Novas regras de segurança na China elevam custos e o padrão da direção autônoma

Redação Rádio Plug
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Veículo da GAC Aion; China terá novas regras pa...

Durante vários anos, o mercado de veículos elétricos inteligentes na China avançou impulsionado por inovações em inteligência artificial e por uma intensa competição de marketing entre as montadoras. Nomes de peso e fabricantes locais travaram disputas comerciais acirradas, criando termos publicitários como “Nível 2++” e “Navigate on Autopilot” para rivalizar com a repercussão obtida pela Tesla e seu sistema de direção automatizada.

A promessa comercial era de que os automóveis seriam capazes de trafegar por vias urbanas complexas exigindo o mínimo de intervenção humana. No entanto, para grande parte dos motoristas e consumidores, a linha divisória entre um carro equipado apenas com assistências à condução e um veículo verdadeiramente autônomo permaneceu vaga e confusa. Infelizmente, essa indefinição técnica e comercial resultou em episódios graves e consequências fatais em algumas ocasiões.

Para colocar ordem no setor, o governo chinês decidiu impor limites mais rígidos. Reguladores locais apresentaram um pacote com duas normas obrigatórias focadas na segurança de sistemas de assistência ao motorista e de tecnologias de condução autônoma. Com vigência programada para entrar plenamente em vigor em 2027, as diretrizes estabelecem uma separação jurídica rigorosa entre as duas categorias tecnológicas.

Ao implementar protocolos de testes mais severos e definir com clareza as responsabilidades civis e penais, Pequim busca mitigar os riscos inerentes à circulação desses carros e coibir práticas que levem o consumidor a acreditar de forma equivocada que os recursos de assistência proporcionam autonomia total.

Por outro lado, cumprir todas as exigências governamentais impõe um salto significativo nos custos operacionais das montadoras. A adaptação regulatória pode demandar investimentos na casa dos bilhões de yuans, fator que tende a acentuar a distância financeira e tecnológica entre grandes conglomerados e fabricantes de menor porte.

Regulamentação e testes rigorosos para a assistência ao motorista

De acordo com a taxonomia chinesa de automação veicular, os níveis 1 e 2 continuam classificados estritamente como tecnologias de assistência. Isso significa que a presença de um motorista atento e com as mãos no controle do veículo permanece obrigatória durante todo o percurso.

Contudo, diante da corrida comercial pelo consumidor, diversas marcas agruparam recursos com capacidades díspires sob nomenclaturas genéricas. Para sanar essa falha, a nova norma subdivide as tecnologias dos níveis 1 e 2 em três categorias distintas:

  • Sistema básico de faixa única;
  • Sistema básico de múltiplas faixas;
  • Sistema de assistência à navegação.

Além de padronizar os nomes, a legislação restringe uma prática comum no desenvolvimento de software automotivo: a comercialização de programas inacabados com a promessa de corrigir falhas críticas posteriormente por meio de atualizações remotas via internet.

A partir de agora, qualquer sistema de assistência precisará ser aprovado em baterias rigorosas de testes de campo e auditorias conduzidas por instituições independentes e credenciadas diretamente pelo governo antes de atingir a escala de produção em massa.

“No passado, a validação da segurança ficava em grande parte nas mãos das próprias montadoras”, pontuou Liu Hui, especialista em segurança da SZ Zhuoyu Technology, desenvolvedora de sistemas inteligentes ligada à fabricante de drones DJI. Segundo ele, as novas regras substituem a autorregulação corporativa por exames padronizados e de alta complexidade.

Nos testes oficiais, os automóveis serão submetidos a cenários extremos de visibilidade, incluindo ambientes totalmente desprovidos de iluminação externa, onde os sensores ópticos e radares precisarão operar exclusivamente com a luz gerada pelo próprio veículo.

A legislação também prioriza o monitoramento ativo de quem está ao volante. Os computadores de bordo deverão rastrear de maneira contínua o nível de atenção do motorista. Caso os alertas sonoros e visuais sejam ignorados repetidamente, o veículo terá a obrigação de executar de forma autônoma uma manobra evasiva para mitigar riscos e desativar o sistema de modo seguro.

Ademais, os gravadores de dados de bordo precisarão registrar parâmetros de condução em tempo real, facilitando a apuração de responsabilidades jurídicas em caso de sinistros. Embora o encargo financeiro assuste parte da indústria, especialistas concordam com a necessidade da intervenção estatal.

“As principais montadoras aguardavam essas normas, porque um único acidente catastrófico provocado por um sistema sem regulação pode prejudicar toda a indústria”, avaliou um executivo próximo à Huawei, empresa que atua como fornecedora de tecnologia para o setor automotivo.

Com o novo cenário, a engenharia e a confiabilidade dos sensores ganham protagonismo, afastando a dependência de estratégias baseadas unicamente em guerras de preços. Um obstáculo logístico imediato, no entanto, reside na escassez de capacidade técnica: apenas cinco entidades foram credenciadas pelo governo para emitir as certificações oficiais, gerando longas filas de espera entre as montadoras que planejam lançar modelos no mercado.

Direção autônoma de níveis avançados e barreiras financeiras

Enquanto a primeira norma delimita o escopo dos auxílios à condução, a segunda regra estabelece os critérios técnicos fundamentais para que o automóveis assumam de fato o controle total da navegação, enquadrando-se nos níveis 3 e 4 de automação.

Para obter essa certificação, os softwares embarcados deverão demonstrar desempenho equivalente ou superior ao de um condutor humano qualificado e plenamente atento, sem expor pedestres e demais motoristas a riscos desproporcionais.

Um dos pilares exigidos é a capacidade de realizar a chamada manobra de risco mínimo. Trata-se de um protocolo automatizado ativado quando o computador detecta uma situação atípica que ultrapassa os parâmetros para os quais foi projetado. No nível 3, o veículo emite um comando para que o motorista reassuma o volante; já no nível 4, a exigência é mais estrita, obrigando o próprio carro a encontrar um local seguro e estacionar sem nenhuma intervenção humana.

Apesar de o hardware de ambos os níveis apresentar semelhanças, as exigências de redundância operacional e abrangência geográfica diferem consideravelmente. Em dezembro, empresas como Chongqing Changan Automobile e BAIC BluePark receberam autorizações condicionais para testes de nível 3, embora o uso comercial direto nas ruas ainda permaneça restrito a zonas delimitadas em Pequim e Chongqing.

O impacto financeiro dessas exigências tecnológicas é vultoso. O desenvolvimento integrado de hardware, software e infraestrutura de validação para um sistema de nível 3 pode consumir bilhões de yuans, provocando uma clara divisão no mercado automotivo global e regional.

Enquanto gigantes tecnológicas e montadoras com maior capital de giro aceleram os aportes visando à comercialização em larga escala prevista para os próximos anos, fabricantes menores enfrentam o risco de insolvência caso insistam em projetos de direção autônoma sem o respaldo financeiro adequado.

Permanecer restrito ao mercado de assistência básica tampouco oferece um cenário confortável, visto que a margem de lucro nesse segmento tem sido corroída por sucessivas guerras de preços entre concorrentes. A longo prazo, contudo, as empresas que superarem as barreiras regulatórias esperam transformar o modelo de negócios, oferecendo a direção autônoma avançada como um serviço equivalente à contratação de um motorista particular.

Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pela Caixin Global em 28 de agosto de 2026. O conteúdo foi traduzido e republicado sob acordo mútuo de compartilhamento editorial.

Fonte:: poder360.com.br

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