Os principais postulantes à Presidência da República deveriam assumir, ainda antes da realização do pleito eleitoral, o compromisso formal de liderar um grande acordo nacional voltado para reestruturar a economia e a administração pública do Brasil. Essa mobilização envolveria diretamente o governo federal, o Congresso Nacional, a sociedade civil, os diversos setores produtivos e a imprensa, cabendo a cada um deles papéis e responsabilidades bem definidos no processo.
Especialistas e analistas apontam que os primeiros cem dias da próxima gestão deverão marcar o pontapé inicial dessa empreitada. O país acumula desafios históricos que atravessam décadas e limitam de maneira severa a sua capacidade de expansão sustentável, exigindo o enfrentamento direto das causas estruturais desses entraves, e não apenas o tratamento paliativo de suas consequências.
Os sintomas dessa disfunção são amplamente conhecidos pela população: patamares elevados de juros, forte pressão inflacionária sobre o custo de vida, famílias inteiras endividadas, corporações com dificuldades crônicas para realizar novos investimentos e um Estado que necessita se financiar de forma contínua. Seja na indústria, no comércio ou no agronegócio, as atividades produtivas exigem o enfrentamento de custos operacionais e riscos que acabam por corroer a renda de quem efetivamente trabalha.
Ao longo dos anos, diferentes administrações federais apresentaram medidas paliativas para tentar amenizar esse cenário de dificuldades. Foram implementadas renegociações de dívidas, criação de programas habitacionais, ampliação de redes de proteção e oferta de linhas de crédito subsidiadas. Embora tais iniciativas tragam alívio imediato a muitos cidadãos, os problemas estruturais tendem a reaparecer ciclicamente justamente porque suas origens permanecem intocadas.
O alívio precisa vir acompanhado de tratamento
A assistência social continuada, a exemplo de aprimoramentos no programa Bolsa Família e na valorização da renda de aposentados e pensionistas, é considerada fundamental. Afinal, parcelas vulneráveis da população que necessitam de amparo imediato não podem aguardar o longo prazo de uma recuperação econômica ampla para conseguir se alimentar, adquirir medicamentos ou quitar obrigações básicas.
Contudo, o Brasil convive historicamente com uma forte concentração de renda que gera um abismo social profundo. A construção de caminhos para superar essa desigualdade deve figurar entre os objetivos centrais de qualquer pacto de Estado, garantindo que a retomada econômica chegue também àqueles que hoje encontram poucas oportunidades de ascensão social.
Essas bases sólidas são erguidas por meio de investimentos consistentes em educação de qualidade, capacitação profissional, fomento ao emprego formal e facilitação do acesso a serviços públicos essenciais. Enquanto a rede de proteção social ampara quem se encontra em situação de fragilidade, as reformas estruturais precisam atuar na ampliação das oportunidades de trabalho e geração de renda. Somente assim o crescimento econômico poderá se tornar sustentável e abranger uma parcela expressiva da sociedade.
O ponto de atenção reside no risco de transformar o socorro estatal permanente na única política econômica vigente. Quando a ajuda financeira depende de um governo que acumula déficits e amplia seu endividamento, a própria continuidade dessa rede de proteção passa a correr riscos. Proteger as camadas de menor renda exige, portanto, coragem para enfrentar as condições econômicas que perpetuam a dependência de auxílios.
A taxa de informalidade no mercado de trabalho ilustra com clareza essa dimensão. No trimestre encerrado em agosto, 37,5% da força de trabalho ocupada encontrava-se nessa condição, segundo levantamento do IBGE. Isso significa que quase quatro em cada dez trabalhadores exercem suas funções sem a devida segurança jurídica, mesmo em cenários de taxas de desemprego consideradas baixas.
Milhões de brasileiros atuam sob coberturas limitadas e enfrentam dificuldades para manter contribuições regulares junto à Previdência Social. Paralelamente, o envelhecimento demográfico da população exerce forte pressão sobre as contas das aposentadorias. O projeto de orçamento projetado para os próximos anos aponta para cifras superiores a R$ 1,2 trilhão em despesas previdenciárias totais, uma magnitude que exige planejamento de longo prazo para garantir a sustentabilidade do sistema.
