Os Estados Unidos iniciam a cobrança de tarifas de 50% sobre aproximadamente US$ 20 bilhões em mercadorias procedentes do Canadá. A medida passa a valer na madrugada deste sábado, 22, após o colapso de conversas de última hora que tentavam evitar o desdobramento desta nova crise comercial entre os dois aliados tradicionais.
Com essa decisão, o governo norte-americano atinge cerca de 5% de todas as exportações anuais enviadas pelo país vizinho para o mercado dos Estados Unidos. O anúncio do fracasso das tratativas foi feito pelo Representante Comercial dos EUA, Jamieson Greer, durante uma teleconferência realizada no final da noite anterior, na qual leu um comunicado oficial para jornalistas.
Segundo Greer, Washington havia concedido ao lado canadense o tratamento mais vantajoso possível em comparação aos demais grandes exportadores que negociam com os americanos. No entanto, o representante alegou que novas exigências e a retirada de compromissos por parte de Ottawa acabaram por inviabilizar o entendimento que parecia consolidado nos dias anteriores. “Esta noite, o Canadá recusou-se a finalizar o acordo comercial nos termos acordados no início desta semana”, declarou.
Por outro lado, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, apresentou uma perspectiva completamente distinta sobre o ocorrido. De acordo com o chefe de governo do Canadá, a contraparte americana modificou os termos propostos na reta final das conversas, adotando uma postura considerada injusta e antieconômica. Carney pontuou que tais alterações repentinas minam a confiança na seriedade de qualquer pacto futuro com a administração dos EUA e antecipou que o governo canadense prepara um pacote de apoio voltado a proteger os trabalhadores e as empresas locais atingidos pelas taxas alfandegárias.
Enquanto Greer defendeu a proposta de Washington como uma visão voltada para o futuro e fundamentada em uma parceria econômica e de segurança nacional inédita, analistas avaliam que o reflexo político dessa ruptura poderá superar os impactos econômicos de curto prazo. Os dois países compartilham uma das fronteiras e economias mais integradas do planeta, tendo movimentado cerca de US$ 880 bilhões em bens e serviços ao longo do ano passado.
A imposição tarifária estava inicialmente programada para entrar em vigor na quarta-feira, à 0h01. Contudo, o presidente Donald Trump concordou em postergar a medida por três dias para abrir espaço a novas rodadas de diálogo, cujo prazo final esgotou-se sem que houvesse fumaça branca para um pacto definitivo.
Relação histórica sob pressão
Apesar de registrarem atritos comerciais pontuais ao longo de décadas — notadamente em setores específicos como a extração de madeira serrada e a produção de laticínios —, norte-americanos e canadenses sempre mantiveram uma forte base de cooperação militar, diplomática e econômica.
Como demonstração dessa proximidade, tropas do Canadá atuaram diretamente ao lado das forças armadas dos Estados Unidos no Afeganistão na esteira dos atentados de 11 de setembro de 2001. A linha divisória entre os dois territórios, que se estende por impressionantes 8.894 quilômetros, notabiliza-se por não possuir postos de vigilância contínua, permitindo um fluxo diário de aproximadamente 330 mil pessoas e US$ 2 bilhões em mercadorias. Estima-se também que cerca de 800 mil cidadãos canadenses residam atualmente em território norte-americano.
Contudo, a atual postura da Casa Branca sob a liderança de Trump marca uma inflexão drástica nessa tradição de amizade bilateral. Desde o seu retorno ao poder, o presidente tem utilizado tarifas punitivas como ferramenta para forçar a relocalização de parques industriais para solo americano, além de ter feito declarações públicas repetidas sobre a hipótese de anexar o Canadá, transformando-o no 51º estado da federação.
O tom adotado por Washington gerou profunda insatisfação na opinião pública canadense. Desde o final de julho, uma petição popular exigindo a expulsão do embaixador americano no país, Pete Hoekstra — apontado como aliado de Trump e responsável por legitimar as falas sobre a anexação —, acumulou quase 248 mil assinaturas.
A vulnerabilidade econômica do Canadá diante de seu principal parceiro também intensifica o clima de tensão em Ottawa, visto que quase 72% de todas as exportações de bens do país tiveram como destino o mercado norte-americano no ano passado.
Do ponto de vista interno, a Casa Branca corre o risco de arcar com desgaste político ao elevar barreiras comerciais justamente no período que antecede as eleições de meio de mandato, agendadas para novembro. Como a taxa é recolhida inicialmente pelas empresas importadoras dos Estados Unidos, existe a probabilidade de que esses custos adicionais sejam repassados aos consumidores na forma de inflação, em um momento em que o custo de vida já figura como uma das principais preocupações do eleitorado americano.
Fonte:: estadao.com.br




