Por Gretel Kahn*
A preocupação sobre a substituição de empregos pela inteligência artificial (IA) ganhou destaque em diversos setores, e no jornalismo, essa questão é especialmente pertinente. À medida que empresas de mídia adotam cada vez mais tecnologias de IA, surgem debates sobre seu impacto na profissão e nas condições de trabalho dos jornalistas.
A IA já desempenha diversas funções, desde pesquisa e contextualização até transcrições, traduções e até a criação de conteúdo audiovisual. Recentemente, ferramentas de IA começaram a produzir textos de forma autônoma, levando a uma crescente apreensão entre os profissionais da área.
Apesar disso, os cortes de vagas relacionados à IA no jornalismo ainda são limitados. Segundo um levantamento do Reuters Institute for the Study of Journalism, cerca de dois terços dos gestores de mídia afirmam que não houve demissões em decorrência da IA. No entanto, essa situação está mudando gradualmente.
No início do mês, o sindicato que representa os jornalistas da Associated Press anunciou que mais de 120 colaboradores receberam ofertas de desligamento voluntário, enquanto a empresa planeja aumentar o uso de IA e produção de conteúdo em vídeo. Essas mudanças vão além das demissões iminentes; a implementação da IA tem se espalhado, e muitos jornalistas buscam maneiras de se proteger nesse novo paradigma de transformação.
As mudanças se aceleram principalmente nos Estados Unidos, onde sindicatos de três jornais —Miami Herald, Sacramento Bee e Kansas City Star— apresentaram queixas formais contra a McClatchy, a controladora desses veículos, por introduzir uma nova ferramenta de IA em seus fluxos de trabalho sem consultar os funcionários. Essa ferramenta é projetada para gerar resumos de reportagens, criar versões personalizadas para diferentes públicos e desenvolver roteiros para vídeos curtos.
Para a diretoria da McClatchy, a nova ferramenta é um “parceiro de escrita”. Entretanto, jornalistas afirmam que seus textos estão sendo utilizados sem o devido aviso ou consentimento. A repórter investigativa do Sacramento Bee expressou preocupação com a transparência e a potencial erosão da confiança do público: “Não queremos que o público pense que temos qualquer relação com isso. Sentimos que isso trai a confiança do público e prejudica nossa credibilidade”, declarou.
Além disso, jornalistas da ProPublica decidiram fazer uma greve de 24 horas após longas negociações sem que um acordo fosse alcançado, especialmente no que tange a regras sobre o uso de IA e proteção contra demissões relacionadas à tecnologia. Na Itália, a situação é semelhante, com o principal sindicato de jornalistas realizando uma greve por dois dias em resposta à negativa das editoras em estabelecer regulamentos claros sobre o uso de inteligência artificial.
O tema da IA tem gerado discussões intensas entre os sindicatos em todo o mundo. Conversei com representantes de sindicatos jornalísticos nos Estados Unidos, Filipinas e Grécia para entender como essas organizações estão tentando resguardar os direitos de seus membros frente às mudanças provocadas pela tecnologia.
OS SINDICATOS E A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Embora os sindicatos entrevistados não tenham relatos de substituições específicas de jornalistas pela IA, a proteção dos profissionais humanos é uma preocupação central. Muitos acordos coletivos estipulam que a IA não pode ser utilizada para substituir funcionários, como ocorre no News Media Guild. Outros acordos preveem compensações maiores em casos de demissões relacionadas à tecnologia, como no PEN Guild.
O uso da IA nas redações levanta uma série de questões complexas além de possíveis demissões. Segundo o diretor administrativo do News Media Guild, os sindicatos têm o direito de negociar não apenas a manutenção de empregos, mas também as condições de trabalho e a maneira pela qual a IA pode impactar a rotina profissional dos jornalistas.
“A questão mais complicada é definir quais usos da IA serão permitidos sem que isso afete o número de funcionários”, comentou. “Temos um grupo ativo de membros que busca expandir essa discussão com a Associated Press. A estrutura atual de diálogo é boa, mas precisaremos continuar conversando à medida que a tecnologia evolui”.
