O mês de setembro é marcado por uma série de campanhas internacionais voltadas à conscientização sobre os chamados cânceres do sangue, grupo que engloba patologias como leucemias, linfomas e o mieloma múltiplo. Tratam-se de condições que acometem diretamente as células sanguíneas, a medula óssea ou o sistema linfático, exigindo uma abordagem médica especializada e diferenciada para cada caso.
As estatísticas oficiais ajudam a dimensionar o impacto dessas enfermidades na saúde pública. Projeções recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam a expectativa de 12.220 novos casos anuais de leucemia no Brasil para o triênio entre 2026 e 2028. No caso do linfoma não Hodgkin, a estimativa é de 12.560 ocorrências por ano, enquanto o linfoma de Hodgkin deve registrar outras 3.070 pessoas diagnosticadas anualmente. Regionalmente, o estado do Paraná também apresenta números expressivos previstos para 2026, com centenas de novos diagnósticos estimados para cada uma dessas variações oncológicas.
O calendário de conscientização do mês reúne datas emblemáticas, iniciando com o Dia Mundial da Leucemia em 4 de setembro, seguido pelo Dia Mundial do Mieloma Múltiplo no dia 5. Pouco depois, em 15 de setembro, o Dia Mundial de Conscientização sobre Linfomas coloca em pauta as vertentes de Hodgkin e não Hodgkin. O mês também reserva o terceiro sábado para reforçar a importância vital da doação de medula óssea.
De acordo com o Dr. Johnny Camargo, hematologista e oncologista do Instituto de Oncologia do Paraná (IOP), agrupar essas enfermidades sob um mesmo termo genérico não significa tratá-las de maneira igualitária. “Quando falamos em câncer do sangue, estamos nos referindo a um grupo bastante diverso de doenças. Uma leucemia aguda, um linfoma e um mieloma múltiplo têm características, evolução e tratamentos próprios. Por isso, o primeiro passo é chegar ao diagnóstico preciso”, esclarece o especialista, ressaltando os avanços na medicina personalizada.
Sintomas iniciais costumam gerar confusão
Um dos principais desafios no enfrentamento precoce dessas condições reside na inespecificidade de seus sinais iniciais, que frequentemente mimetizam patologias menos graves. Entre os sintomas mais comuns estão a fadiga persistente, quadros de palidez, episódios febris, infecções de repetição, perda ponderal inexplicada, sudorese noturna excessiva e o surgimento repentino de sangramentos ou hematomas pelo corpo.
Nas leucemias, o acúmulo de células anômalas na medula óssea compromete a fabricação de elementos sanguíneos saudáveis, desencadeando anemia, cansaço profundo e maior vulnerabilidade a agentes infecciosos. Já nos linfomas, o sinal mais característico costuma ser o crescimento dos gânglios linfáticos — conhecidos popularmente como ínguas —, comumente localizados na região do pescoço, nas axilas ou na virilha.
No mieloma múltiplo, por sua vez, o alvo são os plasmócitos, células produtoras de anticorpos localizadas na medula. A doença pode provocar lesões ósseas, insuficiência renal, elevação dos níveis de cálcio circulante e queda na imunidade. Especialistas reforçam, contudo, que manifestações isoladas dificilmente indicam um quadro oncológico, sendo indispensável a investigação médica diante da persistência e da associação de múltiplos sintomas.
Evolução nos métodos de diagnóstico e terapias
A investigação de um câncer hematológico exige uma bateria complexa de exames, que pode abranger desde avaliações clínicas e hemogramas completos até testes moleculares, exames de imagem, biópsias de linfonodos e mielogramas. Essa precisão diagnóstica revolucionou as opções terapêuticas nas últimas décadas.
Embora a quimioterapia permaneça como um dos pilares de cuidado, o arsenal médico expandiu-se consideravelmente. Atualmente, os protocolos podem incluir imunoterapia, anticorpos monoclonais, terapias-alvo, radioterapia e o transplante de células-tronco hematopoéticas, variando estritamente conforme o perfil biológico do tumor e as condições gerais do paciente.
A importância crucial da doação de medula óssea
A pauta de setembro também destaca o transplante de células-tronco, procedimento vital para o manejo de quadros severos de leucemias, linfomas e mielomas. O procedimento pode ser realizado de forma autóloga (utilizando as células do próprio indivíduo) ou alogênica, quando se recorre a um doador compatível.
A localização de um doador compatível fora do núcleo familiar — cujas chances entre irmãos giram em torno de 30% — é viabilizada por cadastros nacionais e internacionais, como o REDOME (Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea). Com milhões de cadastrados, o Brasil abriga um dos maiores bancos de dados do gênero no planeta, facilitando a ponte entre pacientes e doadores voluntários.
“Câncer do sangue não é um diagnóstico único. Cada paciente chega com uma doença e uma história próprias. Ter acompanhamento especializado permite compreender essas diferenças e tomar decisões com informação, segurança e acolhimento durante todo o tratamento”, conclui o Dr. Johnny Camargo.
Fonte:: bemparana.com.br


