Com uma legislação direcionada e um elevado potencial de crescimento, o modelo de duty free nas cidades gêmeas reforça o turismo, atrai investimentos e abre oportunidades para a indústria nacional.
O avanço das lojas francas em cidades fronteiriças brasileiras está reformulando não apenas o comércio regional, mas também a dinâmica do turismo e a economia local. Em Foz do Iguaçu, um dos principais destinos turísticos do Brasil, esse modelo ganha força e se consolida como uma estratégia inteligente de integração entre consumo, experiência e desenvolvimento econômico. O setor poderia se tornar ainda mais robusto com investimentos voltados à comercialização de produtos da indústria nacional, aproveitando a isenção de impostos garantida pela legislação de lojas francas. Tal iniciativa não apenas impulsionaria a economia, mas também a geração de empregos e o interesse estratégico de novos investidores, consolidando a cidade como um polo de duty frees e um centro econômico de destaque.
As lojas francas, frequentemente conhecidas como “Duty Free”, operam em cidades gêmeas de fronteira sob uma legislação própria, distinta daquela aplicada nas lojas localizadas em aeroportos. Esse regime específico foi criado em resposta à forte concorrência enfrentada por municípios fronteiriços, especialmente no Rio Grande do Sul, onde se buscou uma forma de mitigar os impactos da concorrência com países vizinhos como o Uruguai. Essa política pública, que provém de uma mobilização local, tem se mostrado estratégica para várias regiões do Brasil.
Foz do Iguaçu, por sua posição privilegiada na tríplice fronteira com Paraguai e Argentina, possui condições ímpares para aproveitar esse modelo. Atualmente, a cidade conta com sete lojas francas em operação, e o potencial para expansão está longe de ser totalmente explorado. A mais recente adição ao mercado, a Luryx Duty Free, reforça Foz do Iguaçu como um polo estratégico de duty frees, trazendo 50 novos empregos diretos nesta fase inicial. O grupo investiu significativamente para estabelecer o maior free shop da cidade, focando na venda de produtos importados isentos de impostos e localizado no corredor turístico. “Foz do Iguaçu se firmou como um polo de lojas francas, e a tríplice fronteira é um destino turístico atrativo para nós”, afirma o gerente geral Giorgios Kalfas.
A contadora e advogada Elizangela de Paula Kuhn, especialista na evolução deste segmento, considera as lojas francas um divisor de águas. “Esse movimento estruturado integrou efetivamente o comércio e o turismo. Isso altera radicalmente a lógica econômica da cidade”, comenta.
Essa integração é evidente em empreendimentos como o Shopping Catuaí Palladium, onde três lojas francas atuam como âncoras fundamentais. O impacto vai além das vendas: há um notável aumento na movimentação de pessoas, fortalecimento de outros lojistas e estímulo ao consumo em cadeia. “O Catuaí Palladium é o único shopping no Brasil a ter três free shops lado a lado, oferecendo variedade e a possibilidade de compras parceladas com conforto. Nossa estrutura climatizada evita filas nas fronteiras, unindo o lazer familiar à praticidade de encontrar grandes marcas em um só espaço. É um diferencial que transforma a experiência de consumo internacional em Foz do Iguaçu”, destaca Cheile Back, gerente de marketing do shopping.
Um aspecto central neste processo é o perfil do turista contemporâneo de Foz, que, diferentemente do visitante tradicional focado em compras no Paraguai, agora abrange um número crescente de turistas de eventos e lazer com agendas mais restritas. Para esse novo público, as lojas francas oferecem uma solução prática, acessível e competitiva, permitindo compras rápidas sem a necessidade de atravessar a fronteira e esperar em filas longas, o que muitas vezes não é viável.
Além disso, um efeito econômico direto significativo é que o capital permanece na cidade. Mesmo quando a compra ocorre em uma loja dentro do aeroporto de Foz do Iguaçu, os recursos são internalizados na economia local. “Se essa loja não estivesse ali, esse valor simplesmente iria embora com o turista”, ressalta Elizangela.
O empresário Jorbel Griebeler observa que o público em Foz é equilibrado, consistindo em 50% de turistas e 50% de locais, solidificando a cidade como um destino de compras. O Free Shop impulsiona a economia regional, gerando receita e atraindo visitantes que movimentam hotéis e serviços locais. O potencial de crescimento é imenso, mas depende de um apoio governamental mais robusto para fortalecer o setor e garantir a segurança das operações.
“Com um investimento de R$ 30 milhões e 130 empregos gerados em Foz, elevar a cota para 1.000 dólares é crucial para corrigir a defasagem atual. Essa alteração alavancaria vendas, aumentaria a arrecadação de impostos e geraria novas vagas, funcionando como um catalisador para um ciclo de prosperidade que beneficiaria toda a região. O setor tem grande capacidade de evolução e essa mudança será fundamental para consolidar nosso destino de compras”, conclui Griebeler, CEO da Cell Shop.
