Panorama do trabalho por aplicativos no Brasil aponta cerca de 2 milhões de profissionais ativos

Redação Rádio Plug
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Foto: Divulgação / Foto: editor

O mercado de trabalho brasileiro conta com aproximadamente 2 milhões de pessoas que exercem suas atividades profissionais por meio de aplicativos de plataformas digitais. Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) através de uma edição temática da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, que mapeia o ecossistema do trabalho plataformizado no país.

De acordo com o levantamento, o universo de 1,959 milhão de trabalhadores que utilizam aplicativos para prestar serviços representa 1,9% da população total ocupada no Brasil. O perfil predominante dessa força de trabalho é autônomo, atuando por conta própria, mas enfrentando jornadas semanais mais longas em comparação aos demais trabalhadores do setor privado, além de registrarem ganhos menores por hora trabalhada.

Distribuição por setores e serviços

O estudo do IBGE categoriza os trabalhadores com base nas demandas que atendem por meio da tecnologia. O setor de transporte de passageiros lidera com folga a preferência dos profissionais, concentrando cerca de 1,2 milhão de pessoas, o equivalente a quase 60% (58,9%) do total de plataformizados. Destes, a grande maioria (1,1 milhão) utiliza ferramentas de mobilidade urbana tradicionais, enquanto 232 mil operam exclusivamente com aplicativos voltados para o serviço de táxi.

Na sequência, o segmento de entregas de refeições, produtos e mercadorias representa 19,2% da categoria, somando 376 mil entregadores cadastrados em plataformas como iFood, Rappi e similares. O mapeamento também identificou uma parcela de 313 mil pessoas (16%) dedicadas à prestação de serviços gerais ou profissionais, setor que engloba desde designers e tradutores até profissionais da saúde que realizam atendimentos via telemedicina.

No panorama geral das atividades econômicas, o subsetor de transporte, armazenagem e correios atrai a esmagadora maioria dessa mão de obra, respondendo por 75% dos trabalhadores de aplicativos — uma proporção de três a cada quatro profissionais.

Evolução e crescimento da categoria

Apesar de o levantamento da Pnad sobre o trabalho plataformizado ainda possuir caráter experimental, o IBGE já havia aplicado a metodologia em edições anteriores, como em 2022 e 2024. Contudo, cabe destacar que a contagem total de 2 milhões em 2025 inclui aqueles que utilizam os aplicativos como fonte de renda secundária, fator que impede a comparação direta com os anos anteriores, onde apenas a ocupação principal era contabilizada.

Ao isolar apenas os trabalhadores que têm nos aplicativos a sua ocupação principal, o total para 2025 chega a 1,8 milhão. Esse recorte permite a comparação temporal, indicando uma expansão expressiva: foram 1,3 milhão em 2022 e 1,7 milhão em 2024. O crescimento foi de 9,1% em apenas um ano e de 36,8% no intervalo de três anos. Entre os setores, o de entregadores se destacou com um salto de 18,6% de 2024 para 2025, sendo a única categoria com variação em dois dígitos.

Perfil e motivações para o trabalho

O perfil demográfico dos trabalhadores com ocupação principal em aplicativos mostra forte predominância masculina, representando 84,4% a cada 100 profissionais em 2025. Em termos etários, quase metade do contingente (47%) está na faixa dos 25 aos 39 anos.

Questionados sobre os motivos que os levaram a ingressar nesse mercado, os motoristas de aplicativos (exceto táxi) e os entregadores apontaram a dificuldade de encontrar outra colocação no mercado de trabalho tradicional como a principal razão. Outros fatores citados foram a busca por flexibilidade de horários e a expectativa de rendimentos superiores aos oferecidos em vagas convencionais.

Jornadas estendidas e rendimento por hora

O rendimento médio mensal obtido pelos trabalhadores plataformizados no exercício de sua ocupação principal ficou em R$ 3.147 em 2025, patamar muito próximo ao dos trabalhadores não plataformizados, que registraram R$ 3.148. Enquanto os trabalhadores tradicionais viram seus ganhos subirem 4,1% já descontada a inflação, o rendimento dos motoristas e entregadores manteve-se estável em relação a 2024, quando era de R$ 3.151.

Entretanto, o IBGE ressalta que esses valores representam o montante líquido retirado pelo profissional, já abatidos os custos operacionais, como o gasto com combustível. O ponto crítico apontado pela pesquisa reside na carga horária: enquanto a média dos trabalhadores comuns foi de 39,3 horas semanais, os profissionais de aplicativos cumpriram 44,7 horas por semana — uma diferença de 5,4 horas a mais.

Como consequência da jornada estendida atrelada a ganhos mensais equivalentes, o rendimento por hora do trabalhador de app revelou-se inferior. Eles receberam em média R$ 16,2 por hora trabalhada, valor 12% menor do que os R$ 18,4 por hora auferidos pelos demais trabalhadores.

Informalidade e seguridade social

A pesquisa evidenciou que a vulnerabilidade trabalhista é mais acentuada entre os prestadores de serviços por aplicativos. Do total de plataformizados, 72,1% encontravam-se na informalidade, contra 42,7% na média dos demais trabalhadores. O conceito de informalidade do IBGE abrange empregados sem carteira assinada e trabalhadores por conta própria sem CNPJ, desprovidos de direitos como férias remuneradas e 13º salário.

Além disso, a cobertura previdenciária atinge apenas 34% dos trabalhadores de aplicativos, enquanto no restante do mercado o índice chega a 63%. A ausência de contribuição regular à previdência deixa esses profissionais descobertos de garantias fundamentais, a exemplo de aposentadoria, auxílio-doença e pensão por morte.

Conta própria com dependência operacional

Do total de ocupados por meio de ferramentas digitais, 86,8% (cerca de 1,6 milhão de pessoas) declararam-se trabalhadores por conta própria, proporção muito superior à média de 28,9% observada no setor privado como um todo.

Apesar de formalmente autônomos, o IBGE destaca que há indícios de forte dependência estrutural em relação às empresas controladoras das plataformas. Entre os motoristas de passageiros, 80,2% afirmam que a remuneração por cada tarefa depende inteiramente do aplicativo. No caso dos entregadores, o índice de dependência total chega a 78,3%. Além disso, 65,9% apontam que os prazos são definidos pelas empresas e 71,3% relatam que a forma de pagamento é determinada unilateralmente pelo sistema.

Para o analista do IBGE Gustavo Geaquinto Fontes, a dinâmica difere da figura tradicional do autônomo. Embora não haja vínculo empregatício formal, o trabalhador experimenta subordinação em diversos aspectos operacionais perante a empresa detentora da tecnologia.

Debate jurídico e contestações do setor

A divulgação da pesquisa ocorre em meio a intensas discussões jurídicas sobre a chamada “uberização”, tema que aguarda desdobramentos no Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto associações de motoristas buscam o reconhecimento de vínculo de emprego para combater a precarização, as companhias rechaçam essa possibilidade, posicionamento respaldado por um parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) contrário à vinculação trabalhista.

Em resposta ao estudo oficial, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), entidade que representa grandes empresas do setor como Uber, 99 e iFood, emitiu nota na qual aponta limitações metodológicas na pesquisa do IBGE. Segundo a associação, o levantamento apresenta inconsistências ao classificar a proporção de trabalhadores com renda secundária em contraponto aos motivos declarados pelos profissionais. A entidade defende o aperfeiçoamento dos métodos de aferição e reforça o apoio a uma regulamentação equilibrada que garanta proteção aos prestadores sem comprometer a flexibilidade dos modelos de negócios.

Fonte:: diariopr.com.br

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