A inteligência artificial é o tema central do documento intitulado “Magnifica Humanitas” — ou “Magnífica Humanidade”, em tradução livre do latim para o português. Esta é a primeira encíclica do pontificado de Papa Leão 14, na qual ele aborda a necessidade de proteger “a pessoa humana na era da inteligência artificial”.
No contexto da tradição católica, encíclicas representam os textos mais significativos que constituem o magistério de um papa. Elas são cartas dirigidas tanto aos bispos quanto aos fiéis, onde o líder da Igreja elabora o corpo doutrinário do catolicismo. Dessa forma, Leão 14 não apenas firma sua posição sobre um assunto que vem sendo amplamente debatido desde sua eleição como sumo pontífice, mas também indica que suas preocupações sobre o impacto da tecnologia na dignidade humana serão um elemento central de seu papado. Esta encíclica pode ser vista como um verdadeiro cartão de visitas de sua liderança.
O texto, que inicia o magistério de Leão 14, conta com 105 páginas e apresenta-se como um apelo à proteção da humanidade, à promoção da verdade, à dignidade do trabalho, à justiça social e à paz, tudo isso em um tempo marcado por uma revolução tecnológica rapidamente impulsionada pela inteligência artificial.
Papa Leão 14 reflete sobre a inteligência artificial ao considerar a tecnologia como um instrumento, mas não um agente criativo. Para ele, essa ferramenta deve estar a serviço da humanidade, e não o oposto. “A humanidade — em toda a sua grandeza e em todas as suas feridas — jamais deve ser substituída ou superada”, afirma o papa, que enfatiza que o amor e as relações humanas são essenciais para todos nós.
Logo no início da encíclica, Leão menciona que a humanidade “enfrenta hoje uma escolha decisiva”. Ele apresenta uma dicotomia: será que vamos construir uma nova Torre de Babel ou “edificar a cidade na qual Deus e a humanidade habitam juntos”? Nesse sentido, Leão reverbera uma imagem que foi muito enfatizada por seu antecessor, Francisco (1936-2025), que alertava sobre a importância de construir pontes em vez de muros.
Um dos diálogos mais significativos trazidos pela “Magnifica Humanitas” é aquele com a “Rerum Novarum”, encíclica social publicada por Leão 13 (1810-1903), há exatos 135 anos.
A encíclica atual parte do princípio de que a tecnologia não é “uma força antagonista à humanidade” e não é “intrinsecamente má”. O problema, segundo o papa, é que a tecnologia “nunca é neutra”, pois “assume as características daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam”.
<pcom isso, o papa apela para que a tecnologia seja sempre desenvolvida “para o bem comum” e mantendo em mente a necessidade de que as pessoas continuem sendo “humanas”.
Além disso, a discussão sobre direitos humanos e dignidade humana ocupa um espaço importante na encíclica. Leão 14 denuncia que tanto o aborto provocado quanto o assassinato de inocentes e a eutanásia são escolhas que o catolicismo considera “gravemente erradas”. Ele exige que haja mais reconhecimento dos direitos das minorias e solicita “decisões concretas” em prol da igualdade de gênero, enfatizando a maior participação das mulheres em áreas como leis, trabalho, educação e política. Diante de um mundo dilacerado por guerras, Leão afirma que “qualquer tentativa ou plano para eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, portanto, inaceitável”.
O papa observa que “a revolução digital está mudando a natureza dos conflitos”, apontando que a decisão sobre a vida e a morte está se tornando cada vez mais impessoal. “A inteligência artificial não elimina a desumanidade intrínseca do conflito; pelo contrário, ela pode apenas acelerar esses conflitos, tornando-os mais impessoais, e reduzindo as vítimas a meros dados”, salienta.
Leão expressa sua preocupação com a forma como os conflitos bélicos são tratados como “instrumentos de política internacional” e critica o crescente rearmamento mundial. Para ele, a paz não está sendo vista como um objetivo a ser alcançado, mas sim como um mero intervalo entre guerras.
O pontífice ainda destaca a importância em como uma sociedade lida com imigrantes e refugiados, afirmando que isso “revela se seu senso de justiça é guiado pelo medo ou pelo espírito de fraternidade”. Leão pede por um acolhimento efetivo aos imigrantes e também pela promoção do “direito de permanecer” em sua terra natal, onde possam estar seguros.
No que tange à tecnologia, o papa alerta sobre os perigos da concentração de controle em mãos de poucas empresas, reforçando a necessidade do “destino universal dos bens”. Para Leão, a revolução digital deve ser inclusiva e não excluir ninguém.
Ele também argumenta que, na era digital, a doutrina social requer um acesso mais equitativo às oportunidades, assim como proteção para os mais vulneráveis. O combate a discursos de ódio e desinformação é considerado crucial. Ademais, é necessário que a tecnologia esteja sob uma supervisão pública e regulamentação, onde o foco não seja apenas o lucro, mas sim a dignidade de cada indivíduo e o bem comum de todos.
Em sua encíclica, fica evidente que o papa compartilha as mesmas preocupações de seu antecessor, Francisco, sobre a humanidade estar vivenciando um paradigma tecnocrático, onde as decisões são dominadas pela eficiência e pelo lucro. Para o pontífice, a inteligência artificial precisa ser monitorada, já que, embora possa simular o comportamento humano, não possui moralidade, empatia, ou capacidades relacionais e espirituais.
Leão conclui defendendo que o desenvolvimento tecnológico deve estar subordinado a um arcabouço jurídico, necessitando de políticas adequadas e supervisão adequada, com usuários que sejam educados a lidar com essa nova realidade. Ele reafirma a necessidade de um código de ética que seja coerente com a justiça social, argumentando que “não adianta ter uma inteligência artificial mais moral se a moralidade for definida por um número reduzido de pessoas”.
*Com informações de agências internacionais
Fonte:: convergenciadigital.com.br




