O Janaíno Vegan Largo da Ordem, em Curitiba, será o palco do Festival Sem Assédio neste sábado, dia 11, das 17h às 23h. A primeira edição do evento contará com a apresentação de sete bandas compostas majoritariamente por mulheres e pessoas de diversas identidades de gênero.
Além das performances musicais, o festival se propõe a ser um espaço de diálogo sobre temas como representatividade, segurança e permanência na cena musical. O evento foi criado para ampliar a visibilidade de mulheres e dissidências na cena underground de Curitiba e surge como uma resposta coletiva à violência de gênero e à exclusão enfrentada por artistas independentes.
As informações sobre os ingressos e a programação completa podem ser acompanhadas pelo Instagram oficial do festival, @festivalsemassedio.
Iniciativa e Motivação
A ideia do festival teve início após Duda Hopp, vocalista e fundadora da banda Demolidoras, relatar que foi vítima de assédio e importunação sexual por parte de um produtor de eventos. Esse episódio data de alguns meses antes, quando Duda criticou em um festival de hardcore a falta de bandas femininas no line-up, que era composto exclusivamente por homens.
Após o incidente, Duda compartilhou sua experiência em um vídeo nas redes sociais, sem citar o nome do produtor. O vídeo gerou uma onda de solidariedade entre outras artistas, que também relataram ter passado por situações semelhantes. A indignação foi tamanha que todas as bandas que estavam confirmadas para o evento decidiram cancelar suas apresentações em solidariedade a Duda.
Duda registrou um boletim de ocorrência e decidiu seguir com o processo para que a situação não ficasse impune.
“Não é Cota. É Obrigação.”
A trajetória musical de Duda começou há cerca de três anos, quando decidiu formar uma banda de punk rock autoral. Sem experiência anterior no circuito underground, ela contatou bandas que realizavam shows de tributo em Curitiba por meio do Instagram. Assim, conheceu Sofia Nyx, que, junto com Oli no baixo e Buh na bateria, formaram as Demolidoras.
Com o passar do tempo, Duda notou que as bandas compostas por mulheres e dissidências em Curitiba estavam formando uma rede de apoio, incentivada principalmente pelo Rock Camp, um projeto internacional que incentiva mulheres e meninas a aprender instrumentos e formar suas próprias bandas. Entretanto, Duda destaca que o verdadeiro desafio começa quando essas artistas tentam expandir seu espaço na cena musical.
“Quando nós, mulheres, conseguimos uma oportunidade em eventos maiores, muitas vezes somos a única banda diversa e, geralmente, somos escaladas apenas para abrir o evento”, afirma Duda. Ela ainda enfatiza que essa prática muitas vezes é uma tentativa dos organizadores de cumprir uma “cota” para evitar críticas relacionadas ao machismo.
Olívia Yells, vocalista de outra banda local, compartilha dessa visão e destaca que isso é notável nos cartazes de shows pela cidade. “É comum sentirmos que nossa presença é apenas uma cota, e muitas vezes devemos ser gratas apenas por estar como banda de abertura. Isso quando conseguimos encontrar um festival que inclua mais de duas ou três bandas com mulheres em seus line-ups”, comenta.
Duda defende que a inclusão deve ser vista como uma obrigação e não como um favor, especialmente na cena underground, que surgiu como uma forma de resistência às opressões existentes.
Assédio e Desafio no Cenário Musical
A experiência de Duda não é um caso isolado. Olívia Yells também relatou situações de assédio e misoginia, tanto vivenciadas por ela quanto por outras mulheres próximas em diversos shows.
“É frustrante ter que estar sempre atenta para evitar situações desconfortáveis, tentando não parecer exagerada ou descontrolada”, desabafa Olívia.
Diante desse contexto, o Festival Sem Assédio se destaca não apenas como um evento musical, mas como um movimento de conscientização coletiva. As organizadoras esperam atrair entre 150 e 200 pessoas durante o dia. Os ingressos terão um custo, mas haverá opções de gratuidade ou desconto disponíveis para pessoas trans, com deficiência, e outros grupos prioritários.
Nos intervalos dos shows, o festival oferecerá um espaço para discutir abertamente sobre exclusão, assédio e violência sexual que permeiam a cena artística de Curitiba.
Duda enfatiza que o objetivo é que todas as artistas e o público se sintam acolhidos. “Queremos que os shows transformem essa sensação de impotência em união e voz coletiva, que ecoe cada vez mais alto”, afirma.
Movimento por Inclusão
O Festival Sem Assédio não é o primeiro a abordar essa temática em Curitiba. Iniciativas anteriores, como o Festival Electra, também se propuseram a promover a diversidade nas suas programações. “A presença forte de mulheres e dissidências gera um senso de pertencimento e segurança”, lembra Duda.
Olívia Yells acredita que fortalecer essas iniciativas pode resultar em mudanças duradouras na cena musical curitibana. “A força coletiva é poderosa quando mulheres se unem para promover transformações. Estou ansiosa por este evento e por tudo que ele representa. Sinto que estamos fazendo história, na verdade, já estamos fazendo”, ressalta.
Para Duda, o propósito do festival vai além do evento em si. “Não estamos conformadas com a situação atual. Queremos desbravar novas oportunidades e espaços, incomodando aqueles que ainda alimentam a misoginia nas práticas artísticas”, conclui.
O Festival Sem Assédio acontece no dia 11 de julho, das 17h às 23h, no Janaíno Vegan Largo da Ordem, em Curitiba.
Fonte:: bemparana.com.br