Os impactos específicos da IA no trabalho jornalístico foram mencionados como motivos de queixa por todos os representantes sindicais entrevistados. Apesar de questões como empregos e salários continuarem a ser prioridade, também existem preocupações relacionadas à precisão das informações geradas pela IA. “A IA está cercada de desafios no que diz respeito à produção de informações”, destacou um dos representantes.
Recentemente, dois incidentes no Politico levantaram preocupações quando os gestores implementaram iniciativas de IA sem informar os trabalhadores, em desacordo com o contrato que exige negociações antes de alterações significativas nas funções. A presidente do PEN Guild explicou que as ações da direção do Politico violaram o contrato, que determina que qualquer uso da IA deve seguir padrões éticos específicos.
UMA AMEAÇA À CREDIBILIDADE
Os esforços para estabelecer proteções para jornalistas em relação à IA não têm sido simples, especialmente em países com estruturas sindicais mais frágeis. Um diretor de redação das Filipinas, que pediu anonimato, relatou que muitos veículos possuem apenas diretrizes gerais sobre o uso ético da IA, sem garantias contra sua utilização para substituir trabalhadores. “Isso representa uma ameaça existencial”, ele afirmou. “Espero que os gestores reconheçam a necessidade de mudanças nas políticas”.
A falta de regulamentação robusta também é uma preocupação comum em outros países. Em comparação, a Federação Pan-Helênica dos Sindicatos de Jornalistas na Grécia introduziu um código de ética em 2025 e até agora, as negociações com os empregadores têm sido produtivas, com disposição para proteger os jornalistas.
O DESAFIO DE ENFRENTAR A MUDANÇA
Um ponto importante levantado por todos os representantes sindicais é a necessidade de um compromisso claro com o jornalismo baseado em humanos, evitando substituir jornalistas por tecnologias automatizadas. Embora o uso da IA seja amplamente aceito para tarefas operacionais, como transcrições e análises de dados, a resistência aumenta quando ferramentas são introduzidas para realizar funções criativas e jornalísticas.
Os sindicatos se deparam com a constante evolução das questões relacionadas à IA. O questionamento inicial sobre a perda de empregos evoluiu para novas interrogações: se uma empresa utilizar conteúdo jornalístico para treinar modelos de IA, os jornalistas envolvidos devem ser remunerados? E será que haverá treinamento adequado para esses novos sistemas?
Conforme ressaltado por um gestor da redação, é um desafio contínuo: “é como tentar pregar gelatina na parede. Sempre que pensamos que resolvemos algo, a tecnologia muda novamente”. Apesar das incertezas, os sindicatos têm demonstrado um papel crucial na defesa dos direitos dos jornalistas durante essa transição tecnológica.
UM FUTURO INCERTO
O cenário atual do jornalismo é marcado por desafios financeiros, com queda de audiência, demissões em massa e um modelo de negócios muitas vezes frágil. Em meio a isso, a IA é vista tanto como um problema quanto como uma oportunidade de crescimento.
Enquanto algumas redações adotam estratégias inspiradas no Vale do Silício para inovar e escalar a produção de conteúdo, é essencial que não percam de vista a responsabilidade de fornecer notícias precisas e de qualidade ao público.
Os desafios para proteger os direitos dos trabalhadores da mídia em relação à IA são significativos, dada a autonomia das redações e a falta de incentivos para criar políticas protetivas. “Precisamos estar prontos para uma batalha difícil”, concluiu um dos jornalistas entrevistados.
Gretel Kahn é jornalista do Reuters Institute for the Study of Journalism
Texto traduzido por Thiago Correia. Leia o original em inglês.
O Poder360 tem uma parceria com duas divisões da Fundação Nieman, de Harvard: o Nieman Journalism Lab e o Nieman Reports. O acordo consiste em traduzir para português os textos do Nieman Journalism Lab e do Nieman Reports e publicar esse material no Poder360. Para ter acesso a todas as traduções já publicadas, clique aqui.
Fonte:: poder360.com.br




