiça que proíbe a discussão pública de investigações em andamento, particularmente aquelas que envolvem grandes júris.
“Existe uma investigação da grande conspiração, correto?”, perguntou Hannity, em uma entrevista gravada durante o feriado do Memorial Day. “Sim, absolutamente”, respondeu Blanche. “Cem por cento.”
Blanche então revelou informações sobre dois grandes júris, que normalmente atuam em segredo, que estão ouvindo as evidências do caso. Ele concordou com Hannity que um havia sido formado na Flórida e o segundo em outro estado americano.
Blanche chegou a revelar alguns dos alvos do caso da grande conspiração, mencionando seus nomes: James B. Comey, ex-diretor do FBI; John O. Brennan, ex-diretor da CIA; e James R. Clapper Jr., ex-diretor de inteligência nacional.
“Vamos falar de indivíduos”, disse Hannity. “Comey? Brennan? Clapper?” “Sim”, respondeu Blanche. Apesar disso, Blanche e outros altos funcionários tentaram frear a tentativa de Trump de monetizar suas queixas, obtendo compensação do governo pelo vazamento de suas declarações de imposto de renda.
A proposta do fundo permitiu que o presidente desistisse do processo, ao mesmo tempo que criava um mecanismo para fornecer pagamentos a apoiadores que alegavam também terem sido alvo de injustiça. “O que fizemos foi totalmente legal e apropriado”, disse Blanche a Hannity. “E, repito, a família Trump não receberá nada.”
Mas essa proposta provocou uma revolta entre os senadores republicanos, alguns dos quais repreenderam Blanche durante uma reunião acalorada no Capitólio no mês passado.
Na segunda-feira, 1º, o Departamento de Justiça sinalizou que estava reavaliando a situação, mas não chegou a cancelar o programa, afirmando em um comunicado que acataria a decisão do Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Leste da Virgínia, que suspendeu temporariamente os pagamentos.
Mas isso inicialmente pouco fez para acalmar as preocupações dos senadores republicanos, que reagiram com repulsa a um plano que consideram um campo minado ético e um potencial risco político nas eleições de meio de mandato, já complicadas pela queda de popularidade de Trump.
Os democratas prometeram incluir emendas à legislação que cortariam o financiamento do programa, aumentando as exigências dos republicanos para que o governo Trump o cancelasse de vez.
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Fonte:: estadao.com.br




