Especialista da USP aponta computação quântica como desafio estratégico inevitável

Redação Rádio Plug
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A computação quântica figura atualmente entre os temas tecnológicos mais complexos e debatidos no cenário internacional. De acordo com Alfredo Goldman, professor da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Conselho de Administração da IEEE (Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos) Computer Society, o avanço nessa área traz riscos consideráveis, mas a abstenção de investimentos representaria um grave prejuízo estratégico para qualquer nação.

A declaração do pesquisador ocorreu durante entrevista concedida ao portal Poder360, gravada em 6 de outubro de 2026, na sede do jornal digital em Brasília. Durante a conversa, o acadêmico pontuou a dualidade que envolve o setor: “Eu acho que essa é muito arriscada, mas não dá para não investir nela”.

Goldman detém a marca de ter sido o único brasileiro a integrar o grupo de especialistas responsável pelo Megatrends 2030. Trata-se de um documento formal elaborado pelo IEEE que reúne projeções estratégicas sobre os rumos da tecnologia global até o final desta década. A íntegra do material está disponível em formato PDF (10 MB).

Assista à entrevista completa (29min22s):

Conforme avalia o especialista da USP, a corrida global em direção à consolidação da computação quântica é intensificada pelo fenômeno conhecido pelo acrônimo Fomo (do inglês *fear of missing out*, ou o medo de ficar de fora). Na visão dele, governos e potências mundiais evitam a todo custo arcar com as consequências de perder espaço em uma tecnologia com potencial revolucionário para a capacidade de processamento e análise de dados em larga escala.

Riscos à segurança digital e criptografia

Entre os perigos centrais destacados por Goldman está a vulnerabilidade dos atuais sistemas de criptografia que sustentam a segurança de dados na internet. Caso surjam computadores quânticos com maturidade e potência suficientes, estruturas inteiras de proteção de informações sigilosas poderiam ser comprometidas. Essa supremacia tecnológica colocaria o primeiro país dominante em uma posição de enorme vantagem geopolítica e comercial.

Apesar disso, o mercado e a comunidade científica já articulam defesas por meio de metodologias de criptografia pós-quântica, projetadas especificamente para resistir a esse tipo de investida matemática e computacional.

Apesar do receio em relação ao impacto de longo prazo, o professor demonstra cautela e certo ceticismo frente a previsões imediatistas de que computadores quânticos totalmente operacionais estejam prestes a se tornar uma realidade cotidiana. Segundo ele, os protótipos atuais continuam esbarrando em barreiras físicas complexas, destacando-se a alta taxa de geração de erros durante o fluxo de processamento de dados.

O gargalo técnico tende a se intensificar proporcionalmente ao crescimento do número de qubits, as unidades fundamentais de informação na arquitetura quântica. “Eu diria que em 5 anos a gente não vai ver muita coisa”, pondera o pesquisador, recordando que acompanha promessas comerciais e científicas na área desde o início dos anos 2000, enquanto os dispositivos seguem retidos em fases de testes e laboratório.

“E não é que eles estão em estágio de protótipo hoje, eles estão em estágio de protótipo nos últimos 10, 15 anos”, reforçou Goldman durante a entrevista.

A corrida tecnológica global

O cenário de disputa geopolítica ganhou novos capítulos recentes. Em 24 de novembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, oficializou o lançamento da Genesis Mission. Coordenada pelo Departamento de Energia norte-americano, a iniciativa tem como meta impulsionar descobertas científicas por meio da integração entre inteligência artificial, supercomputadores e outras ferramentas tecnológicas de ponta.

No texto da ordem executiva que instituiu o programa, a administração dos EUA comparou o grau de prioridade e ambição da medida ao histórico Projeto Manhattan — esforço científico e militar mobilizado em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, para o desenvolvimento das primeiras armas nucleares. Na sequência da estratégia, o governo anunciou em junho de 2026 o desdobramento batizado de Quantum Genesis, voltado expressamente para viabilizar e implementar computadores quânticos com autocorreção de erros e aplicabilidade científica até 2028.

De acordo com o professor da USP, a base conceitual, os modelos teóricos e os algoritmos que operariam nessas máquinas já foram descritos há várias décadas. O obstáculo real reside no desenvolvimento da engenharia de hardware — os componentes materiais indispensáveis para transformar o conceito matemático em um equipamento funcional. Até o momento, o mercado científico ainda debate qual abordagem física será a mais eficiente na construção dos componentes.

“Por exemplo, tem algumas que resfriam a quase zero absoluto. Tem outras que prendem os átomos com laser”, explicou Goldman.

A instabilidade inerente aos qubits permanece como o grande obstáculo estrutural. Ao contrário dos bits tradicionais da computação clássica, que operam estritamente em estados binários de zero ou um, os qubits sustentam superposições de estados quânticos. Tal propriedade lhes confere uma potência de cálculo incomparável para determinadas tarefas, mas também os torna extremamente suscetíveis a perturbações externas.

Flutuações térmicas, interferências eletromagnéticas e ruídos ambientais são capazes de corromper o estado dos qubits, invalidando os resultados dos cálculos. Para mitigar essas falhas, algumas linhas de pesquisa dependem de infraestruturas criogênicas capazes de aproximar o sistema do zero absoluto (equivalente a −273,15 °C), enquanto outras apostam em armadilhas de íons controladas por feixes de laser de precisão.

Caso a comunidade internacional consiga transpor essas barreiras de engenharia, a aplicação prática de algoritmos avançados trará uma revolução profunda aos padrões vigentes de segurança digital e sigilo de dados em governos, corporações e redes globais.

Fonte:: poder360.com.br

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