O Brasil se encontra em uma situação paradoxal no que diz respeito à sua infraestrutura digital. De um lado, o país tem um excelente potencial para atrair investimentos em data centers destinados à inteligência artificial (IA), devido à sua abundância de energia renovável, vasto território, estabilidade geológica e uma posição neutra em termos geopolíticos. Por outro lado, o alto custo tributário sobre a importação de componentes essenciais – como as placas gráficas (GPUs) – coloca o Brasil em uma posição desfavorável em comparação com outros países.
Felipe Patane, diretor de inteligência artificial generativa da Oracle para a América Latina, destacou essa questão durante um painel que discutiu o cenário brasileiro de data centers, nuvem e IA no TS Data Centers, AI & Cloud Summit 2026, realizado em Santana de Parnaíba. De acordo com ele, “a inteligência artificial generativa não tem volta, mas impostos não nos deixam desenvolver. Temos energia disponível e uma vasta quantidade de terras. A única coisa que nos atrasa é a carga tributária. A média mundial de impostos sobre supercomputadores varia de 3% a 6%, enquanto que no Brasil, antes da proposta de reforma conhecida como Redata, essa taxa chegava a 55%, ou seja, mais de dez vezes a média global”.
Patane também mencionou que, além de o Redata não ter sido aprovado, houve um aumento adicional no imposto de importação, elevando a alíquota de 55% para 78%. Para ele, a situação atual do Brasil se assemelha a períodos de revoluções industriais anteriores. “No século 20, as cidades que se destacaram foram aquelas que construíram portos e rodovias. No século 21, quem vai participar da evolução será quem investir em inteligência artificial”, afirmou.
Outro participante do painel, Alessandro Molon, diretor-executivo da Digia (Aliança pela Infraestrutura Digital e Internet Aberta), também comentou sobre a importância do Redata. Ele enfatizou a necessidade de uma infraestrutura digital robusta e defendeu o estabelecimento de segurança jurídica e previsibilidade para atrair investimentos. Segundo ele, a aprovação do Redata é crucial para tornar a importação de equipamentos mais atraente e garantir investimentos de longo prazo em setores como data centers e saúde digital, incluindo telemedicina.
“O Brasil precisa do Redata para facilitar a importação de equipamentos ou implementar medidas regulatórias que assegurem previsibilidade para investimentos de longo prazo, como os necessários para data centers voltados para a inteligência artificial”, destacou Molon. Ele ainda lembrou que o país não é apenas um competidor interno, mas enfrenta uma concorrência global por capital intensivo. Para que o Brasil se posicione no cenário tecnológico mundial, a regulamentação que favorece a inovação se torna uma prioridade.
O futuro dos data centers no Brasil está atrelado à sua capacidade de se adaptar e atrair investimentos em tecnologia. Existe um reconhecimento crescente de que, para avançar neste setor, é fundamental reduzir a carga tributária, garantir a segurança jurídica e promover um ambiente favorável para a inovação, permitindo que o país capitalize suas vantagens naturais e geopolíticas.
À medida que a demanda mundial por soluções em inteligência artificial cresce, torna-se imperativo que o Brasil utilize suas riquezas e potencialidades para se firmar como um hub regional de tecnologia, atraindo empresas que buscam expandir suas operações e investir em infraestrutura digital no continente.
Assim, o desafio permanece: como o Brasil pode reverter sua situação atual e se tornar uma força competitiva no mercado global de data centers e inteligência artificial? A resposta pode estar nas mudanças legislativas e na promoção de um ambiente de negócios mais favorável e propício à inovação.
Fonte:: convergenciadigital.com.br