Outro aspecto relevante que ainda não foi plenamente explorado é a possibilidade de integração com a indústria nacional. A legislação permite que as lojas francas adquiram produtos diretamente de fabricantes brasileiros com a suspensão de tributos na entrada, resultando em uma significativa redução de custos e aumento da competitividade.
Isso cria oportunidades estratégicas para diversos setores produtivos do Brasil, incluindo vinhos, espumantes, cachaças premium, chocolates, temperos e muitos outros produtos que, atualmente, enfrentam dificuldades para competir nas regiões de fronteira devido à elevada carga tributária, que pode ultrapassar 70%. “As lojas francas poderiam ser uma vitrine poderosa para a indústria nacional, mas essa conexão ainda não se concretizou como deveria em Foz do Iguaçu”, observa Elizangela, salientando que este mercado é praticamente inexplorado, com alto potencial de crescimento e geração de valor.
Do ponto de vista regulatório, o modelo de lojas francas apresenta vantagens significativas. Elas operam com suspensão de impostos na entrada de mercadorias e estão dispensadas de exigências como registros na Anvisa ou certificações do Inmetro para diversos produtos, o que reduz custos e acelera processos. Este ambiente mais flexível favorece a competitividade e expande a gama de produtos disponíveis no mercado.
Ao contrário das preocupações iniciais, as lojas francas não prejudicam o comércio local, mas, ao contrário, se mostram complementares. Com a maturação do mercado, tanto lojistas quanto consumidores passaram a entender que se trata de propostas distintas, com mix de produtos e públicos diferentes.
“Hoje é evidente que as lojas francas colaboram com a economia local. Elas geram empregos, atraem investimentos e fortificam shoppings e outros empreendimentos”, afirma Elizangela. A antiga percepção negativa que existia no início da implementação do modelo deu lugar a uma visão mais integrada e estratégica.
O histórico de implantação em Foz revela um esforço técnico consistente. A cidade contou com profissionais especializados, como o contador e visionário Derceu de Paula, que participou da primeira audiência pública em Brasília discutindo sobre zona franca e acompanhou a estruturação das primeiras operações. Esse conhecimento acumulado foi essencial para viabilizar o setor localmente.
O interesse por Foz do Iguaçu continua a crescer. Três grupos empresariais do Paraguai manifestaram intenção de investir na abertura de novas lojas francas na cidade, indicando confiança no potencial do mercado e reforçando o caráter internacional do negócio.
Observando o desenvolvimento em cidades como Uruguaiana, onde as lojas francas se tornaram um dos principais motores econômicos, é claro que Foz do Iguaçu ainda possui um extenso caminho a percorrer para sua expansão. Contudo, no caso de Foz, o modelo não será apenas um atrativo, mas um complemento significativo a uma estrutura turística já consolidada.
Com o crescimento do turismo de eventos, a alta demanda internacional e a possibilidade de conexão com a indústria nacional, as lojas francas se destacam como uma das mais promissoras fronteiras de desenvolvimento econômico para Foz do Iguaçu.
Mais do que um modelo de negócio, elas simbolizam uma estratégia de retenção de riqueza, geração de empregos e fortalecimento da identidade econômica de uma cidade que, por sua essência, já é global.
O setor de lojas francas em cidades de fronteira no Brasil tem demonstrado um crescimento significativo e se firmou como um motor crucial do turismo e da economia regional. Dados oficiais mostram que no primeiro semestre de 2025, o Brasil registrou movimentação de US$ 53,08 milhões, uma expressiva alta de 45,4% em comparação com o mesmo período de 2024. O bom desempenho evidencia a rápida expansão desse modelo de varejo no país.
Em Foz do Iguaçu, um dos principais centros do setor, as lojas francas geraram um faturamento de US$ 10,87 milhões (aproximadamente R$ 64 milhões) durante o período, um crescimento de cerca de 22% em relação ao ano anterior, conforme relatório da Receita Federal. A cidade representa cerca de 20% de todo o faturamento nacional, demonstrando sua importância estratégica no setor.
O Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF) informa que o Brasil movimentou US$ 89,1 milhões em 2024 com lojas francas, distribuídas em 12 municípios, representando um avanço de cerca de 35% em relação a 2023, o que reafirma a tendência de crescimento contínuo e o fortalecimento dessas operações como um vetor econômico nas regiões de fronteira.
Imagem: Silvana Canal Marketing & Consultorias
Fonte:: diariopr.com.br




