A recente declaração do presidente Donald Trump, indicando que os Estados Unidos estão prontos para fechar o Estreito de Ormuz e perseguir navios que estejam transportando petróleo sancionado do Irã, destacou uma questão de crescente preocupação entre as autoridades internacionais: a operação da chamada “frota fantasma” de petroleiros. Essa frota é composta por navios que operam sem supervisão ou autorização, principalmente devido às sanções comerciais severas impostas a países como Rússia, Irã e Venezuela.
Embora o transporte ilegal de mercadorias tenha raízes históricas, a moderna “frota fantasma” emergiu em resposta a pressões comerciais, especialmente com o aumento das sanções e restrições relacionadas à invasão da Ucrânia em 2022. A expansão desse comércio clandestino deixou de ser uma preocupação isolada e passou a exigir atenção global.
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Qual é a dimensão da frota fantasma?
Estimar o tamanho da frota fantasma é desafiador, mas especialistas indicam que cerca de 1.500 petroleiros estão em operação clandestina ao redor do mundo, sendo aproximadamente 1.100 deles de origem russa. Estima-se que cerca de 19% do petróleo consumido globalmente esteja vinculado a esse tipo de transporte ilegal. Além do petróleo, essa frota também é utilizada para o tráfico de outros produtos, como grãos e contêineres, ampliando significativamente o número de navios envolvidos.
Informações do site Tanker Trackers revelam que as rotas mais frequentes incluem o transporte de petróleo do Irã para a China e da Rússia tanto para a China quanto para a Índia. A rota entre Venezuela e China já foi identificada como uma das quatro principais em termos de volume até o ano passado.
Segundo dados do KSE Institute, Índia e China são os principais destinos do petróleo bruto proveniente da frota fantasma, com importações de 39% e 29%, respectivamente. Quando se trata de derivados de petróleo, Brasil e Cingapura se destacam como os maiores compradores, com 16% e 15% das importações, respectivamente.
Adicionalmente, cerca de 24% do volume de petróleo bruto e 37% dos derivados são enviados para destinos desconhecidos.
Após o início do conflito no Oriente Médio, o Irã supostamente conseguiu exportar entre 1 milhão e 1,7 milhão de barris de óleo bruto, sendo a China um dos principais compradores desse petróleo.
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Funcionamento da frota fantasma
Os navios da frota fantasma utilizam várias táticas para ocultar sua localização e identidade das autoridades. Isso inclui desligar o Sistema Automático de Identificação (AIS), apresentar documentação falsa, modificar suas marcações ou disfarçar a propriedade através de estruturas corporativas complexas. Navios que operam legalmente mantêm seus transponders ligados e seguem padrões internacionais de segurança.
Além disso, frequentemente alteram o nome da embarcação, a bandeira e fornecem registros falsos. Esses navios realizam manobras incomuns, evitam portos bem monitorados e se encontram com outras embarcações em alto mar para transferências de cargas.
A maioria dessas embarcações está registrada sob proprietários dos Emirados Árabes Unidos, seguidos pela Grécia, Hong Kong, Ilhas Marshall e Libéria. A escolha de bandeiras de conveniência é uma estratégia para reduzir custos e evitar regulamentações rigorosas, resultando muitas vezes em custos mais baixos e maior flexibilidade operacional.
De acordo com o Financial Times, alguns navios que operam ao arrepio da lei optaram por ostentar a bandeira russa em busca de maior proteção.
Equipe a bordo da frota
Investigadores relataram que operadores de navios frequentemente recorrem ao tráfico humano para preencher a tripulação a bordo dessas embarcações. O recrutamento costuma focar em comunidades economicamente vulneráveis, utilizando promessas enganosas de emprego legítimo no mar, enquanto ocultam os riscos envolvidos.
Denúncias revelam que aspirantes a marinheiros podem ser forçados a pagar taxas ilegais de recrutamento e enfrentar condições de trabalho consideradas uma forma de trabalho forçado, incluindo longas jornadas, confisco de documentos e retenção de salários.
Um artigo do Pulitzer Center enfatiza que, em 2024, mais de 3.000 marinheiros estavam presos em 230 navios, muitos dos quais estavam associados às atividades da frota clandestina.
Um relato do site ucraniano Kyivi Independent conta a história de dois marinheiros ucranianos que, sem saber, se tornaram parte da frota fantasma russa, sendo recrutados via WhatsApp com números de celular britânicos, uma prática que também é comum em plataformas como Telegram e Instagram.
Os pagamentos feitos para esses trabalhos adicionam outra camada de risco, frequentemente sendo realizados em dinheiro ou na forma de criptomoedas, como Tether (USDT).
Segundo marinheiros entrevistados, os custos operacionais de um navio com cerca de 30 tripulantes podem alcançar até US$ 120.000 mensais, totalizando cerca de US$ 1,5 milhão por ano.
Idade média da frota
As embarcações que compõem essa frota frequentemente são petroleiros de segunda mão, com uma idade média de 15 anos ou mais, o que representa um alto risco, já que essas embarcações não passam por revisões de segurança necessárias com regularidade, aumentando a possibilidade de acidentes e vazamentos de óleo.
Peças de reposição e serviços são geralmente adquiridos através de intermediários, como empresas localizadas na China, Namíbia e Omã, o que acaba por obscurecer a origem e o destino final dos itens vitais para a manutenção das embarcações.
Devido à precariedade da frota, que frequentemente transporta materiais perigosos sem manutenção adequada, o risco de derramamentos catastróficos e acidentes se torna uma questão alarmante para as autoridades.
Combate à frota clandestina
A União Europeia, apesar das sanções econômicas aplicadas à Rússia, tinha atuado de forma limitada no combate ao transporte clandestino de petróleo. No entanto, desde o final de 2025, foi estabelecida uma nova estratégia para aumentar a capacidade dos países costeiros de abordar e inspecionar navios suspeitos. Este movimento surgiu da percepção de que a não ação internacional permitiu à Rússia encontrar
Reports recentes destacam interceptações de navios realizadas por países como Bélgica, Suécia, França, Itália e Alemanha, além de um aumento na fiscalização por parte do Reino Unido. Em janeiro, a Guarda Costeira dos EUA conseguiu abordar cinco petroleiros venezuelanos, incluindo o Marinera, anteriormente conhecido como Bella 1, que navega com bandeira russa.
No final de janeiro, o comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA aprovou um projeto bipartidário conhecido como Lei de Sanções da Frota Sombra, que prevê sanções para esses navios clandestinos operando sob bandeira russa. O projeto busca atingir toda embarcação que transporte petróleo bruto, armas ou qualquer outro produto, visando driblar as sanções contra a Rússia, e também se dirige a qualquer pessoa que possua, opere ou faça o seguro dessas embarcações, prevendo consequências como bloqueio de bens e restrição de vistos.
Fonte:: infomoney.com.br


