* Por Leah Clapman
Nos últimos 16 anos à frente do SRL (PBS News Student Reporting Labs), a preocupação com o futuro do jornalismo nunca foi tão intensa. O setor não apenas enfrenta a perda de empregos e a necessidade urgente de encontrar novos modelos de negócios, mas também observa uma diminuição nas liberdades de imprensa. Um estudo do News Literacy Project revelou que a maioria dos jovens percebe a mídia de maneira negativa, usando termos como “chata”, “tendenciosa” e “ruim”. Para 84% dos adolescentes entrevistados, essas palavras definem a percepção que têm sobre o atual cenário da informação.
Essa realidade representa um alerta que não pode ser ignorado. Para cultivar um público e uma força de trabalho informados e engajados nos próximos 20 anos, é imprescindível que as ações tomadas hoje sejam eficazes e envolventes.
As organizações de mídia e seus financiadores precisam adotar uma abordagem proativa para envolver os jovens no jornalismo. Existem histórias que apenas eles conseguem contar. Programas direcionados para a mídia juvenil são fundamentais, pois ajudam os adolescentes a se verem como colaboradores ativos no ecossistema noticioso, e não apenas como consumidores passivos de conteúdo. A falta de investimento em iniciativas que engajem a próxima geração pode resultar na sua completa desconexão com o jornalismo.
As pressões financeiras e os cortes em verbas federais têm desmantelado programas que construíam a confiança dos jovens na mídia, justo quando essa necessidade se torna mais latente. Nos últimos dois anos, o ecossistema de mídia voltado para a juventude nos Estados Unidos sofreu um desgaste significativo. A Conde Nast decidiu encerrar a publicação da Teen Vogue, uma revista que abordava questões complexas de forma acessível aos jovens. O programa RadioActive, da rádio pública KUOW de Seattle, que oferecia treinamento, foi descontinuado, assim como o YR Media na Califórnia, que era voltado para criadores de diversos grupos étnicos. Além disso, iniciativas como o Channel One e os escritórios estudantis da CNN, que promoviam reportagens feitas por estudantes em escolas de todo o país, foram fechados em 2014 devido a cortes orçamentários.
Esses programas não eram meras experiências. Eles proporcionavam aos adolescentes uma introdução ao jornalismo, ensinando ética e os processos que fundamentam uma reportagem de qualidade. O mais relevante é que despertavam neles o interesse e a preocupação com o futuro das notícias.
Uma pesquisa feita pelo Media Education Lab da Temple University demonstra como esses programas alteram a percepção dos estudantes em relação ao jornalismo. Um levantamento feito antes e depois da participação em iniciativas de mídia jovem mostrou mudanças significativas na valorização de reportagens bem elaboradas, especialmente aquelas que são digitais e colaborativas e que têm um foco em solucionar problemas.
Agora, há ferramentas que podem ser utilizadas para restaurar a confiança dos jovens na mídia, e isso é visível em várias situações.
O laboratório de reportagem estudantil SRL atua com estudantes e professores em diversas partes dos Estados Unidos, criando reportagens para comunidades locais e para o PBS NewsHour. Os envolvidos produzem jornalismo focado em soluções para assuntos que impactam suas vidas e comunidades, abordando temas como violência armada, saúde mental, mudanças climáticas e educação. Eles aprendem a realizar entrevistas, a pesquisar, a identificar informações verídicas e a contar histórias com ética. Essas experiências resultam em interações positivas com seus colegas e adultos, ajudando na compreensão do mundo e na descoberta de suas identidades. Seus trabalhos alcançam milhões de espectadores através das plataformas de transmissão e digitais da PBS, demonstrando que, quando recebem suporte adequado em treinamento, mentoria e conexões, os jovens conseguem atender aos padrões profissionais de qualidade.
Além disso, jovens que colaboram com profissionais do setor têm uma compreensão mais profunda do valor das notícias e da importância de investir na sua continuidade.
Um exemplo disso é o relato de um ex-aluno do SRL, que destacou: “Por meio da SRL, consegui me conectar com muitas pessoas e tive a oportunidade de entrevistar líderes como o Secretário de Educação dos EUA, Miguel Cardona, e o autor e empreendedor Hank Green. Essa experiência, e a comunidade que encontrei, realmente mudaram minha vida. Agora sou um doador mensal das emissoras públicas locais e atuei como Embaixador da Mídia Pública da KUT”.
Esse depoimento sintetiza bem a importância do investimento em mídias jovens e o retorno que pode ser gerado.
Outras iniciativas também têm demonstrado formas de apoiar o desenvolvimento de futuros jornalistas e um engajamento mais amplo do público. Exemplos incluem o WHYY Media Labs, em Filadélfia; o KQED Youth Media Challenge, em São Francisco; e o The Bell, que realiza programas em Nova York e no Mississippi, além do Podcast Challenge da National Public Radio. Associações como o Student Press Law Center, a Journalism Education Association e a NYC Youth Journalism Coalition têm se esforçado para criar mais oportunidades de conexão entre jovens e jornalistas, além de incentivar a participação em programas de jornalismo escolar.
Quando as redações incluem vozes jovens e publicam o trabalho dos novos jornalistas, a cobertura se torna mais robusta, diversificada e representativa em relação a questões cruciais. Mesmo que as organizações de mídia não possuam recursos financeiros para convidar os jovens a participar ativamente, elas ainda podem estabelecer diálogos, perguntando sobre as questões que mais importam para eles e ouvindo suas respostas atentamente.
Os financiadores precisam reconhecer a importância das iniciativas voltadas para jovens como uma infraestrutura essencial para construir confiança, relevância e suporte a longo prazo. Fortalecer laços com os jovens e seus educadores é fundamental para garantir a sustentabilidade do jornalismo no futuro. Investir em práticas que já se mostraram eficazes é a chave para a construção de um novo cenário informativo.
Leah Clapman é fundadora e diretora-executiva do PBS News Student Reporting Labs.
Texto traduzido por Ludmyla Barros. Leia o original em inglês.
O Poder360 possui uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. A parceria consiste na tradução de textos para o português e publicação no Poder360. Para acessar todas as traduções já publicadas, clique aqui.
Fonte:: poder360.com.br




