O projeto mais marcante da atual gestão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode não envolver grandes obras físicas, mas sim a consolidação de um robusto muro alfandegário. A recente ameaça de elevar para 50% as tarifas sobre determinados produtos canadenses sinaliza apenas uma fração do cenário que se avizinha. A expectativa é de que o governo implemente taxas elevadas sobre dezenas de nações, com a finalidade de institucionalizar um regime comercial que outrora era visto como temporário, garantindo sua permanência para além deste mandato presidencial.
Diferente de rodadas anteriores de taxação, as novas medidas contam com o respaldo de investigações conduzidas ao longo de meses sobre supostas práticas comerciais desleais de parceiros internacionais. Até o momento, nenhum tribunal invalidou essa modalidade específica de tarifa.
O fator mercado de títulos e a dívida nacional
Contudo, o principal obstáculo para uma eventual reversão dessas diretrizes após 2028 não residirá na esfera jurídica, mas sim na dinâmica financeira. Com a dívida nacional dos Estados Unidos alcançando a marca de US$ 39,6 trilhões, o mercado encarregado de comercializar esses títulos tornou-se altamente dependente do fluxo diário de recursos gerado pelas tarifas governamentais. Analistas apontam que poucos líderes políticos estariam dispostos a desestabilizar esse mercado, visto que ele regula diretamente os custos de empréstimos para aquisições essenciais dos cidadãos, como habitação e veículos.
Essa dependência representa uma reviravolta em relação ao cenário de 15 meses atrás, período em que o próprio mercado de títulos atuou como elemento de pressão contra as políticas tarifárias iniciais da administração.
Em abril de 2025, durante o episódio conhecido como “Dia da Libertação”, o presidente ameaçou elevar as taxas de importação a patamares inéditos em quase um século. Na ocasião, os mercados financeiros entraram em turbulência, temendo pressões inflacionárias e a desaceleração do crescimento global em decorrência de uma possível guerra comercial, o que forçou o governo a suspender temporariamente os planos. “Eu estava observando o mercado de títulos. O mercado de títulos é muito traiçoeiro”, declarou Trump na época.
Apesar da reticência inicial, a estratégia não foi abandonada. Nos meses seguintes, medidas protecionistas foram aplicadas de forma contínua a diversos parceiros comerciais. A reação dos mercados, contudo, perdeu força, amparada pela ausência de retaliação expressiva por parte de economias como Europa, Índia e Japão. Paralelamente, o endividamento público crescia a um ritmo de cerca de US$ 40 bilhões semanais, valor que passou a ser absorvido com maior facilidade por Wall Street devido à injeção de receita proveniente das alfândegas nos cofres do Tesouro.
Reforço fiscal e novos rumos
Três meses após o episódio de abril, os recursos obtidos com as tarifas subsidiaram a aprovação de cortes de impostos associados ao projeto legislativo “One Big Beautiful Bill”. Segundo o diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett, projeções do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) indicavam que a arrecadação tarifária geraria US$ 2,8 trilhões em uma década, representando um mecanismo de redução do déficit. Ao fechar o ano de 2025, o governo registrou uma receita tarifária líquida recorde de US$ 264 bilhões, montante superior ao triplo do período anterior.
A interdependência financeira ficou evidente quando a Suprema Corte invalidou a autoridade presidencial para utilizar a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) na imposição de taxas. Na ocasião, investidores liquidaram posições temerosos com o encerramento da fonte de receita. A resposta do Executivo ocorreu poucas horas depois com a implementação de tarifas de contingência, estabilizando os mercados e pavimentando o caminho para novas cobranças com respaldo jurídico consolidado, estimadas em quase US$ 1 trilhão na próxima década.
Diante desse cenário de pressão fiscal contínua, os futuros ocupantes da Casa Branca deverão ponderar a manutenção de parte das tarifas, possivelmente reavaliando a origem das receitas. Especialistas sugerem uma abordagem mais direcionada, com foco em economias que apresentam expressivos superávits comerciais, a exemplo da China. Uma estratégia coordenada com aliados ocidentais — que também enfrentam pressões de exportações chinesas em setores industriais e tecnológicos — poderia moldar um ambiente comercial mais protegido e estável para a economia norte-americana nos próximos anos.
Fonte:: estadao.com.br




