Eleição na Hungria pode tirar da direita populista europeia seu principal garoto propaganda

Redação Rádio Plug
Foto: Divulgação / Estadao.com.br

Após 16 anos à frente do governo, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, enfrenta a possibilidade de perder o poder e encerrar seu período de autoritarismo. As eleições, marcadas para o dia 12 de abril de 2026, são consideradas cruciais e podem determinar não só a nova liderança húngara, mas também influenciar a postura da direita nacionalista e radical em todo o continente europeu.

Pesquisas de intenção de voto recentes indicam que Orbán pode ser superado por Péter Magyar, líder do partido opositor Tisza, que atualmente lidera os levantamentos eleitorais. De acordo com dados do site Politico, o Tisza está com 50% das intenções de votos. O partido Fidesz, de Orbán, aparece em segundo lugar com 39%, enquanto outras siglas menores como Mi Hazánk e Demokratikus Koalíció obtêm 5% e 3%, respectivamente. Para que um partido tenha representantes no Parlamento, é necessário que obtenha no mínimo 5% dos votos.

Frente às demandas locais como melhorias nos serviços públicos e combate à inflação, especialistas entrevistados pelo Estadão apontam que a saída de Orbán parece inevitável, o que poderia abalar significativamente a ala conservadora da direita na Europa. Entretanto, a expectativa é de que essa derrota não seja suficiente para estancar o movimento ultradireitista no continente como um todo.

“Essa eleição é altamente simbólica porque Orbán se tornou um modelo para a ultradireita europeia. Sua eventual perda de poder poderia abalar essa imagem, mas ao mesmo tempo, a ascensão da direita radical é impulsionada por dinâmicas internas que permeiam toda a Europa. Essas dinâmicas deverão continuar a se manifestar em futuras eleições”, afirma Zsuzsanna Végh, coordenadora de programas no think tank German Marshall Fund of the United States (GMF).

Além disso, países como Alemanha e Polônia têm testemunhado um crescimento significativo de partidos de direita radical, tanto nas pesquisas quanto nas eleições para suas respectivas assembleias.

O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve um recorde de votos nas eleições parlamentares de 2025, conquistando 152 dos 630 assentos da Assembleia, marcando um crescimento expressivo de sua participação, que saltou de 10,4% dos votos em 2021 para 20,8% no ano seguinte.

Na Espanha, por sua vez, o partido Vox também tem registrado aumento nas intenções de votos, passando de pouco mais de 12% no último pleito de 2023 para 18% segundo os levantamentos do Politico.

O cenário eleitoral na Hungria pode também ser um indicativo do que se aguarda para as eleições presidenciais na França em 2027, onde Marine Le Pen, do partido Reagrupamento Nacional (RN), promete ter um papel central. Le Pen, que já se candidatou ao cargo presidencial em três ocasiões, está inelegível no momento devido a uma condenação relacionada a um esquema de desvio de verba de seu partido, mas aguarda um apelo para reverter essa situação. Durante esse período, ela tem se concentrado em fortalecer a imagem de Jordan Bardella, presidente do RN, que possui apenas 30 anos.

Andrea Pető, professora e pesquisadora do Instituto de Democracia da CEU em Viena, vê a possibilidade de um novo governo na Hungria como o fim de um experimento ultradireitista que se afastou da União Europeia e isolou questões sociais sensíveis, como a imigração. “A onda populista de direita é um fenômeno internacional, com a Hungria atuando como um laboratório. Políticas e estratégias são testadas aqui antes de serem disseminadas a outros contextos”, destacou Andrea em entrevista ao Estadão.

A Polônia, que irá a eleições parlamentares em 2027, elegeu Karol Nawrocki para a presidência em 2025, cujo apoio foi amplamente influenciado por Donald Trump e Orbán. Esses movimentos evidenciam que a direita ainda possui força na Europa, mesmo com uma de suas figuras proeminentes fora do poder.

“Orbán simboliza um movimento patriótico e eurocético. Ele conta com aliados importantes tanto na Europa quanto globalmente. Portanto, perder uma de suas figuras mais influentes seria um revés significativo para o movimento”, elucidou Byró-Nagy.

Jogo político

Orbán, além de ser um símbolo para a Europa, tornou-se uma peça-chave na representação da direita em outros continentes. Sua relação com Trump é íntima, a ponto do líder americano ter enviado o vice-presidente dos EUA, JD Vance, a Budapeste para se juntar a Orbán em uma tentativa de reverter os resultados adversos nas urnas.

No entanto, Zsuzsanna Végh adverte que tal apoio pode não ser benéfico. A retórica confusa de Trump, especialmente em relação à guerra no Irã e outras questões de política externa, pode prejudicar a imagem de Orbán entre o eleitorado húngaro.

<p“O apoio de Trump à direita radical na Europa pode ser mais prejudicial do que vantajoso, devido à sua imprevisibilidade e falta de confiabilidade”, afirmou a analista. “Neste momento, a ultradireita europeia enfrenta um grande desafio na navegação deste relacionamento complicado.

Desde 7 de abril, Vance participou de um discurso com Orbán, onde afirmou que a União Europeia tem atuado contra o primeiro-ministro húngaro, especialmente em questões de “censura digital”. “Estou aqui para ajudá-lo nesta campanha eleitoral”, declarou Vance, enfatizando a “cooperação moral” entre os Estados Unidos e a Hungria na “defesa da civilização ocidental”.

Orbán já havia criticado publicamente a União Europeia, prometendo “derrubar os portões de Bruxelas”, em referência ao edifício sede do grupo na Bélgica. Atualmente, o primeiro-ministro é um dos principais opositores do Parlamento Europeu.

A ausência de Orbán no comando pode conduzir a mudanças nas decisões do Parlamento Europeu. Com a Hungria alinhada à Rússia, o primeiro-ministro defende posições favoráveis ao Kremlin e tem um papel relevante no veto a ajuda financeira destinada à Ucrânia.

Embora não seja claro como a postura do novo governo sob Magyar, que já se opôs a fornecer armas à Ucrânia, irá se comportar, há expectativas de que uma nova administração possa aceitar ajuda financeira ao país em conflito.

Independentemente do resultado das eleições, especialistas como Byró-Nagy destacam que a importância do governo Orbán já diminuiu. Mesmo que ele vença, sua presença no poder será menos significativa do que nos anos anteriores, sem a maioria absoluta no Parlamento e com uma vitória menos expressiva. A sensação é de que o Fidesz, de Orbán, está em um ciclo de declínio.

“Os anos de glória de Orbán chegaram ao fim, independentemente do que acontecer nas urnas. Mesmo com uma vitória, o resultado será inferior ao que se observou em seus últimos 15 anos de governo”, concluiu Byró-Nagy.

Fonte:: estadao.com.br

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