O governo também precisa caber no orçamento
O ponto de partida para qualquer ajuste fiscal deveria ser a adequação do ritmo de crescimento das despesas públicas à real capacidade de arrecadação do país, estabelecendo uma trajetória consistente capaz de estabilizar a relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB). A sociedade precisa ter clareza sobre quais gastos passarão por revisão, em quais prazos e quais serão os resultados práticos esperados.
As previsões orçamentárias recentes indicam margens estreitas nas contas primárias antes do pagamento de juros, o que evidencia a complexidade do cenário fiscal. Em contrapartida, o volume de juros nominais pagos pelo setor público ultrapassou a marca de R$ 1,1 trilhão em períodos recentes de 12 meses, demonstrando que pequenas sobras primárias estão longe de sanar o desequilíbrio estrutural das contas governamentais.
Esse panorama impõe a necessidade de reavaliar despesas obrigatórias, privilégios corporativos, estruturas administrativas e a eficiência dos serviços prestados. Outro ponto nevrálgico envolve o exame minucioso de subsídios e benefícios tributários. Isenções fiscais que não apresentem retorno comprovado em termos de investimentos produtivos, ganhos de produtividade ou criação de postos de trabalho devem ser eliminadas, visto que todo recurso público renunciado representa um custo direto para o conjunto da sociedade.
Contratar e produzir precisam compensar
Outra frente estratégica indispensável diz respeito à redução do custo associado à contratação formal de trabalhadores. Trata-se de mitigar o peso dos encargos trabalhistas e da complexidade burocrática incidente sobre a folha de pagamento, sem que isso signifique a supressão de direitos fundamentais, mas sim a definição de bases sustentáveis para o financiamento da proteção social.
Medidas de desoneração que simplesmente repassem o passivo para a dívida pública tendem a agravar o problema em vez de solucioná-lo. Qualquer alteração deve estar integrada a uma reforma ampla que estimule a formalização e torne financeiramente viável a expansão dos quadros de funcionários pelas empresas.
Paralelamente, mostra-se urgente a simplificação de obrigações acessórias, o aprimoramento da infraestrutura logística, a mitigação da insegurança jurídica e o estímulo irrestrito à concorrência de mercado. Tais providências repercutem diretamente no chão de fábrica, no comércio e nas propriedades rurais, reduzindo os custos de produção e ampliando o apetite empresarial por novos investimentos.
Com patamares elevados de taxas de juros, múltiplos projetos produtivos acabam perdendo atratividade frente às aplicações financeiras de baixo risco. O empreendedor brasileiro precisa superar obstáculos como o encarecimento do crédito, a alta carga tributária e os riscos inerentes à atividade econômica para conseguir obter margens de retorno satisfatórias, ao passo que investimentos financeiros muitas vezes oferecem remunerações expressivas com menor exposição e esforço operacional.
Embora o Brasil continue a atrair capitais produtivos externos e internos, é imperativo estabelecer um ambiente de negócios que encoraje uma parcela ainda maior de recursos a ingressar na economia real. O Estado, fortemente pressionado por despesas correntes e compromissos da dívida, possui capacidade restrita para atuar de forma isolada na sustentação dessa expansão.
Um pacto com responsabilidades definidas
Nenhum governo será capaz de solucionar décadas de desequilíbrios estruturais em apenas cem dias. No entanto, o estabelecimento desse horizonte temporal permite a apresentação de um plano de ação consistente, o encaminhamento tempestivo de projetos legislativos e a pactuação de um cronograma claro de votações junto ao Poder Legislativo.
O acordo macroeconômico ideal deveria estipular metas fiscais claras, critérios objetivos para a revisão de gastos públicos e incentivos fiscais ineficientes, além de propostas concretas para baratear o custo do trabalho e impulsionar os investimentos. Cada compromisso assumido precisará vir acompanhado de estimativas precisas de custo, fontes de financiamento e impactos esperados.
Os parlamentares eleitos também assumem um papel de protagonismo nessa responsabilidade compartilhada. A renovação na composição do Congresso deve se refletir na disposição concreta de aprovar alterações legais e constitucionais estruturantes, mesmo quando estas afetarem interesses corporativos organizados.
Ao Poder Executivo caberá o dever de propor as transformações necessárias e coordenar sua implementação prática. À classe política, o compromisso de negociar com transparência e responder institucionalmente perante a opinião pública pelas escolhas adotadas. Os agentes econômicos, por sua vez, precisarão aceitar a revisão de vantagens comparativas que não gerem externalidades positivas para o país, assumindo contrapartidas firmes de investimento e produtividade.
A sociedade civil organizada deve participar ativamente desse debate público, fiscalizando e cobrando resultados efetivos. À imprensa cabe a missão primordial de destrinchar os custos envolvidos, confrontar promessas eleitorais com fatos concretos e monitorar o cumprimento das metas estabelecidas, garantindo a transparência indispensável para a credibilidade de qualquer pacto nacional.
Esse esforço conjunto precisa obrigatoriamente transcender o calendário das disputas eleitorais. Um país não consegue superar suas deficiências sistêmicas se cada segmento social exigir reformas profundas apenas dos demais setores enquanto busca preservar integralmente seus próprios privilégios.
A confiança pode antecipar a recuperação
A formulação de um programa econômico crível e sustentável tem o potencial de antecipar expectativas otimistas do futuro para o presente. Quando o empresariado e os consumidores passam a planejar suas atividades com base em prever cenários mais seguros à frente, a confiança gerada opera na redução de prêmios de risco e fomenta decisões de investimento antes mesmo que todas as reformas produzam seus efeitos integrais.
A trajetória futura da taxa básica de juros continuará atrelada aos índices de inflação e às avaliações técnicas do Banco Central. Contudo, a consolidação de um ambiente fiscal previsível e seguro constitui base indispensável para pavimentar o caminho rumo a reduções sustentáveis no custo do crédito.
A teoria econômica clássica demonstra que incentivos bem calibrados direcionam o interesse individual para a geração de benefícios coletivos. Quando as condições legais e tributárias tornam a produção e o investimento vantajosos, a dinâmica das decisões privadas atua diretamente na expansão do emprego, da massa salarial e da arrecadação pública.
Compete ao Estado assegurar as condições básicas para o funcionamento dessa engrenagem, garantindo marcos regulatórios estáveis, livre concorrência e rigorosa responsabilidade na gestão dos recursos públicos. A confiança institucional precisa ser respaldada por fatos concretos.
O compromisso começa antes do voto
É justamente essa entrega programática que os candidatos à principal cadeira do Poder Executivo devem ao conjunto da sociedade brasileira: a liderança na condução de um pacto estratégico capaz de solucionar gargalos que nenhum presidente conseguirá superar de maneira isolada. Essa responsabilidade se inicia com quem pleiteia governar e estende-se a todos aqueles que elaboram as leis, investem capital, produzem riqueza e informam a opinião pública.
O próximo chefe do Palácio do Planalto precisará simultaneamente amparar os vulneráveis no presente e instituir as reformas estruturais necessárias para que o Brasil produza mais, gere empregos formais em escala e assegure a sustentabilidade de sua rede de proteção social. O eleitor brasileiro possui o direito inalienável de conhecer detalhadamente esse planejamento estratégico antes depositar seu voto nas urnas.
Consertar os rumos do país exige que o interesse coletivo prevaleça sobre a conveniência particular de grupos específicos. Sem essa disposição política e social, o país correrá o risco de perpetuar promessas de alívio temporário para os mesmos sintomas antigos, enquanto os problemas estruturais continuam a avançar.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política
Fonte:: canalrural.com.br


